O colar era de dentes careados. Não era uma tentativa de adjetivação criativa, ou uma forma simplificada de informar o caro leitor que os ditos encareceram, quiça pelo uso dado pelo seu utilizador, mas uma designação comummente utilizada por dentistas e massivamente replicada pelos sofríveis proprietários das referidas cáries.
E ele não conseguia olhar o dentista nos olhos, quando o tilintar, abafado pela relativa putrefação, o mantinha em sentido. O "queira sentar-se" era apóstrofe agressiva à história que ele criava na privacidade do seu pensamento. E, mesmo assim, sentou-se. Abriu a boca à ordem e, não contendo os frémitos da excitação gerada, sentiu a base do seu nariz, onde supostamente duas fossas se deveriam instalar, bater repetidamente contra o lábio superior. Ora este, decifrando o morse que se desenrolava deste cenário bizarro, juntava-se ao a sul e comunicava aquilo que o seu dono havia pensado ainda há pouco.
O dentista, enluvado de verde, de dedos ondulantes e viscosos, de boca bloqueada pela assepticidade, e de olhos amarelados pelo excesso de luz, assentiu com a cabeça, como se realmente tivesse experienciado as aventuras do relato, e arrancou-lhe um dente. Erguendo-o no ar, raíz cor beterraba, gritou: VOILÀ! O dolorido, agarrado ao queixo, percebeu momentos depois a exaltação. É que o dentista, concentrado na cárie, como se de buraco negro se tratasse, foi chupado pelo mesmo e nunca mais voltou...