quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Faltou tentar o impossível

“Faltou tentar o impossível”. A interjeição colocada pelo estranho de fraque, tom noturno de pele, fado aos ombros, e anéis de vinho tinto no lugar de óculos, nadava no mesmo vácuo contextual que a sua presença naquela loja de conveniência. E denomino-a de interjeição porque se tratava de um desdobramento, um genérico da palavra “alerta”, cuspido com esplendor. Revi, em memória residual, a frase que se assemelhava a uma Vénus de Milo. E, foi na busca dos membros ausentes, que retorqui com os sobrolhos, arqueando-os tais gatos coléricos. Ele, consentidamente mordendo o anzol, rematou com a palavra “civilização”. O meu cérebro pareceu então converter-se num ábaco, cuja soma da informação recebida tendia a igualar mais a minha perceção da sua lógica do que a real lógica do meu interlocutor. Nessa egocêntrica indução, perspetivei uma eventual relação entre civilização e contrato social, e, foi quando me preparava para a verbalizar, que ele estendeu os braços, erguendo-os e erguendo as palavras ao púlpito da razão: “Na deificação da predação e do darwinismo, o ser humano colocou um garrote no tecido social, não deixando bombear os sentimentos à razão, contribuindo, assim, para entronizar a solidão”. Pausou durante breves segundos, apenas para perscrutar se o estava a acompanhar. Não vendo reação, prosseguiu: “Que fé inabalável é esta em contratos sociais assentes em sistemas coercivos, em que, na melhor das hipóteses, a qualidade que vinga é a tolerância? Falta tentar o impossível. Falta tentar a harmonia…” Empolgado com tal dialética, levantei-me, paguei o café que não cheguei a beber, e perguntei-lhe quem ele era. A resposta foi imediata, porque a pergunta ele já a esperava: “Sou Prometeu e trago o fogo à humanidade…”.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Restava...


Restava uma bala no tambor. A pistola, de nome Arma, e de onde provieram os sete tiros, não era de metal, mas de carne e osso; e sendo tão ciosa das suas balas, sentiu-se, naturalmente, saqueada pelo origami, de membros inflados e chapéu à cowboy, que, entretanto, a voltava a guardar.

Instantes depois, enquanto a Arma, confortavelmente acomodada numa das assoalhadas do coldre, redigia uma queixa formal, o origami desceu os degraus de Escher. Já no telhado, assobiou, e a sua nuvem, entre relinchos, choveu, que era a maneira como anunciava a sua presença. Sentou a culatra na sela e cavalgou para um sol posto, oferecendo as costas a uma moribunda lua, jazendo em sangue e questionando-se sobre a razão de tanta violência.

A forma como, durante a noite, os prédios se metamorfoseavam em animais, arregaçavam os passeios malhados, esticavam os pescoços à lua, saudando-a com uivantes piropos, havia alimentado o ciúme do poeta Heterónimo, um assumido monogâmico literário. Certo dia, enquanto regava os narcisos, declamando excertos da sua obra a um espelho demitido, decidira, egoisticamente auto-flagelar-se, contratando um assassino profissional, e comprometendo-se pagar-lhe com a alma, já que carecia de talento.

No dia em que o origami voltou para cobrar o seu serviço, encontrou um arrependido Heterónimo, suspirando a uma minguada lua e argutamente tecendo um feiticeiro poema, esperançoso de ressuscitar a sua amada. O cumprimento de origami despertou a enfunada Arma que, antecipando mais uma usurpação abusiva dos seus bens, decidiu por termo ao desaforo. Sacou-se e disparou-se. O calejado origami, de movimentos felinos, esquivou-se, vendo a bala anichar-se na fronte de Heterónimo.  

E é por isso que, a partir desse dia, já não existe lua cheia. A Arma tornou-se uma pacifista e o origami virou declamador, inflando uma lua furada com o único poema que lhe restava.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Palhinhas

Ele tinha palhinhas em vez de cabelo, e os amigos sugavam-lhe o cérebro de baunilha. Um dia, de sinapses apagadas, dirigiu-se à loja de conveniência mais próxima, tencionando pagar a eletricidade. Sem dinheiro, dançou sapateado no balcão, enquanto o caixa tocava harmónica. Recolhendo aplausos, trocou-os por dólares, com os quais pagou a conta. E, foi quando os olhos se iluminaram, que constatou que o caixa era uma mulher. Retirou um anel de noivado da segunda estrofe do poema que lhe dirigiu, ajoelhou-se e propôs-lhe uma lua de mel numa jangada de pedra. Ela, num momento de lucidez, e vendo que o primeiro despertara da sua cegueira, jurou-lhe o infinito...e foi ao infinito que partiram...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Audiência


O desmesurado estrondo do malhete contra a base quadrangular de madeira era o reflexo de uma mente acossada; e, a leitura da sentença, rebeldia declarada de um juíz, imolando o seu poleiro social.

O quesito inelutável, assim supusera a oleada, mas entediante, roldana jurídica, paria o pornográfico mandamento bíblico do acusador amar o acusado, e, ainda para mais, perpetuamente. Seria deveras ultrajante, se não fosse embaraçoso. O verbalizar de um sentimento, caído em desuso e agrilhoado à vergonha, ruborizou os cinzentos agentes de autoridade, os funcionários e peritos de justiça, os advogados, os jurados, as testemunhas, a plateia e, sobretudo, a pretensa vítima e o arguido , cujo veredicto lhes pesava nas perplexas mandíbulas.

Ao silêncio, que se gerou, sobrepôs-se o caudal de lágrimas, desaguando na flacidez de uma pele, cujas rugas eram pardas, camuflando, durante uma vida, amores não declarados, abortados pela massificada razão; aquela, que conduziria a raça humana ao monte Olimpo. O juíz não se contivera, mareando na mágoa entre alívio e vergonha, exultação e constrição. Ele, mais do que ninguém, sabia que a relação entre semelhantes deveria resumir-se à camaradagem, laço que se coadunava com a ordeira marcha civilizacional rumo à sublimação da espécie humana. O amor às várias fontes de conhecimento, esse sim, era enaltecível, embora a palavra apropriada para o designar fosse “afeição”, um subterfúgio línguistico conveniente para tornar o dicionário menos prolixo e, acima de tudo, menos emocional.

Mas era amor o que ele sentia e declarava-o na prosa de uma sentença, abarcando toda a humanidade e não exclusivamente os intervenientes daquela sala de audiência. De mãos algemadas, rugas coradas, olhos e boca livres clamou, enquanto era levado à força: condeno a humanidade a amar-se perpetuamente. Condeno a humanidade a ser feliz!

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Magia negra

O meu crocodilo da sala de estar era de madeira. Era de madeira até ao dia em que, durante uma competição anual de magia negra, este acordou para a vida e lembrou-se que estava esfomeado. Olhou-me nos olhos com olhos de predador e fez-me correr à volta da mesa de jantar durante uma meia hora. Extenuado, cedi. Enquanto estava a ser engolido, lembrei-me que tinha uma caixa de fósforos no bolso. Às apalpadelas, saquei de um fósforo e acendi-o a custo. Não estava sozinho. Os 7 an...ões e uma banda regional do Minho entretinham-se a tocar todo o género de instrumentos musicais e a dançar. O facto de terem olhos de felino, permitia-lhes ver na escuridão. Assim que me viram, fez-se silêncio. Os meus dedos queimavam enquanto o fósforo se extinguia. Fez-se escuridão. Eram muitos os berlindes acesos a aumentarem de tamanho à medida que os seus donos se aproximavam. Quando acendi o segundo fósforo, estava rodeado de criaturas. Uma delas, um minhoto de pernas tacanhas e peludas, barriga assimétrica e nariz tucano entregou-me um par de olhos felinos, numa bandeja eclesiástica. Retirei os meus globos oculares, substituindo-os pelos novos. Dancei o malhão malhão e, depois de algumas cortesias com a banda, retirei-me pelo intestino grosso.

Uma mulher encontra um papel desconhecido na sua carteira, no qual se podem ler as seguintes palavras: quando abrires os olhos verás.

Ora ela, desprovida que estava à nascença de globos oculares, que lhe permitiriam, não só ler o conteúdo do papel, como acalentar esperança em discernir sobre a figura de estilo inerente, apalpou o mesmo e, não decifrando sentido, conduziu-o ao seu amigo Tapete.

“Tapete” não era nome; era alcunha do indivíduo, estendido à entrada de uma das zonas comerciais da cidade, exercendo as suas funções de tapete. O sujeito não tinha espinha dorsal, nem outras ossadas de renome, e as costas peludas eram bálsamo para os pés de clientes, habituados aos costumes orientais de deixar os sapatos à porta.

Gozado frequentemente enquanto criança, e, de forma intermitente enquanto adulto, porque alguém, certo dia, teve o mau gosto de associar a ausência de uma espinha dorsal à falta de coragem, caráter, determinação, e outros atributos que tal, não teria, como se poderá facilmente deduzir, um fraquinho por metáforas, o que contribuiu para contaminar a leitura com uma entoação muito pouco assética. A mulher, acariciando os pêlos vergados das costas do amigo, sentindo o seu sofrimento em cada palavra, tal como pitadas de sal, precipitadas em chagas, que supuram clemência, abriu os olhos, se olhos tivesse; quis chorar, mas não podia. E, portanto, resumiu-se ao ato. Enternecida, pegou nele às costas e carregou-o porta fora. Ele, compreendendo a união declarada, vociferou:  

Eu vou…vou ser feliz!

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Telefeerico

Imagina um cabo de aço extensível até ao limite da nossa visão, desaparecendo nas nuvéns, e através destas. Assemelha-se a um estendal onde Deus seca a sua roupa; mas na ponta inversa a Ele, estou eu, pronto a entrar num "telefeerico" que me devolverá retidão...

sábado, 12 de setembro de 2015

Refugiados à espécie humana

Agora. Não seria um minuto mais tarde. Limpou as lágrimas de alguns anos numa face carimbada com dor. Os olhos espremeram aquilo que queriam que Deus visse; era demasiadamente solitário não partilhar a desgraça. Os braços eram comandados pelo coração, e, como tal, não se desprendiam dos rebentos; as palavras, essas, dominadas pela razão, ou pela fé convertida em probabilidade reduzida...E foi assim que ela os viu partir; foi assim que ela soube que o barco se virou, e sua vida expirou. Usurpada de sentimentos, alheou-se de um mundo azedo convertido ao culto da morbidez; alheou-se do facto desse mundo decidir agir como reação à simples ação de umas quantas crianças: a ação de morrerem.

Círculo da Vida

Eu pedi-lhe para me entornar alguns degraus. Ela fê-lo, porque não o poderia ter feito de outra forma. Desci os degraus de Escher e fui parar ao telhado. Lá, retirei um dos violinos que eram utilizados como telhas e toquei uma sonata de Bethoven. Esperei uns segundos e nada aconteceu. Entretanto, lá em baixo, a lua era boomerang, cujo regresso era uma Claire de Lune. E foi isso que toquei, enquanto do estado liquido passei ao gasoso. Ao alcance da lua, suguei-a, amarelando. Entrei pelas frinchas da fé, e deparei-me com Pandora, contorcionista, dobrada, como de roupa se tratasse, numa caixa. Dirigi-lhe uma pauta e ela respondeu-me em Pi. Incapaz de traduzir o sentido, tornei-me inflexível à sua flexibilidade e franzi as grades, que impediram a saída da minha percepção. Tornei-me sólido, demasiadamente humano, envelheci e, antes de morrer, percebi o círculo da vida...

Partilha

O frigorifico quando abria a boca era parco no alimento. Regorgitava, de quando em vez, uns ovos e bolachas...e cingia-se a pouco mais. Mas a geleira, essa, era maquiavélica. Mostrava nacos de carne, polvos retalhados e suculentos, peixes macios e compridos, e aprisionava-os por detrás de grades de gelo, não partilhando nem uma pequena fração destes aos mais esfomeados...

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Massagem

Ela usava a ponta de um cabelo para pintar quando Nestor, o massagista, entrou. O canto do olho reparou que ele esfregava as mãos em óleo, enquanto o restante globo ocular se concentrava na obra. Passados uns vinte minutos, de pele enrugada, questionou em voz alta: está pronta? Ela, de leque numa das mãos, e de sopro profundo na boca, entregava-se ao mester de secar a pintura, usando a mão livre para pedir mais um tempo. Impaciente, Nestor iniciou uma marcha circular que o co...locou em transe, caminhando durante tempo indeterminado e percorrendo uma distância desconhecida; e fê-lo até ao momento em que ela estalou os dedos e ele acordou. Dirigiu-se a ela e esta apontou para baixo. Finalmente, ele reparou no quadro: tratava-se de uma mulher de meia idade, pele dourada e cabelos serpentina. Pode começar a massajá-la; tem uma hora - disse ela. E Nestor assim o fez.

sábado, 5 de setembro de 2015

Porta

A porta sempre fora a maior das hipálages; alcunha de medo, murmurava o vento. E, enquanto a alcateia uivante pintava a porta de ausente, a ação era rocha e a vontade era tocha. Iluminado, partiu, dobrou e desdobrou a porta, e desapareceu no breu

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Dor

Não era de papel, mas de carne e osso o origami que lhe dirigiu a palavra. Bamboleantes adjetivos torneando o sentido, camuflando-o de algo bom; assim era a comunicação. Em sentido, içou a perna esquerda, como quem presta homenagem à nação, fez a pala devida, e viu o lustre da bota que assentou na sua face como uma luva.

Quando acordou, a maresia arrombou-lhe as fossas nasais, de odor em riste, pronta a fuzilar a sua memória. O pelotão escutou o ribombar dos tambores e o tiro culminou a pauta.

domingo, 23 de agosto de 2015

Os sapatos tinham rédeas, em vez de atacadores; e o cavaleiro era a fé, que o conduzia lá. Lá, onde até o amor ao desconhecido era possível. E foi lá, que aprendeu a amar.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Levantar-se


J era atarracado. Tinhas garras de cordel, com as quais prendia as presas com nós. Careca de profissão, exercia o ofício sentado. Colocava-as em sacos translúcidos, cheios de água para se afogarem. Argumentava a favor das virtudes da obrigação em detrimento dos direitos à vida, mas faltava-lhe o vigor nas assunções; contudo, não seria pela fragilidade indutiva, mas sobretudo pela procura interior pela paz de espírito que o movera a levantar-se. Levantou-se com as pernas e levantou-se com a ética e de lá mais não saiu.

domingo, 16 de agosto de 2015

Ouvido

E como é que fizeste isso? perguntou ela, enquanto ele se desembaraçava das cordas que lhe cerceavam os movimentos. A resposta foi colocada num armário de burocracia, debaixo da letra E e a pergunta repetida num concurso televisivo com um apresentador cujo sorriso lhe escondia os olhos, nariz, queixo, pescoço e tronco; as pernas eram cotos, pululando ao ritmo da música da Mongólia que enchia a sala, onde os espectadores eram coelhos de fraque à espera da resposta errada. As c...ordas, amolecidas por um chão relvado, cavavam buracos e, tais minhocas do campo, desapareciam da história. Sacudindo o pó inexistente, carregou no nariz. Este sacudiu três vezes, e elevou-se, suportado por uma alavanca, expondo-lhe a odores mais longinquos. Era cozido à portuguesa, sem dúvida. Os códigos de espionagem eram, há muito, transmitidos por cheiros e este significava que deveria aniquilar a interlocutora. Enterrou ambas as mãos, pulsos, antebraços e metade dos braços nos bolsos e sacou uma pastilha elástica vermelha. Mascou-a com a precisão de um relógio de cuco com o ponteiro maior nos 12, e transformou-se num anão; continuou a mascar até reduzir a sua dimensão ao nível de uma formiga. Correu direito a ela, trepou-lhe pela perna direita, fazendo-a dar coices e relinchar com se de égua se tratasse. Desfraldou-a, correu pelo vale ladeado por seios brutos, mordeu-lhe o pescoço, depois de ter escorregado uma vez, e, ao chegar ao ouvido direito, cumprimentou-o. Este retribuiu-lhe com um enigma: Se tudo no mundo é ciclico como saltar de um ciclo para outro sem desrespeitar a primeira assunção? Sendo a resposta demasiadamente acessível, ele deu-se o trabalho de aprimorar a mesma para que a pergunta soasse mais complicada. Se dois ciclos forem parelelizados, podemos manter um pé num e outro noutro, assim reza a história dos desastres humanos. O ouvido, subjetivamente centrado na resposta que tinha pensada, mas que nunca esperaria ouvir, concedeu-se uns momentos de instrospeção, não fosse vir a ser acusado de parcial quanto à sua capacidade de julgamento. Ele, aproveitando a deixa, penetrou pelas suas entranhas. De picareta na mão e luz de mineiro, desbravou por entre as paredes musculadas do cérebro. Bem no centro, penetrou os bolsos com ambas as mãos, pulsos, antebraços e braços, retirando uma pastilha elástica verde. Mascou-a, enquanto cantava This is the End. Cresceu, cresceu, cresceu e ela explodiu. Limpando a face de resíduos humanos, e sacudindo o pó existente, abandonou a história pela culatra.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Estados

As palavras eram esponjas que absorviam sentimentos. Ora ele, ansioso pelo iminente encontro, palmilhando círculos, aguardando pela sua chegada, premiu o livro com força desmesurada. E, mal ela chegara, risos histéricos, suspiros, gemidos, gargalhadas, precipitaram-se e misturaram-se nos socalcos da calçada. Ela era um tronco de raízes frondozas e os sentimentos exacerbados electrocutaram o pobre coração, fazendo-a tombar e partir-se em duas. Ele, de sobrolhos entretidos a da...nçar salsa, coalhou um barco da madeira que sobrara. Das pestanas fez remos e partiu. Infelizmente não havia água, ou a locomoção teria sido mais rápida. Assim, de barbas longas e rugas a lavrarem a fertilidade de uma pele envelhecida, suspendeu a marcha. Abandonou o barco, que se converteu num helicóptero e que partiu, deixando-o em terra firme. Curvou-se, tal o cansaço acumulado durante tantos anos, e, sem se aperceber, milhares de crianças saltaram ao eixo. Depois de 5 horas e 35 minutos, o sol vestiu-se de lua, travesti que era faziam alguns milénios, e apaixonou-se pelas costas dele. Abandonado que fora, retribuiu o sentimento e manteve-se curvado para toda a eternidade...

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Gusmão o artifice

Enquanto o vento se entretinha com as bandeirolas, absorto nas profícuas cores, a relva escondia Gusmão, o artifice cesteiro. Gusmão era habilidoso e lesto na arte, e a relva metamorfoseava-se rapidamente em cestos, que se espraiavam pelo solo castanho. O cliente era a missão, e esta pagava com a moeda do sossego, permitindo ao artifice enterrar pacificamente a cabeça no travesseiro, à noite, e só a desenterrar no dia seguinte. A causa, ou melhor, a satisfação desta, era o combustível da motricidade e, mesmo que as peles fácidas se congestionassem pela carestia de ádipe, a imobilidade era algo que o mesmo desconhecia. Ora, o vento, o tal ser distraído pela prazenteria disponibilizada pelo sol, um dia reparou em Gusmão, o cesteiro. Ao cumprimentá-lo, fê-lo levitar, tal a leveza de consciência (e de um corpo chupado pelo ofício). Entretido com a proeza, fê-lo voar, manipulando direção e sentido, soluçando entre gargalhadas, quase o fazendo cair, e erguendo-o de novo. Gusmão, apercebendo-se do mesmo, apenas quando fiadas de relva lhe fugiam entre os dedos, olhou em redor. Sensato e calmo, agarrou na nuvem mais à mão e, adaptando o seu mester à matéria-prima, criou o primeiro cesto de nuvem. Este choveu, emagracendo a forma, e tornou-se perfeito aos olhos de um vento manipulador.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Mascara

A minha mascara mascarou-se de mim, mas ela não me reconheceu. Assustou-se e, embrulhando-se em suplicios, vergou-se de medo na bolsa marsupial. Encharcou os cantos da boca com o Prozac materno. Cerrou os olhos como quem se enjaula e engole a chave. Assim era ela, enclausurada nas masmorras do meu cérebro. Da prateleira, trocou o deus pelo livro e, rendida ao dogma da poesia, retrucou em estrofes os olhares que, por entre grades, lhe deitava, lhe derramava. Bramindo sinapses, estalei-lhe a pele que, como cortiça despiu-se do tronco; domei-lhe a vontade. Fi-la corgitar esperança, fi-la abrir a porta e sair. Fi-la mascarar-se com a mascara da minha mascara...

sábado, 25 de julho de 2015

Sucesso

Foi na languidez dos dias que abortou uma noite. Sangue era espremido pela esponja cerebral, vertendo em folhas calcadas pelo destino. Onde um dia andara ele, agora andavam os determininismos outrora pardos pelo malogrado sucesso...

Polka

Se num anti ciclo uma antítese personificada tivesse o condão de massificar uma classe seguidora do limiar zero, isso chamar-se-ia utopia realizável. A realidade é, no entanto, assaz diferente. Um anti ciclo funciona como estabilizador das massas, espécie de analgésico que mantém a classe em coma profundo, alimentando a alma, e apenas esta, com ideais de revoluções liberais. O púlpito, esse, manipula os cordéis, em rédea curta, e o povo dança a polka.

Cisne

O coração era cisne selvagem aprisionado numa gaiola toráxica; e, quando a fuga parecia impossível, a raiva ergueu a vontade e pintou-a de real. De asas estendidas, penetrando carne, encontrando liberdade, bramiu ira em cada adejo e fez o corpo voar...

Abelhas e construções

Isto das abelhas construirem as casas com aquilo que constitui o seu alimento poderia ser analogamente comparado a um português edificar o seu lar com cozido à portuguesa, colocar janelas de alheiras, portas de arroz de polvo à lagareiro, e cobrir as divisões com bacalhau com natas. Ora, se para uns isto soa a total disparate, a proeza foi tentada e, obviamente, desprezada pelos insetos referidos. Certo dia, uma abelha, cursada em direito, visitou os irmãos Grimm. Depois de u...ns malogrados Zum zumm zzumzumzum zum ZUM, esta chegou à conclusão que a indiferença dos mesmos implicaria a imposição da lei marcial. A mensagem, em formato resumido, intimava ambos para comparecerem no tribunal já que estavam a ser acusados de plágio por, não uma, mas toda a comunidade de abelhas da região. Isto de envolver crianças como forma a criar uma potencial e futura empatia acabaria da pior maneira. De facto, as ausências dos irmãos custaram-lhes umas ferroadas que se prolongaram durante as suas existências. O espanto destes face a tão hostil comportamento por parte de tão delicados artrópodes foi proporcional ao alargamento das suas esperanças medias de vida.

Poder

Embrulhado num maço de notas: a raiz. Se dessa raiz, usurpada de cor e de vida, putrefacta em cada ruga, bramindo fedor, se pudesse extrair poder, ele não teria dúvidas em ferrar-lhe os dentes. E, no entanto, o poder não emanava da possessão e, muito menos, da ingestão. As notas, coladas arbitrariamente com fita cola, foram retiradas como folhas de casca de cebola. As gotas de suor, que lhe escorriam do frontal, e que lhe humedeciam as mexas de cabelo, cruzavam a meta atrás ...das lágrimas. Os dedos atrozes, vincados na raíz, adivinhavam o voo da águia para local seguro. Mas, não guarnecido de asas, abraçava-a, olhando suspeitosamente em cada um dos trezentos e sessenta graus. De passo leve, camuflando o movimento, pegou nas flores de N., encostou-as à única parede do deserto e ostentou impaciência. Segundos depois, de corredor desdobrado, tal língua de gigante faminta, prosseguiu o seu passo. Era o jardim, e não a cálida imagem desertica, que presenteava o olhar. No centro desse jardim, exatamente no centro e não um milimetro mais adiante ou mais aquem, encontrava-se um buraco com 13 cm. Não tinha mais nem menos de 13 cm. Colocou a raíz. Cobriu-a de pequenos seres humanos. Regou-a de sangue. Sorriu, e nominou-a de "Todo o mal".

Dentes

Quando ela partiu, foi como se lhe tivessem extraído do coração todos os respetivos dentes, sem recurso a anestesia. Dorido, e sem dentição, o coração estava incapaz até de se alimentar da memória. Definhou, subnutrido que estava, e morreu. Com olhos em estado de coma, dirigia o olhar, mas não via. Empalideciam-lhe os lobos temporais, uivando profundamente; tão profundamente que as alucinações lhe consumiam os restantes sentidos...

Almas

Havia um lago escondido por brumas e guardado por duas criaturas, que mantinham uma vigilância ininterrupta. Como nunca se cansavam, não dormiam e nunca se distraíam. De longe, assemelhavam-se a duas mulheres, se descontassemos o facto de terem as faces mumificadas e os membros inferiores exageradamente compridos, o que as obrigava a segurarem cada uma um tronco delgado e longo como bengala, sugestionando a imagem de dois enormes tripés ambulantes. Tinham o cabelo negro e, não cobrindo a parte superior dos seus corpos, descobriam dois círculos mamários curtos e ressequidos, que se destacavam da restante pele colada às costelas comprimidas. Os membros inferiores estavam cobertos com saias de luto, que inclusivamente lhes escondiam os pés. Quem as visse ficaria com a impressão que o comprimento desproporcionado lhes havia esticado tanto a pele, que o desenvolvimento de massa muscular estava consequentemente impossibilitado. E, no entanto, e apesar dos olhos estarem ocultos entre ligaduras, ostentavam um vigor ameaçador, um porte robusto, de movimentos lestos e desembaraçados.
Estas sentinelas, como seria expectável, não guardavam o lago de potenciais intrusos, porque não os havia, mas, ao invés, mantinham no lago o que não era suposto sair. Da sua composição não constava uma única partícula de H2O. De facto, os vários milhares de metros cúbicos eram preenchidos por miríades de almas no estado liquido. Para que fique claro, e para quem ainda desconheça, a morte é um processo normal de condensação da alma: do estado gasoso, e inflando os pulmões, passa ao estado liquido perante o último suspiro, uma forma de materializar o protesto face ao inevitável. As brumas, que emparedam o espaço circudante, correspondem ao ciclo, e, portanto, ao transitável, e o lago ao repositório do consumado. Sendo assim, as brumas movimentam-se de forma constante e unívoca, tal como o fluir de um rio interceptado pelas pás do moínho, porque o contrário representaria um desrespeito às leis universais; e a garantia do cumprimento é personificada nestas duas criaturas.
Uma pergunta pertinente e legítima, que despertará da curosidade de muitos, relacionar-se-á com as razões pelas quais as almas se encontram neste estado de eterno encarceramento, ao que o autor será obrigado a replicar uma das teorias de conspiração, murmurada entre velhos sábios, desprovido que está de uma explicação mais empírica. Segundo reza a teoria, o aprisionamento das almas tem o condão de satisfazer dois objetivos. Primeiro, o de as manter longe do mundo dos vivos, já que a eventual interação suscitaria uma tremenda confusão; seria como misturar alhos com bugalhos, e todos sabemos que um alho não rima bem com um bugalho. Segundo, e de carácter mais prático, o de providenciar energia aos deuses. Este último prende-se com a capacidade energética inesgotável das almas e com a necessidade quase diária de recarregamento destas criaturas, que precisam de rios, ou neste caso de lagos, de energia, considerando que existem centenas de deuses ativos, e cuja grande maioria facilmente adquire proporções deintescas. É todavia curioso verificar que, apesar da propaganda dirigida pelas diversas religiões, mobilizando os vivos à devoção, os deuses precisam mais de nós mortos do que vivos. E é exatamente por essa razão que a imiscuição entre o divino e o humano é comum. E é exatamente devido à anti natura descrita que muitos humanos perecem misteriosamente...

Matemática dos valores humanos

O malograr da democracia e do capitalismo são duas retas cortadas por uma outra, a natureza humana, formando ângulos alternados idênticos, também apelidados de regras do jogo. Ora estes ângulos são extremamente agudos para os cidadãos comuns e bem obtusos para uma pequena maioria de descrentes na moralidade e nos bons costumes. Enquanto a natureza humana se esvai na ganância, a tangente, sustentabilidade do modelo humano, tende para o nulo...

Noite e dia

Já pensaste porque é que o sol avermelha quando se põe? O outro, ainda afundado na filosofia, sentiu-se incomodado com o sequestro da conversa e suspirou; pleonasticamente revirou os olhos porque nao lhe interessava o tema. O primeiro, adivinhando o desinteresse, e oferecendo o perfil, como forma a manter a guarda confessou. O sol avermelha porque chupa todas as cores quentes debitando o negrume numa espécie de ciclo de cores diário. E rindo, a noite é o dia sem cor...

Cornos retorcidos; mãos encostadas uma à outra fazendo um triângulo equilátero, cujos ângulos eram os cotovelos encostados à mesa, aresta inferior. O cálice alinhado com o focinho cónico estava cheio. O tampo, trapézio pela perspectiva, escondia o resto do corpo. Se não fora o ritual, o corpo não se entregaria ao movimento. Por detrás da imagem estava a ação.; era o sustento da crença e o ganha pão da fé...

Alibaba revisitado

Ora ele, gozado por nao ser real tal alibaba expurgado de um conto passado a ferro pela suspeitosa razão, deleitava-se com o vácuo deixado pela indução, metaforicamente estendendo as pernas, embrulhando-as como presente aos passos que daria caso Ricardo o escrevesse, apontando os cotovelos ao azul celeste, alvo meritório das musas de puritanismos envergonhados, e suportando a cabeça com as tartarugas mãos. Antípoda da vontade, erguia-se a inércia, relegando a primeira a vales amargurados, secos há muito pelo excesso caudal, cuja fonte, que outrora lacrimejara, e depois sarara...

Salva-vidas

Todos sabemos que o conceito utópico do papel do estado passa pela imposição de justiça, numa organização humana por ele estabelecida, isto porque os instrumentos automáticos, de um aparelho social vagueando no vácuo, tendem a criar situações pouco equitativas. Mas os estados têm uma capacidade inata de se alhearem das suas responsabilidades através da consecução de objetivos específicos, e nem sempre coincidentes com os das comunidades visadas, ao atribuirem primazia à eficá...cia, todavia descurando na eficiência da esfera social. Um exemplo do que foi afirmado é passível de observação nas várias metrópoles urbanas, onde o estacionamento passou a ser objeto de pagamento tornando-o inacessível para muitos cidadãos. Obviamente que, não tecendo apologias ao tráfico exacerbado nos centros urbanos, parece-me que existem instrumentos de racionalização que, para além de cumprirem este objetivo, não denegrecem a equidade social. A lógica inerente ao pagamento deste serviço é simples e eficaz: quanto maior for o custo, menor será a procura. Curiosamente, é mais caro estacionar o carro num local desprotegido, alvo de intempéries e de furtos, do que visitar um dos muitos museus tais como o musée d’art moderne em Paris, e estar exposto às externalidade positivas da arte, sem desembolsar um único cêntimo. Todos nós sabemos que, para quem tem muito, o parqueamento, mesmo que costumeiro, não desbasta riqueza. Para quem tem muito, o estacionamento passa a ser mais apetecível, porque as diminuições na procura flexibilizam as deslocações. Por outro lado, quem tem pouco sente-se lesado, sobretudo quando esse serviço representava um conforto, e não um luxo. Quem tem pouco, e precisa de trabalhar, tem que encontrar alternativas de locomoção, que, em alguns casos, lhe reduzem o tempo de lazer e com os seus. Por outras palavras, o estado, ao qual lhe são incumbidas tarefas de justiça social, disponibiliza serviços, não a quem precisa mais, mas a quem paga melhor. Imaginemos um navio prestes a afundar e onde existe apenas um barco salva-vidas. Esta situação conduzirá a um raciocínio deveras fácil, dirão alguns, porque a parábola é extremista. De facto, quase todos concordarão que crianças, idosos e mulheres (sobretudo grávidas) deverão ser atendidos com prioridade. Contudo, se colocássemos o estado como comandante desta embarcação, este cercearia o acesso ao barco salva-vidas, não sustentando a mesma numa lógica de direito e moralidade, mas numa lógica de quem tem a maior riqueza.

Prédios

À noite os prédios são animais. Arregaçam os passeios malhados, esticam pescoços à lua, saudando-a com uivantes palavras. Erguem hospedeiros nos sonhos partilhados, conspiram para que no acordar memórias falhem. Assim somos nós, testemunhas silenciosas, andando à boleia da criatividade de gigantes...

Dor

Ele, aturdido pela língua chicote, de convicções doridas, esganiçou a voz. O tom vergava-se à incapacidade de reciprocar, tal balão desgastado precipitando-se pelo soalho das ideias. Chão imundo, encardindo o Mikado dos seus pensamentos, tal emaranhado de sinapses imaturas, era o seu poiso, denegrido pela imobilidade, tal pássaro aprisionado em gaiola reduzida. Ela, brinquedo de plastico de corda puxada ao limite pelo seu subconsciente, abanava os braços, dando ritmo aos fonemas disconexos, fazendo-lhe nódoas negras num coração estraçalhado...

Vindicar

Sentado, a ver elefantes passar, pausando as passas ao sabor dos fumos exalados em camara lenta, ruminou uma ideia mascada com fiadas de Tabaco. Não era brilhante, mas também a placidez, a lassidão envolvente engoliam-no. Nas goelas da imobilidade, de membros presos, chocado com uma inércia imposta, revoltava-se mais com a resignação dos membros do que com as cordas que o mantinham cativo. A ideia era congeminada não tanto como uma tangível possibilidade de fuga, a julgar pela incapacidade de julgamento inculcada, tal semente fertil, mas como um meio de dignidade, de revolta, de orgulho. Não ousava escapar; ousava, isso sim, bramar aos céus o direito de o fazer. A fuga não consumada era comunicação, era libertar a expressão, cantá-la ao mundo num soneto de vindicação...

Vão

Perdeu-se no discurso. Gaguejou, evitou os olhares omissos pelos holofotes, e, tropeçando na mensagem, trepidou a linguagem, metamorfoseando-a em grunhidos. Os óculos nublaram e escorregaram pelo funil nariz, os dedos fincaram a madeira do pulpito, tentanto reter a massa corporea de verter pela tribuna, tal vela derretida, projetando-se pelos degraus em cascatas de vergonha. E, num momento de quasi-não-existência, alinhavou os fonemas e construiu uma palavra. Os membros solidificaram, saudosos que estavam do convivio, e regressaram ao corpo. Os óculos desfribrilizaram o cérebro e a mensagem prosseguiu sem ruturas, sem reticências, sem conteúdo...tal e qual como sempre fora...

Camaleão Guedes

Quando ele desdobrou a língua nem o Camaleão Guedes adivinharia o quão longa ela era. Nem o mesmo imaginaria o quão lento esse processo seria. Mas, talvez o mais inesperado e grotesco, eram as inúmeras criaturas ao pé-coxinho, que provinham das profundezas das fantasmagóricas goelas. Tinham, cada uma, uma única perna de pau e lábios de palha. Quando me confrontei com elas, o sorriso armou, tal arco hirto pronto a largar flecha, e algumas farripas verteram e colaram-se à inund...ante saliva. Alérgico à palha, a boca fechou-se, decepando a língua, que se contorceu como cobra moribunda. Os seres cairam e, coxeando no vácuo, faziam lembrar escaravelhos de pernas para o ar. Eu e o Camaleão Guedes demorámos 3 horas para colocar em pé os 345 pé-coxeantes. No final, depois de sinceros e comovidos agradecimentos, ofereceram-nos as costas e cairam ribanceira abaixo.

Ácaros

As palavras dele eram ácaros, isto é, invisiveis aos olhos, mas geradoras de alergias; Ele sabia-o, pouca era a aderência à leitura, mas tinha esperança que, face à inexistência de predadores críticos, a sua habilidade mutasse para estágios genético-conceptuais mais elaborados. Talvez por isso, nunca tenha abortado uma gestação que tardava em parir. E foi nessa tarde em que a noite era abutre, pairando sobre um dia moribundo, que ele finalizou a obra. As letras incharam e pesaram, tais esponjas encharcadas, e a literatura, tal como a conhecemos, deixou de o ser...