Agora que ela andava descalça e sentia o chão é que o chão lhe fugiu dos pés. Apesar de metáfora, e portanto tapada pelo cobertor do romantismo, a frase deixava os pés de fora, o que era o mesmo que dizer que descobria a fealdade do seu real sentido. Talvez a gentileza do léxico, a combinação mareante de palavras, desarmasse o leitor, fazendo-o sorrir à imagem que havia criado, à imagem anestesiante de leveza que o injetava levemente, e sem dor. E, de facto, ela, ainda descalça, não sentia dor. Não sentia. Jazia tanto como a cama que a carregava às costas, tanto como qualquer objeto inanimado. Tão inanimado como ela.