“Faltou
tentar o impossível”. A interjeição colocada pelo estranho de fraque, tom
noturno de pele, fado aos ombros, e anéis de vinho tinto no lugar de óculos, nadava
no mesmo vácuo contextual que a sua presença naquela loja de conveniência. E
denomino-a de interjeição porque se tratava de um desdobramento, um genérico da
palavra “alerta”, cuspido com esplendor. Revi, em memória residual, a frase que
se assemelhava a uma Vénus de Milo. E, foi na busca dos membros ausentes, que retorqui
com os sobrolhos, arqueando-os tais gatos coléricos. Ele, consentidamente
mordendo o anzol, rematou com a palavra “civilização”. O meu cérebro pareceu
então converter-se num ábaco, cuja soma da informação recebida tendia a igualar
mais a minha perceção da sua lógica do que a real lógica do meu interlocutor. Nessa
egocêntrica indução, perspetivei uma eventual relação entre civilização e contrato
social, e, foi quando me preparava para a verbalizar, que ele estendeu os
braços, erguendo-os e erguendo as palavras ao púlpito da razão: “Na deificação
da predação e do darwinismo, o ser humano colocou um garrote no tecido social,
não deixando bombear os sentimentos à razão, contribuindo, assim, para
entronizar a solidão”. Pausou durante breves segundos, apenas para perscrutar
se o estava a acompanhar. Não vendo reação, prosseguiu: “Que fé inabalável é
esta em contratos sociais assentes em sistemas coercivos, em que, na melhor das
hipóteses, a qualidade que vinga é a tolerância? Falta tentar o impossível.
Falta tentar a harmonia…” Empolgado com tal dialética, levantei-me, paguei o
café que não cheguei a beber, e perguntei-lhe quem ele era. A resposta foi
imediata, porque a pergunta ele já a esperava: “Sou Prometeu e trago o fogo à
humanidade…”.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
Restava...
Restava uma bala no tambor. A pistola, de nome Arma, e de
onde provieram os sete tiros, não era de metal, mas de carne e osso; e sendo
tão ciosa das suas balas, sentiu-se, naturalmente, saqueada pelo origami, de
membros inflados e chapéu à cowboy, que,
entretanto, a voltava a guardar.
Instantes depois, enquanto a Arma, confortavelmente
acomodada numa das assoalhadas do coldre, redigia uma queixa formal, o origami desceu
os degraus de Escher. Já no telhado, assobiou, e a sua nuvem, entre relinchos,
choveu, que era a maneira como anunciava a sua presença. Sentou a culatra na
sela e cavalgou para um sol posto, oferecendo as costas a uma moribunda lua, jazendo
em sangue e questionando-se sobre a razão de tanta violência.
A forma como, durante a noite, os prédios se metamorfoseavam
em animais, arregaçavam os passeios malhados, esticavam os pescoços à lua,
saudando-a com uivantes piropos, havia alimentado o ciúme do poeta Heterónimo,
um assumido monogâmico literário. Certo dia, enquanto regava os narcisos, declamando
excertos da sua obra a um espelho demitido, decidira, egoisticamente auto-flagelar-se,
contratando um assassino profissional, e comprometendo-se pagar-lhe com a alma,
já que carecia de talento.
No dia em que o origami voltou para cobrar o seu serviço,
encontrou um arrependido Heterónimo, suspirando a uma minguada lua e
argutamente tecendo um feiticeiro poema, esperançoso de ressuscitar a sua
amada. O cumprimento de origami despertou a enfunada Arma que, antecipando mais
uma usurpação abusiva dos seus bens, decidiu por termo ao desaforo. Sacou-se e
disparou-se. O calejado origami, de movimentos felinos, esquivou-se, vendo a
bala anichar-se na fronte de Heterónimo.
E é por isso que, a partir desse dia, já não existe lua
cheia. A Arma tornou-se uma pacifista e o origami virou declamador, inflando
uma lua furada com o único poema que lhe restava.
domingo, 20 de dezembro de 2015
Palhinhas
Ele tinha palhinhas em vez de cabelo, e os amigos sugavam-lhe o cérebro de baunilha. Um dia, de sinapses apagadas, dirigiu-se à loja de conveniência mais próxima, tencionando pagar a eletricidade. Sem dinheiro, dançou sapateado no balcão, enquanto o caixa tocava harmónica. Recolhendo aplausos, trocou-os por dólares, com os quais pagou a conta. E, foi quando os olhos se iluminaram, que constatou que o caixa era uma mulher. Retirou um anel de noivado da segunda estrofe do poema que lhe dirigiu, ajoelhou-se e propôs-lhe uma lua de mel numa jangada de pedra. Ela, num momento de lucidez, e vendo que o primeiro despertara da sua cegueira, jurou-lhe o infinito...e foi ao infinito que partiram...
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
Audiência
O desmesurado estrondo do malhete contra a base quadrangular
de madeira era o reflexo de uma mente acossada; e, a leitura da sentença,
rebeldia declarada de um juíz, imolando o seu poleiro social.
O quesito inelutável, assim supusera a oleada, mas
entediante, roldana jurídica, paria o pornográfico mandamento bíblico do
acusador amar o acusado, e, ainda para mais, perpetuamente. Seria deveras
ultrajante, se não fosse embaraçoso. O verbalizar de um sentimento, caído em
desuso e agrilhoado à vergonha, ruborizou os cinzentos agentes de autoridade,
os funcionários e peritos de justiça, os advogados, os jurados, as testemunhas,
a plateia e, sobretudo, a pretensa vítima e o arguido , cujo veredicto lhes
pesava nas perplexas mandíbulas.
Ao silêncio, que se gerou, sobrepôs-se o caudal de lágrimas,
desaguando na flacidez de uma pele, cujas rugas eram pardas, camuflando, durante
uma vida, amores não declarados, abortados pela massificada razão; aquela, que conduziria
a raça humana ao monte Olimpo. O juíz não se contivera, mareando na mágoa entre
alívio e vergonha, exultação e constrição. Ele, mais do que ninguém, sabia que
a relação entre semelhantes deveria resumir-se à camaradagem, laço que se
coadunava com a ordeira marcha civilizacional rumo à sublimação da espécie
humana. O amor às várias fontes de
conhecimento, esse sim, era enaltecível, embora a palavra apropriada para o
designar fosse “afeição”, um subterfúgio línguistico conveniente para tornar o
dicionário menos prolixo e, acima de tudo, menos emocional.
Mas era amor o que ele sentia e declarava-o na prosa de uma
sentença, abarcando toda a humanidade e não exclusivamente os intervenientes daquela
sala de audiência. De mãos algemadas, rugas coradas, olhos e boca livres clamou,
enquanto era levado à força: condeno a humanidade a amar-se perpetuamente. Condeno
a humanidade a ser feliz!
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
Magia negra
O meu crocodilo da sala de estar era de madeira. Era de madeira até ao dia em que, durante uma competição anual de magia negra, este acordou para a vida e lembrou-se que estava esfomeado. Olhou-me nos olhos com olhos de predador e fez-me correr à volta da mesa de jantar durante uma meia hora. Extenuado, cedi. Enquanto estava a ser engolido, lembrei-me que tinha uma caixa de fósforos no bolso. Às apalpadelas, saquei de um fósforo e acendi-o a custo. Não estava sozinho. Os 7 an...ões e uma banda regional do Minho entretinham-se a tocar todo o género de instrumentos musicais e a dançar. O facto de terem olhos de felino, permitia-lhes ver na escuridão. Assim que me viram, fez-se silêncio. Os meus dedos queimavam enquanto o fósforo se extinguia. Fez-se escuridão. Eram muitos os berlindes acesos a aumentarem de tamanho à medida que os seus donos se aproximavam. Quando acendi o segundo fósforo, estava rodeado de criaturas. Uma delas, um minhoto de pernas tacanhas e peludas, barriga assimétrica e nariz tucano entregou-me um par de olhos felinos, numa bandeja eclesiástica. Retirei os meus globos oculares, substituindo-os pelos novos. Dancei o malhão malhão e, depois de algumas cortesias com a banda, retirei-me pelo intestino grosso.
Uma mulher encontra um papel desconhecido na sua carteira, no qual se podem ler as seguintes palavras: quando abrires os olhos verás.
Ora ela, desprovida que estava à nascença de globos
oculares, que lhe permitiriam, não só ler o conteúdo do papel, como acalentar
esperança em discernir sobre a figura de estilo inerente, apalpou o mesmo e,
não decifrando sentido, conduziu-o ao seu amigo Tapete.
“Tapete” não era nome; era alcunha do indivíduo, estendido à
entrada de uma das zonas comerciais da cidade, exercendo as suas funções de
tapete. O sujeito não tinha espinha dorsal, nem outras ossadas de renome, e as
costas peludas eram bálsamo para os pés de clientes, habituados aos costumes
orientais de deixar os sapatos à porta.
Gozado frequentemente enquanto criança, e, de forma
intermitente enquanto adulto, porque alguém, certo dia, teve o mau gosto de
associar a ausência de uma espinha dorsal à falta de coragem, caráter,
determinação, e outros atributos que tal, não teria, como se poderá facilmente deduzir,
um fraquinho por metáforas, o que contribuiu para contaminar a leitura com uma
entoação muito pouco assética. A mulher, acariciando os pêlos vergados das
costas do amigo, sentindo o seu sofrimento em cada palavra, tal como pitadas de
sal, precipitadas em chagas, que supuram clemência, abriu os olhos, se olhos
tivesse; quis chorar, mas não podia. E, portanto, resumiu-se ao ato. Enternecida,
pegou nele às costas e carregou-o porta fora. Ele, compreendendo a união
declarada, vociferou:
Eu vou…vou ser feliz!
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