domingo, 26 de agosto de 2012

Estaladas

Derretido numa rocha regada em maresia, assim estava ele, no estado que havia procurado: o liquido. Os sentimentos eram batido coalhado com sabor de futuro. Bem mexido, servido com o gelo anestésico, e saboreado sem papilas porque estas dormitaram em vida para serem lembradas enquanto mortas...
As lágrimas escorriam dos pés, dormentes, indolentes e dobrados para trás, e das mãos só haviam unhas que nem memórias arranhavam...
Desgrenhado nos olhos, via o déjà vu com o sorriso de uma ingenuidade perdida...e, algures numa rocha, não percebia se as estaladas do mar eram castigo ou moldagem...

Idade

As folhas eram espanta espiritos, num ritmo balinês tocado por um vento macio; lá dentro, encaixado num sofá, tal peça de lego rígida contra as costas de pele negra, expelia bafuradas, tanto do fumo do charuto cubano, como palavras do livro que penteava para enxotar cinzas. Irritava-lhe a sujidade, ou o talento de quem o escrevera. Mas não deixava de o ler, frase lida a voz alta, frase muda, frase que lhe regava os olhos de um sentimento misto de admiração e tristeza. Era velho e sabia-o. Não de idade, mas de personalidade. Nascera velho e esperava morrer novo, mas não acalentava esperança porque a vontade definhava com o corpo.
O roçar das folhas no pavimento, o frio que acentuava o cheiro do Outono, a roupa sem folgas nas peles passeada morosamente, os primeiros beijos, botijas de água quente com baton esborratado nas faces empalidecidas. Era assim que via a estação, nunca saindo do seu "comboio" cronos.
Lá, escrevia pinceladas soltas, não procurando um contexto mas um sentimento. No final não saía nada de concreto, mas o concreto era como cimento que ele evitava usar nesta construção. Soava-lhe a estático, imutável no tempo e isso amedrontava-o. Nunca ninguém perdia muito tempo com a sua escrita porque a percepção era inimiga da intenção, e esta última era, geralmente, homogénea.

Mensagem na garrafa

O velho, antes do último sopro de vida, tinha-se dedicado à escrita de uma extensa carta, que colocara numa garrafa convenientemente fechada, posteriormente lançada ao dúbio oceano. Depois de largos meses e tempestades, a mesma atingiu uma ilha. Um velho roxo, ergueu o cone vidrado, molhado de mar e esverdeado de algas, e foi seguido por uma multidão de criaturas menos roxas até ao círculo que envolvia uma fogueira. Lá, retirou a rolha, extraiu a carta e...comeu-a!

Magma

Arranhava pele, encravada nas unhas e ensopada em sangue que golfava do peito. O céu era viúvo e a lua o ponto final de uma vida que insistia em ser. Dos olhos saía magma; o vulcão era o pensamento, outrora inativo. A alcateia de palavras, que corroborara a matança, uivava nas noites bebidas em tragos de veneno literário. À luz do dia, sensaboria, ao luar, o veredicto de dor.

Formiga

Massacrava as pobres formigas com a bota direita, espremendo a borracha contra os insectos decapitados. Sobrolho flectido, foi a resposta. Não houve o imperativo verbalizado, já que a troca de olhares dava para perceber a não aprovação do acto. Mas o outro, espremia a bota, languidamente, num slow motion de quem comunicava: não recebo ordens. A Palavra veio finalmente. Mas o som era claramente mais proeminente e, mesmo sem ter decifrado o dialecto, estagnou. O olhar, esse, centrou-se no soalho; plano que camuflava o odor a medo. E a aproximação trouxe a descrição: Formiga, hirta em 2 metros, castanha nas extremidades e....furiosa!

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Linguas

Era uma vez um planeta em que as criaturas mais inteligentes eram praticamente semelhantes aos seres humanos, com uma pequena diferença: as línguas tinham espinha dorsal e eram tão compridas que não cabiam dentro da boca.
Não haviam tribunais, advogados nem juízes, mas uma entidade denominada de Punis Coerciva e respetivos funcionários, que policiavam os cidadãos e puniam os mesmos, caso fosse necessário e adequado.
Segundo os nossos padrões, e atendendo às nossas limitações físicas (subentenda-se, línguas carnudas, pequenas e desprovidas de osso), consideraríamos que uma entidade policiadora seria assaz insuficiente para pesar equitativamente o impacto que um crime teria noutro indivíduo, grupo, comunidade ou sociedade em geral. Todavia, neste planeta, todos os indivíduos eram questionados semanalmente, via contato móvel, sobre a sua conduta recente. Se confessassem um crime, seriam posteriormente visitados pela Punis Coerciva que daria sequência à punição de acordo com os factos transmitidos. Contudo, se um cidadão decidisse tentar ludibriar o sistema a sua língua ganharia uma escoliose proporcional à gravidade do crime cometido. Ele não teria qualquer possibilidade de corrigir a mesma e seria alvo público de indignação já que não teria meios de a esconder.

Poema

Em convalescença estava o poema, pendurado ao sol, chocalhado pela brisa, expelido de negrume que lhe dava peso; lido ao nascer e entendido ao por de um sol no pulpito da razão, cujos raios são óculos de luz, pintando os olhos de verdade, de uma qualquer verdade, nem sempre única. esta é a noite em que o poema se ergue e, no esplendor da sua beleza retórica, tem a forma que cada um quer...

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Estrofe

O esgar era trejeito linguístico que a mão tremia para que o olho tivesse a sensibilidade que a mensagem carregava; veias eram anelídeos cujas costas sacudiam uma pele que quebrava de idade, azul de tristeza lacrimejando na folha manchada; não era assim que ele esperava escrever - defunto -, mas também não olharia a meios para finalizar uma estrofe; preso a uma promessa que lhe devorava as entranhas, penas eram um sofrimento antecipado que esvoaçava todas as manhãs no olimpo. Prometera-lhe a dedicatória num livro escrito a sangue...

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Espantalho

És um espantalho linguistico! Vociferou.
Tremores com Richeter elevado na zona do abdomen e um tsunami, a boca cheia, que o colocou de gatas; Jepeto, expelido do segundo, replicou ao primeiro:
Fantoche, nas mãos de uns, na mente de outros, assim era eu. Hoje, menino orfão, vou estudar porque, dizem os restantes, ainda não sou ninguém.
O desalentado, de veias contraídas, tal seiva de um pescoço tronco, tombou os olhos e viu a ponta da cauda entre as pernas.

De soslaia, era assim que caminhava, tornando pardo a pegada, tal palavra sem autor. Do bolso sacou uma estrofe que não rimava; assim era a forma de camuflar o sentimento. Acendeu a sala e fumou-a; da cinza construiu um castelo, que publicou em voz.

Cravou-lhe o dente no ouvido, que era buzio seco ao sol. As algas desenhavam-lhe a puberdade e os olhos afogavam a vista. Usava o tacto para se defender da luz e,de testa cruzada, extraiu a tripa de um mamífero, da sua própria barriga, e atou-a ao ramo da árvore mais alta. O espantalho, que não o era, tocou Sad Romance de Thao Nguyen e os 4 joelhos sentaram-se.

Alguém disse que ele tinha a espinha dorsal na língua. Verdade ou não, um dia mentiu e ganhou escoliose...

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Cérebro ou Algodão

Nem os amigos sabiam que o crânio dele estava cheio de algodão. O pequeno furo provocado por uma contusão após uma queda aparatosa de bicicleta, expunha uma pequena fiada branca. Um dia, a brincar entre amigos, um quis saber porque é que ele, tendo 8 anos, já tinha cabelos brancos. Sentindo-se excluido pela diferença, decidiu arrancar esse cabelo. Puxou, puxou, e continuou a puxar...e foi assim que perdeu o cérebro...

Baton

O grito tinha o paladar de baton sangue e a mensagem esborratava ódio nas 4 paredes receptoras. Era assim que reagiam à raiva: com frieza e indolência. As veias eram eco de coração apertado pelo não, anunciando vida, chicoteando-a numa tortura de auto-comiseração. Tudo era vermelho, porque tudo era dor. Antes, perdido no branco, não conhecia chão, parede, tecto...Refugiava-se na mensuração anacrónica de um daltonismo afectivo. E este galgava na putrefacção da reacção. Acordar era isso: saber que iria morrer.

terça-feira, 27 de março de 2012

Escritor

Póstumo era o livro de autor morto-vivo, de cotovelo espasmódico, desenhando círculos imaginários, não por convicção, mas pelo esmorecer prematuro da destreza motora. Os círculos eram mais largos quando ele erguia o antebraço e, mesmo a folha que suportava com a mão entornada de idade, parecia peso pesado. O músculo do membro era vela levada pelo vento e as veias eram cordas lassas, que se estiravam ao sol e que quebrantavam a qualquer momento.
As pernas eram sobretudo joelhos. Joelhos aço, inflexíveis, borbotos de osso ressequidos, ensoberbecidos pelo passo passado. Só se levantava para morrer. E fazia-o pouco, mas de forma eficaz.
Os olhos prolongavam-se num caudal, que inundava toda a pele, acastanhando-a abaixo dos globos estilhaçados em veios encarniçados. As pestanas eram redes de emalhar, aprisionando um olhar, que não era físico, mas penetrante e a atenção de um diálogo, geralmente metamorfoseado em monólogo, devido à extensa vivência e longura dos motivos para palestrar.
Sonhava publicar, mas nunca havia finalizado uma única obra. O processo da escrita, a criação de personagens e cenários era como conhecer novos amigos e visitar novos lugares. O frémito focava-se nos preâmbulos e o enredo era fábrica que, pelo facilitismo, atraía apatia.
Mas no dia em que pensara morrer, arrependera-se de não se testar ao mundo. Estendido numa cama hospitalar, no meio do deserto, sem vivalma por perto, que não um ou outro cacto ou rocha, soro era oásis literário, salvação para a publicação.
Agarrara-se ao sopro de vida mas deixara esvair a fala, o movimento, acção e reacção. Era mais um dos elementos do deserto, que ele próprio erguera. Aos poucos, foi-se apercebendo que oásis era miragem desenhada em palavras num qualquer trecho que erigira. Foi-se apercebendo que cada grão de areia sugava cada segundo de vida que lhe restava e o póstumo livro se esculpia no vento que mareava o músculo do braço defunto.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Extremismos

Ninguém realmente crê ser extremista nas suas posições, nas suas crenças sobre as temáticas mais assertivas para a sociedade. Isso aplica-se, em pequena escala à grande escala país, e, em grande escala à pequena escala cidadão.
Se Hitler estivesse vivo, e se alguém o entrevistasse hoje, com certeza explanaria, com a maior das naturalidades, as suas decisões sublinhando a normalidade destas e a palavra extremismo seria obliterada do seu discurso. Por outro lado, um qualquer ditador comparar-se-ia com Hitler e considerar-se-ia muito saudável quanto às políticas e excessos adoptados, nunca referindo qualquer excesso mas sim necessidade face às conjunturas dos seus mandatos. Um político moderado, na adopção de políticas menos moderadas, comparar-se-ia com um qualquer ditador, e seria presenteado com a conclusão de que ele era de facto um governante sábio, capaz de moderar uma nação mesmo quando, por vezes, surgisse a necessidade de um punho mais duro e inflexível a bem do povo ao qual servisse.
Um político liberal teria a tentação de comparar o moderado, aquando de posições mais inflexíveis, com um qualquer ditador e elevaria a liberdade individual ao extremo, não negligenciando o ser colectivo, mas considerando que o segundo serviria o primeiro, i.e que o colectivo teria funções de servilismo face ao individuo.
Um anarquista olharia o liberal com desconfiança, nem sequer concebendo a ideia do colectivo servir o individuo, de aspirações tão subjectivas e em constante devir motivacional. Para este, as regras não poderão ser impostas a nível superior mas sim de forma sintomática. Compararia a política a um médico que, não analisando os seus pacientes, receitaria antibióticos a todos eles. O resultado final seria que alguns acentuariam as suas enfermidades, enquanto que outros, por pura sorte da providência, curar-se-iam. A regra é conjuntural per si, e como tal regras escritas e imposição de hierarquias atrofiam o aparelho social criando ferrugem na interacção dos sujeitos sociais.
Finalmente, um qualquer individuo, comparando-se com o seu vizinho, considera que as suas assunções, comportamentos e decisões são racionalmente prescritos e que ele, ao contrário dos que o rodeiam, é moderado. Isso aplicar-se-ia aos temas mais variados desde pena de morte, aborto, eutanásia, casamento de dois indivíduos do mesmo sexo, etc.
Invariavelmente, erramos quando recorremos à comparação para validarmos as nossas posições. Invariavelmente, erramos porque comparamos o que é incomparável. Nós não temos uma opinião mais assertiva e equitativa sobre uma temática, por sermos mais ou menos moderados do que o político x ou o vizinho y. Nós temos uma opinião mais assertiva e mais equitativa quando respeitamos o ser humano, como ele se apresenta ao mundo e como ele se desenvolve como ser individual e social. Nós temos uma opinião mais assertiva e equitativa quando respeitamos as suas crenças, motivações, ambições e decisões sobre a sua própria vida.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Prancha

Mas se tiveres a vontade e o crer, nada é impossível. Esta foi a assunção de quem se elevou uns 20 cm e caiu uns 4 metros num monte de musgo. Paralítico - foi minha precipitação julgar o desfecho, quando afinal o corpo era ausente e a moléstia, a existir, estava bem camuflada de verde húmido. O choque levara-me a piscar os olhos, o suficiente para que agora quase me engasgasse de curiosidade. Entre um arranhar da garganta e uma tentativa de visualizar a melhor forma de descer os 4 metros de forma segura, levantei a mente da letargia e pus o corpo ao caminho.
O musgo era escorregadio, mantendo a sua natureza expectável, e a superfície rochosa descoberta era realmente sólida e pouco apelativa ao choque. Apalpei, para constatar o que afirmara e apesar de feliz com a constatação de que a natureza respeitava as suas próprias regras, exponenciei o meu estado de intriga. Momentos depois, repetindo em memória residual as palavras proferidas antes do fenómeno ter acontecido mesmo em frente dos meus olhos, cheguei à conclusão que deveria acreditar e repetir a proeza. Subi 4 metros. Saltei uns 20 cm e caí uns 4 metros. Paralítico - foi o meu estado, cuja letargia nunca realmente me abandonou.   

domingo, 4 de março de 2012

Fé?

Esmero era o adjectivo que vestia aos Domingos. Era a voz monocórdica, a luz vitralizada expondo as partículas de pó, que ele acreditava serem planetas, as caudas longas das cadeiras de madeira nua, os cânticos empolantes sem mácula dos maculados, o púlpito frio, o vinho minguante, o pão sem o fermento da vida, as vestes virginais regadas de sexualidade, era tudo isso que o levava a acordar em todos os sétimos dias da semana. Não havia um grão de crença, e muito menos de fé e, no entanto, não abdicaria daquelas duas horas semanais. Alimentava-se da carestia moral dos presentes, coleccionava lembranças de pecado dos que se sentavam ao lado e escrevia as mesmas no livro negro intitulado de "livro negro". Não frequentava o confessionário, mas era um conhecedor da lúxuria, inveja, gula, ira, avareza, preguiça e vaidade, porque moravam tão próximo dele aos Domingos de manhã.