O orgão de comunicação social, fasciculado em temáticas de paleio, decidiu findar o seu estado civil solitário e uniu-se à regressão espúria, que sofria de incontinência causal. Hoje, a felicidade do casal é o infortúnio dos pobres de cérebro...
segunda-feira, 12 de junho de 2017
Trambulhão
Não se precipitava em descer as escadas, não fosse dar um trambulhão. Mas os outros, dedilhando cada degrau com as pontas dos pés, famintos de saída, lestamente percorriam as escadas de lés a lés. Ela, com ambas as mãos sobre o único parapeito, focava o que os pés tateavam, sentindo o arrepio de uma espinha ao prever uma eventual tontura, que a desequilibrasse e a lançasse, tal barril, por ali abaixo. Ainda não tinha chegado a meio do percurso e já estava sózinha, escutando os berros, tornados cálidos sussuros pela distância. Sózinha não era, de facto, a melhor forma de descrever o acontecimento, a não ser que o narrador humildemente se resignasse à não personificação daquele ente, não muito querido, que perseguia os então desaparecidos. É que este, mais fogo que forma, coberto de línguas cuneiformes, artistas prontas a esculpir o cenário de carvão, hesitou perante tal brandura de movimentos e, contrariando a sua natureza, falou. Ela, surpresa pela vocalização, olhou para trás, tropeçou em si própria, e, enquanto caía, apaixonou-se pela ardente criatura.
Inteligência
A inteligência dele era igual às dos demais. O único problema era o uso que ele dela fazia: pouco. Como tal, denominavam-no de burro; mas ele sabia, com toda a certeza, que não o era.
Resposta
De sobrolhos apologéticos, deixou tombar uma daquelas palavras, que, na vertiginosa queda, ganhou o balanço suficiente para se elevar em frase, transportada nos carris de uma montanha-russa-mensagem, e embateu no queixo do recetor, amordaçando-lhe a resposta, exaurindo-lhe as ideias da seiva vocal e secando-lhe os olhos. Mas que falácia era aquela, que navegava na ignorância, soprada pela indiferença dos de ombros encolhidos, de inodora fragrância, e de estandartes tolhidos? Ele não se arrependeu da vil resposta, contrariando a sua natureza amena, e mesmo que delicadamente disposta, mesmo assim lhe fez pena...
quinta-feira, 11 de maio de 2017
Descalça
Agora que ela andava descalça e sentia o chão é que o chão lhe fugiu dos pés. Apesar de metáfora, e portanto tapada pelo cobertor do romantismo, a frase deixava os pés de fora, o que era o mesmo que dizer que descobria a fealdade do seu real sentido. Talvez a gentileza do léxico, a combinação mareante de palavras, desarmasse o leitor, fazendo-o sorrir à imagem que havia criado, à imagem anestesiante de leveza que o injetava levemente, e sem dor. E, de facto, ela, ainda descalça, não sentia dor. Não sentia. Jazia tanto como a cama que a carregava às costas, tanto como qualquer objeto inanimado. Tão inanimado como ela.
terça-feira, 7 de março de 2017
Dentista
O colar era de dentes careados. Não era uma tentativa de adjetivação criativa, ou uma forma simplificada de informar o caro leitor que os ditos encareceram, quiça pelo uso dado pelo seu utilizador, mas uma designação comummente utilizada por dentistas e massivamente replicada pelos sofríveis proprietários das referidas cáries.
E ele não conseguia olhar o dentista nos olhos, quando o tilintar, abafado pela relativa putrefação, o mantinha em sentido. O "queira sentar-se" era apóstrofe agressiva à história que ele criava na privacidade do seu pensamento. E, mesmo assim, sentou-se. Abriu a boca à ordem e, não contendo os frémitos da excitação gerada, sentiu a base do seu nariz, onde supostamente duas fossas se deveriam instalar, bater repetidamente contra o lábio superior. Ora este, decifrando o morse que se desenrolava deste cenário bizarro, juntava-se ao a sul e comunicava aquilo que o seu dono havia pensado ainda há pouco.
O dentista, enluvado de verde, de dedos ondulantes e viscosos, de boca bloqueada pela assepticidade, e de olhos amarelados pelo excesso de luz, assentiu com a cabeça, como se realmente tivesse experienciado as aventuras do relato, e arrancou-lhe um dente. Erguendo-o no ar, raíz cor beterraba, gritou: VOILÀ! O dolorido, agarrado ao queixo, percebeu momentos depois a exaltação. É que o dentista, concentrado na cárie, como se de buraco negro se tratasse, foi chupado pelo mesmo e nunca mais voltou...
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