sábado, 25 de julho de 2015

Sucesso

Foi na languidez dos dias que abortou uma noite. Sangue era espremido pela esponja cerebral, vertendo em folhas calcadas pelo destino. Onde um dia andara ele, agora andavam os determininismos outrora pardos pelo malogrado sucesso...

Polka

Se num anti ciclo uma antítese personificada tivesse o condão de massificar uma classe seguidora do limiar zero, isso chamar-se-ia utopia realizável. A realidade é, no entanto, assaz diferente. Um anti ciclo funciona como estabilizador das massas, espécie de analgésico que mantém a classe em coma profundo, alimentando a alma, e apenas esta, com ideais de revoluções liberais. O púlpito, esse, manipula os cordéis, em rédea curta, e o povo dança a polka.

Cisne

O coração era cisne selvagem aprisionado numa gaiola toráxica; e, quando a fuga parecia impossível, a raiva ergueu a vontade e pintou-a de real. De asas estendidas, penetrando carne, encontrando liberdade, bramiu ira em cada adejo e fez o corpo voar...

Abelhas e construções

Isto das abelhas construirem as casas com aquilo que constitui o seu alimento poderia ser analogamente comparado a um português edificar o seu lar com cozido à portuguesa, colocar janelas de alheiras, portas de arroz de polvo à lagareiro, e cobrir as divisões com bacalhau com natas. Ora, se para uns isto soa a total disparate, a proeza foi tentada e, obviamente, desprezada pelos insetos referidos. Certo dia, uma abelha, cursada em direito, visitou os irmãos Grimm. Depois de u...ns malogrados Zum zumm zzumzumzum zum ZUM, esta chegou à conclusão que a indiferença dos mesmos implicaria a imposição da lei marcial. A mensagem, em formato resumido, intimava ambos para comparecerem no tribunal já que estavam a ser acusados de plágio por, não uma, mas toda a comunidade de abelhas da região. Isto de envolver crianças como forma a criar uma potencial e futura empatia acabaria da pior maneira. De facto, as ausências dos irmãos custaram-lhes umas ferroadas que se prolongaram durante as suas existências. O espanto destes face a tão hostil comportamento por parte de tão delicados artrópodes foi proporcional ao alargamento das suas esperanças medias de vida.

Poder

Embrulhado num maço de notas: a raiz. Se dessa raiz, usurpada de cor e de vida, putrefacta em cada ruga, bramindo fedor, se pudesse extrair poder, ele não teria dúvidas em ferrar-lhe os dentes. E, no entanto, o poder não emanava da possessão e, muito menos, da ingestão. As notas, coladas arbitrariamente com fita cola, foram retiradas como folhas de casca de cebola. As gotas de suor, que lhe escorriam do frontal, e que lhe humedeciam as mexas de cabelo, cruzavam a meta atrás ...das lágrimas. Os dedos atrozes, vincados na raíz, adivinhavam o voo da águia para local seguro. Mas, não guarnecido de asas, abraçava-a, olhando suspeitosamente em cada um dos trezentos e sessenta graus. De passo leve, camuflando o movimento, pegou nas flores de N., encostou-as à única parede do deserto e ostentou impaciência. Segundos depois, de corredor desdobrado, tal língua de gigante faminta, prosseguiu o seu passo. Era o jardim, e não a cálida imagem desertica, que presenteava o olhar. No centro desse jardim, exatamente no centro e não um milimetro mais adiante ou mais aquem, encontrava-se um buraco com 13 cm. Não tinha mais nem menos de 13 cm. Colocou a raíz. Cobriu-a de pequenos seres humanos. Regou-a de sangue. Sorriu, e nominou-a de "Todo o mal".

Dentes

Quando ela partiu, foi como se lhe tivessem extraído do coração todos os respetivos dentes, sem recurso a anestesia. Dorido, e sem dentição, o coração estava incapaz até de se alimentar da memória. Definhou, subnutrido que estava, e morreu. Com olhos em estado de coma, dirigia o olhar, mas não via. Empalideciam-lhe os lobos temporais, uivando profundamente; tão profundamente que as alucinações lhe consumiam os restantes sentidos...

Almas

Havia um lago escondido por brumas e guardado por duas criaturas, que mantinham uma vigilância ininterrupta. Como nunca se cansavam, não dormiam e nunca se distraíam. De longe, assemelhavam-se a duas mulheres, se descontassemos o facto de terem as faces mumificadas e os membros inferiores exageradamente compridos, o que as obrigava a segurarem cada uma um tronco delgado e longo como bengala, sugestionando a imagem de dois enormes tripés ambulantes. Tinham o cabelo negro e, não cobrindo a parte superior dos seus corpos, descobriam dois círculos mamários curtos e ressequidos, que se destacavam da restante pele colada às costelas comprimidas. Os membros inferiores estavam cobertos com saias de luto, que inclusivamente lhes escondiam os pés. Quem as visse ficaria com a impressão que o comprimento desproporcionado lhes havia esticado tanto a pele, que o desenvolvimento de massa muscular estava consequentemente impossibilitado. E, no entanto, e apesar dos olhos estarem ocultos entre ligaduras, ostentavam um vigor ameaçador, um porte robusto, de movimentos lestos e desembaraçados.
Estas sentinelas, como seria expectável, não guardavam o lago de potenciais intrusos, porque não os havia, mas, ao invés, mantinham no lago o que não era suposto sair. Da sua composição não constava uma única partícula de H2O. De facto, os vários milhares de metros cúbicos eram preenchidos por miríades de almas no estado liquido. Para que fique claro, e para quem ainda desconheça, a morte é um processo normal de condensação da alma: do estado gasoso, e inflando os pulmões, passa ao estado liquido perante o último suspiro, uma forma de materializar o protesto face ao inevitável. As brumas, que emparedam o espaço circudante, correspondem ao ciclo, e, portanto, ao transitável, e o lago ao repositório do consumado. Sendo assim, as brumas movimentam-se de forma constante e unívoca, tal como o fluir de um rio interceptado pelas pás do moínho, porque o contrário representaria um desrespeito às leis universais; e a garantia do cumprimento é personificada nestas duas criaturas.
Uma pergunta pertinente e legítima, que despertará da curosidade de muitos, relacionar-se-á com as razões pelas quais as almas se encontram neste estado de eterno encarceramento, ao que o autor será obrigado a replicar uma das teorias de conspiração, murmurada entre velhos sábios, desprovido que está de uma explicação mais empírica. Segundo reza a teoria, o aprisionamento das almas tem o condão de satisfazer dois objetivos. Primeiro, o de as manter longe do mundo dos vivos, já que a eventual interação suscitaria uma tremenda confusão; seria como misturar alhos com bugalhos, e todos sabemos que um alho não rima bem com um bugalho. Segundo, e de carácter mais prático, o de providenciar energia aos deuses. Este último prende-se com a capacidade energética inesgotável das almas e com a necessidade quase diária de recarregamento destas criaturas, que precisam de rios, ou neste caso de lagos, de energia, considerando que existem centenas de deuses ativos, e cuja grande maioria facilmente adquire proporções deintescas. É todavia curioso verificar que, apesar da propaganda dirigida pelas diversas religiões, mobilizando os vivos à devoção, os deuses precisam mais de nós mortos do que vivos. E é exatamente por essa razão que a imiscuição entre o divino e o humano é comum. E é exatamente devido à anti natura descrita que muitos humanos perecem misteriosamente...

Matemática dos valores humanos

O malograr da democracia e do capitalismo são duas retas cortadas por uma outra, a natureza humana, formando ângulos alternados idênticos, também apelidados de regras do jogo. Ora estes ângulos são extremamente agudos para os cidadãos comuns e bem obtusos para uma pequena maioria de descrentes na moralidade e nos bons costumes. Enquanto a natureza humana se esvai na ganância, a tangente, sustentabilidade do modelo humano, tende para o nulo...

Noite e dia

Já pensaste porque é que o sol avermelha quando se põe? O outro, ainda afundado na filosofia, sentiu-se incomodado com o sequestro da conversa e suspirou; pleonasticamente revirou os olhos porque nao lhe interessava o tema. O primeiro, adivinhando o desinteresse, e oferecendo o perfil, como forma a manter a guarda confessou. O sol avermelha porque chupa todas as cores quentes debitando o negrume numa espécie de ciclo de cores diário. E rindo, a noite é o dia sem cor...

Cornos retorcidos; mãos encostadas uma à outra fazendo um triângulo equilátero, cujos ângulos eram os cotovelos encostados à mesa, aresta inferior. O cálice alinhado com o focinho cónico estava cheio. O tampo, trapézio pela perspectiva, escondia o resto do corpo. Se não fora o ritual, o corpo não se entregaria ao movimento. Por detrás da imagem estava a ação.; era o sustento da crença e o ganha pão da fé...

Alibaba revisitado

Ora ele, gozado por nao ser real tal alibaba expurgado de um conto passado a ferro pela suspeitosa razão, deleitava-se com o vácuo deixado pela indução, metaforicamente estendendo as pernas, embrulhando-as como presente aos passos que daria caso Ricardo o escrevesse, apontando os cotovelos ao azul celeste, alvo meritório das musas de puritanismos envergonhados, e suportando a cabeça com as tartarugas mãos. Antípoda da vontade, erguia-se a inércia, relegando a primeira a vales amargurados, secos há muito pelo excesso caudal, cuja fonte, que outrora lacrimejara, e depois sarara...

Salva-vidas

Todos sabemos que o conceito utópico do papel do estado passa pela imposição de justiça, numa organização humana por ele estabelecida, isto porque os instrumentos automáticos, de um aparelho social vagueando no vácuo, tendem a criar situações pouco equitativas. Mas os estados têm uma capacidade inata de se alhearem das suas responsabilidades através da consecução de objetivos específicos, e nem sempre coincidentes com os das comunidades visadas, ao atribuirem primazia à eficá...cia, todavia descurando na eficiência da esfera social. Um exemplo do que foi afirmado é passível de observação nas várias metrópoles urbanas, onde o estacionamento passou a ser objeto de pagamento tornando-o inacessível para muitos cidadãos. Obviamente que, não tecendo apologias ao tráfico exacerbado nos centros urbanos, parece-me que existem instrumentos de racionalização que, para além de cumprirem este objetivo, não denegrecem a equidade social. A lógica inerente ao pagamento deste serviço é simples e eficaz: quanto maior for o custo, menor será a procura. Curiosamente, é mais caro estacionar o carro num local desprotegido, alvo de intempéries e de furtos, do que visitar um dos muitos museus tais como o musée d’art moderne em Paris, e estar exposto às externalidade positivas da arte, sem desembolsar um único cêntimo. Todos nós sabemos que, para quem tem muito, o parqueamento, mesmo que costumeiro, não desbasta riqueza. Para quem tem muito, o estacionamento passa a ser mais apetecível, porque as diminuições na procura flexibilizam as deslocações. Por outro lado, quem tem pouco sente-se lesado, sobretudo quando esse serviço representava um conforto, e não um luxo. Quem tem pouco, e precisa de trabalhar, tem que encontrar alternativas de locomoção, que, em alguns casos, lhe reduzem o tempo de lazer e com os seus. Por outras palavras, o estado, ao qual lhe são incumbidas tarefas de justiça social, disponibiliza serviços, não a quem precisa mais, mas a quem paga melhor. Imaginemos um navio prestes a afundar e onde existe apenas um barco salva-vidas. Esta situação conduzirá a um raciocínio deveras fácil, dirão alguns, porque a parábola é extremista. De facto, quase todos concordarão que crianças, idosos e mulheres (sobretudo grávidas) deverão ser atendidos com prioridade. Contudo, se colocássemos o estado como comandante desta embarcação, este cercearia o acesso ao barco salva-vidas, não sustentando a mesma numa lógica de direito e moralidade, mas numa lógica de quem tem a maior riqueza.

Prédios

À noite os prédios são animais. Arregaçam os passeios malhados, esticam pescoços à lua, saudando-a com uivantes palavras. Erguem hospedeiros nos sonhos partilhados, conspiram para que no acordar memórias falhem. Assim somos nós, testemunhas silenciosas, andando à boleia da criatividade de gigantes...

Dor

Ele, aturdido pela língua chicote, de convicções doridas, esganiçou a voz. O tom vergava-se à incapacidade de reciprocar, tal balão desgastado precipitando-se pelo soalho das ideias. Chão imundo, encardindo o Mikado dos seus pensamentos, tal emaranhado de sinapses imaturas, era o seu poiso, denegrido pela imobilidade, tal pássaro aprisionado em gaiola reduzida. Ela, brinquedo de plastico de corda puxada ao limite pelo seu subconsciente, abanava os braços, dando ritmo aos fonemas disconexos, fazendo-lhe nódoas negras num coração estraçalhado...

Vindicar

Sentado, a ver elefantes passar, pausando as passas ao sabor dos fumos exalados em camara lenta, ruminou uma ideia mascada com fiadas de Tabaco. Não era brilhante, mas também a placidez, a lassidão envolvente engoliam-no. Nas goelas da imobilidade, de membros presos, chocado com uma inércia imposta, revoltava-se mais com a resignação dos membros do que com as cordas que o mantinham cativo. A ideia era congeminada não tanto como uma tangível possibilidade de fuga, a julgar pela incapacidade de julgamento inculcada, tal semente fertil, mas como um meio de dignidade, de revolta, de orgulho. Não ousava escapar; ousava, isso sim, bramar aos céus o direito de o fazer. A fuga não consumada era comunicação, era libertar a expressão, cantá-la ao mundo num soneto de vindicação...

Vão

Perdeu-se no discurso. Gaguejou, evitou os olhares omissos pelos holofotes, e, tropeçando na mensagem, trepidou a linguagem, metamorfoseando-a em grunhidos. Os óculos nublaram e escorregaram pelo funil nariz, os dedos fincaram a madeira do pulpito, tentanto reter a massa corporea de verter pela tribuna, tal vela derretida, projetando-se pelos degraus em cascatas de vergonha. E, num momento de quasi-não-existência, alinhavou os fonemas e construiu uma palavra. Os membros solidificaram, saudosos que estavam do convivio, e regressaram ao corpo. Os óculos desfribrilizaram o cérebro e a mensagem prosseguiu sem ruturas, sem reticências, sem conteúdo...tal e qual como sempre fora...

Camaleão Guedes

Quando ele desdobrou a língua nem o Camaleão Guedes adivinharia o quão longa ela era. Nem o mesmo imaginaria o quão lento esse processo seria. Mas, talvez o mais inesperado e grotesco, eram as inúmeras criaturas ao pé-coxinho, que provinham das profundezas das fantasmagóricas goelas. Tinham, cada uma, uma única perna de pau e lábios de palha. Quando me confrontei com elas, o sorriso armou, tal arco hirto pronto a largar flecha, e algumas farripas verteram e colaram-se à inund...ante saliva. Alérgico à palha, a boca fechou-se, decepando a língua, que se contorceu como cobra moribunda. Os seres cairam e, coxeando no vácuo, faziam lembrar escaravelhos de pernas para o ar. Eu e o Camaleão Guedes demorámos 3 horas para colocar em pé os 345 pé-coxeantes. No final, depois de sinceros e comovidos agradecimentos, ofereceram-nos as costas e cairam ribanceira abaixo.

Ácaros

As palavras dele eram ácaros, isto é, invisiveis aos olhos, mas geradoras de alergias; Ele sabia-o, pouca era a aderência à leitura, mas tinha esperança que, face à inexistência de predadores críticos, a sua habilidade mutasse para estágios genético-conceptuais mais elaborados. Talvez por isso, nunca tenha abortado uma gestação que tardava em parir. E foi nessa tarde em que a noite era abutre, pairando sobre um dia moribundo, que ele finalizou a obra. As letras incharam e pesaram, tais esponjas encharcadas, e a literatura, tal como a conhecemos, deixou de o ser...