sábado, 26 de março de 2011

Ofusco


Toldadas as tormentas com nuvens de incerteza,
a solução é calar os montes, retirando-lhes cognomes de vulcões,
rasgar os mares e diminui-los a rios amestrados, que correm se assim forem ordenados,
cuspir ao sol, arrefecendo-o com elogios, que lustram o ego com falsos dourados,
sarar solos feridos com páginas enroladas de dicionários deturpados pela vontade...

Solidão

Não fui eu. Eras tu que o farias, ou já o fizeste. Não estou recordado porque sonho é passado e futuro é sonho que o sonho me ilumine o futuro. Fui lá àquele sentimento. Permaneci por longos momentos. Ninguém se juntou a mim. Solidão, declarou ela. Talvez isso. Faz sentido. Afinal, não sou bom a denominar lugares, mesmo que comuns. Agora, graças a ela, chamo o lugar de solidão. E lá construi casa.

Nada

É a sola que extingue uma sombra, condenada a uma noite vampira, gasta pelas promessas de viagens, sonhadas em dias aquecidos pela vontade de partir, sufocando palavras escritas no palato de um grito mudo pelo receio de revelar sentimentos unívocos, saturando a imaginação com cinzentos pintados por profissionais alugados à hora, abandonando o quadrado traçado no solo, denominado de casa pela insanidade

Silêncio

Encrespei o cabelo na zona das marés vivas antes de sair. Espelhei o efeito, desvirtuando a natureza, e fui recebido em apoteose pelos vulcões assobiantes e pelas palavras lava que me derreteram os sentimentos...
Voltei a casa, munido de histórias em ambos os coldres e disparei palavras de encanto em pequenas folhas outonais...
Esperei pelo verão, de letras estendidas ao sol, enxugando toda a amargura de um inverno prolongado pela ansiedade, e publiquei silêncio...

Absurdo é ser normal!

Sentou a culatra num maple anos 50. Berloques hippies, suspensos nas braçadeiras, interrompiam a funesta cadência homogénea...
"Uma relação mutualista é pugilista pesado em teoria de jogos", pausou, reclinou os óculos escuros sobre o outro, encostou-se novamente e continuou...
"protocooperação ou comensalismo é dar o braço ao crocodilo".

De pontas dos dedos coincidentes, soletrando um triângulo trémulo pela articulação das falanges, expirando em cada pausa do seu semelhante, replicou por fim: "Abafo quem?"
"O picas" saiu como estalo, castigo pela linguagem asséptica. O curto, calças despidas ao nível dos calcanhares, engoliu em seco, e a minhoca da sua maçã de adão, expelida pelo pecado da palavra, desertou...
"O picas" ecoou na boca do outro. "O picas" arrastou o sentido para a imagem criada mentalmente. "O tipo vendeu-me o bilhete para o Taxi driver e..." e quando saiu virou-se para o mesmo e atirou-lhe are you talking to me, pensou sem o verbalizar...
O maple era saudosista. "Era o verde...", pensava o dos óculos escuros, "que me transportava para o bucolismo do pasado". Preferia o passado à sanita falante que lhe atentava para um futuro sofrível devido às incúrias de uma dieta patética (adjectivo soletrado pelo objecto).
O curto temia retaliações e, como tal, refugiava-se no foco do seu olhar que, entretanto, distraira o outro. Um mosquito flatulento cumpria o seu ciclo de vida de 4 segundos. Olhava o relógio, atento à ventosidade sonora do insecto para se certificar do facto científico citado. E, para evitar outro qualquer reparo, repetia a piada de sempre: e se os elefantes tivessem ciclos de vida de 4 segundos e voassem?
Era aborrecido por demais esta previsibilidade e o do maple adormecia, por breves segundos, ressonando a bom som, demonstrando assim o seu estado sem medo. O acordado, de missão entregue, levantou-se, benzeu-se como se estivesse a jogar à macaca e saiu de pontas, tal como as bailarinas que pagava à hora...
Russo, de barba lavrada, colhia alfaces dos poros. Lucia, plantava batatas no quintal, peito avantajado de dificil acesso aos tratores. Ambos viviam deitados, lado a lado, de mãos dadas como verdadeiros Shakespearianos...A única diferença que tinham, relativamente a outros casais, era que os seus corpos eram herdades de cultivo...
Mas tanto Russso quanto Lucia sabiam que tinham os dias contados devido aos problemas de estandardização impostos pelos organismos internacionais...
Um dia teriam que se levantar e cair novamente devido à inércia do tempo, do rito musicado pelo dos óculos que tecia considerações sobre o amor platónico, sentado na cadeira de balouço, entrincheirada e elevada no pedestal do resíduo tóxico, adubo dos enamorados...
Fazia-o com relativa frequência, a voz abafada pela máscara anti-tóxicos, gesticulando vampirescamente, elevando-se da cadeira de madeira para sublinhar a tenacidade da mensagem...
O picas vivia num caixão de três assoalhadas. O rés do chão estava e decomposição mas ao restante alojamento não carecia das comodidade tipicas de uma casa decente.
Entrava sempre pela chaminé e saía por um sonho. Os vizinhos, que não tinha nenhum, chamavam-no de pai natal. Mas ele era cadavérico, baixo, pálido na face, cinzento no restante corpo e não tinha nem uma rena.
O assassino desceria os degraus invisiveis do céu, tocaria à campainha da almofada exterior e penetraria o seu interior, comendo as penas para que o seu corpo tivesse espaço. Posteriormente, teria que por um ovo e esse acto implodiria a sua alma, cuspindo-a para o interior do sarcófago do Picas...
A falta de gravidade da sala redonda permitia ao Picas estar no tecto, de cachimbo apagado na boca, usando-o como chupeta de bébé amestrado, a ler crime e castigo...
‎"Tudo está ao alcance do homem, e tudo lhe escapa, em virtude da sua covardia".
Lia em voz alta quando a sombra da porta se desdobrou no reflexo do quadro de Bruegel...
"Que é que os homens temem, acima de tudo? O que for capaz de mudar-lhes... os hábitos".
Serás tu capaz de mudar os teus? disse sem olhar, porque as palavras não provinham do livro espraiado no ventre peludo...
"Um homem que se afoga agarra-se a uma palha."
Eu dar-te-ei um boia de salvação...agarra-a...
E estendeu os braços, anteb...raços e dedos, assumindo o papel de rendentor kitch.
O curto, emocionado, estendeu o seu braço, cuja mão empunhava uma pistola com silenciador embutido na extremidade, e disparou...
a coreografia das gotas de sangue era corrigida enfaticamente pela professora de salsa e merengue, articulando uma batuta, que, de quando em quando, batia contra a anca esquerda.
Subiu um degrau, percorreu um corredor, pé ante pé, vitrais predominantemente encarnados ladeavam o tapete escorreito, imaculado ao toque, virgem de parto coincidente com o milagre da porta entreaberta que ele agora trespassava...
Ele era o feto, tornado homem, após a morte. Crescia uns cms, mostrando não só o calcanhar, mas também a canela. Robusto, poderoso, sentia os pelos de um peito inchado amadurecerem...prontos para a colheita...

Missão

Há um espírito de missão que sustenta o platonismo, enriquece os laços da afectividade, recria-se em loops de positividade e combate o ocidentalismo do crescimento amoroso por fases por exclusão....imaginação cultural ou cultura da imaginação?

Claire de Lune

Não seria eu a mergulhar os dedos numa conversa vã, esperando secura como resultado. Era assim; um dedilhado no meu sentimento, como massagem expectante pelo adocicar da minha voz. Outrora, fora eu piano, deliciado pelo som do contrabaixo.
Hoje, de cordas murchas, sonho pelos dedos de uma criança, fénix de um futuro, que aluguei em troca da adopção de entes que não me eram queridos.
Mas foi quando satirizei o meu espelho, não me reconhecendo nele, que sofri com o resultado. Não estava perdido, porque para me perder teria que saber onde pertencia. O ego rugia e engolia bocados de carne da minha vivência, abutres eram peças que escrevia, ainda com o sabor salino do amargo que os contornos dos lábios desenhavam. Sonhava que pesadelos eram bálsamos de criatividade e, por isso, regava com ácido todas as palavras que escrevia...e, por vezes, as palavras que nunca escrevera.
Subia sempre, porque descer era fraqueza, recta era apatia e conformava-me com a dificuldade de não ir a lado nenhum...
Não seria eu a mergulhar os dedos numa conversa vã, esperando o vazio mudo...Mas, seria eu a mergulhar os dedos numa conversa vã, esperando uma sonata de memórias engordadas pela tristeza...  

Escrever...

A mão de dedos mimificando uma pistole em riste, o som provindo de uma boca explodindo como o tambor contra a pólvora, o sopro final ateando o fio de novelo do fumo enrolado pela morte...era assim que brincávamos, e era assim que escrevo: mimificando a vida com palavras...

Memórias

Desceu os degraus das escadas que seguiam o corredor outrora percorrido. O subconsciente seguia-o. A porta em frente tinha teias de aranha nos vértices, pó bem medido em toda a sua superfície, mas abria-se com ligeireza.
A luz incandiava ambos: ele e o seu subconsciente. Era o jardim soalheiro que se espraiava até ao limite de um horizonte azul líxivia.
Dois escaravelhos corrigiam-se no tom a seguir, enquanto seguravam dois contrabaixos e os pássaros de asas de água humidificavam o trajecto do caracol, que agradecia efusivamente enquanto arrastava a sua mansão.

Os espirais verdes distendiam-se, com início nos ramos de um carvalho azulado pelas milhares de aranhas que cantavam odes à memória, e terminavam como balouços de gafanhotos que sopravam potentes saxofones...O nariz espinhado do éfesis que voou até ele contorceu-se em boas vindas...eram as boas vindas das memórias. Virou-se para o subconsciente e sublinhou algo que este já havia notado: olha, isto era a minha escrita há 10 anos...
E tocou a relva..., cheirou-a, identificou-se com o cheiro porque havia sido ali que o seu talento havia nascido...

Lacrimejou quando a música tocou, agora mais organizada, expectante pela sua chegada. Caminhar pelos estreitos corredores do cérebro, abrir portas antigas, tem as suas contrapartidas...