O foco iluminava a santa e, por mais que o milagre se assemelhasse a publicidade religiosa, saltou do parapeito musgoso, oferecendo as costas da indiferença à Religião...
Não é que não acreditasse no divino, mas sempre o vira como parte das variáveis que nunca compreendera, tais como espaço ou tempo. Era demasiadamente racional para ter fé e, ao mesmo tempo, para colocar a existência de Deus em causa absoluta...
Houve quem o acusasse de insensível, devido ao processo metodológico que impunha à forma como analisava temas tão abstractos como amor, paixão, atracção...na verdade, não havia abstracção na sua opinião, mas sim racionalidades subjectivas.... Ao contrário de Rousseau, ele interpretava a verdade como algo individual e não geral e abstracto, já que a importância de cada facto variaria de acordo com cada um. Logo, mentir sobre se o fundo do mar no Butão seria amarelo ou verde dependeria do receptor de tal mensagem. Se para a maioria, isso não constituiria uma mentira porque não alteraria em nada as suas felicidades, para outros, mesmo que o facto em si não apresentasse qualquer relevância científica, seria um arrombo na confiança e na produção de qualquer outro facto provindo da mesma fonte...E, perante este superlativo de individualidade que ele sublinharia em qualquer discurso público ou debate burlesco enfeitado por anéis de vinho em copos vazios, não deu conta que caminhava, ou flutuava para ser mais preciso, sobre a película espessa de reduzido volume...
Algures, abruptamente rasgando a estrada pulmonar, um pedaço de terra, suspenso no nada, convidava à pausa. Os pés, assentes no que lhe era familiar, suspenderam a marcha. Em frente, o sol era um pedaço de Deus que ele contemplava. Mas era uma Vénus de Milo em que lhe faltava o resto...nomeadamente, respostas...
Cada árvore era uma memória que ele acariciou com o olhar. Umas mais frondosas, presentes, outras semi-escondidas pela névoa, quase ausentes, outras negras, desprovidas de vida, outras musgosas, sacudindo o oxigénio em abundantes rodos, oferecendo a vitalidade que lhe minguava o futuro...
Houve quem o quisesse fotografar, captar o infinito com uma lente filosofal, amar o imaginário no pedestal em forma de tartaruga...
Mas ele contentar-se-ia em contemplar na memória qualquer indício da sua existência...não era ambicioso no sonho, mas artista como o interpretava...
Bandeiras eram cores que ele alternava de acordo com caprichos, mudando-as sempre que uma barreira se avizinhasse, tal como agia com os sonhos...tinha como lema exacerbar um sentimento para o fazer sentir irreal aos olhos dos demais, e essa era a sua maior fraqueza, que tentava, a todo o custo, colorir diferentemente...mas, por mais que se esforçasse, mais escorregadio e elevado se erguia o muro, por mais grafittis que lhe cravasse, a fealdade era o seu principal atributo...
Era o ábaco de desgostos que ele tão habilmente manipulava, movendo lágrimas de um evento para o outro, por entre teias que o prendiam ao passado...
Cabisbaixo, soletrando cada passo que o levara sobre o algodão nascente, reflectia sobre si mesmo, algo que ele fazia tanto e tão mal...
Era a última lágrima, contabilizada escrupulosamente no seu ábaco, que atingira o auge; brilhante, espelhando copiosamente a alma, despindo-a ao mundo...
Receava mais intensamente este nudismo imposto pelo desgosto do que o desgosto per si...o baú deveria conter o negrume do segredo, e qualquer chave que realmente o abrisse seria tratada como inimiga...
Se a poesia, que ele escrevera em momentos de solidão, lhe trouxera a companhia que ele desejara, transformar-se-ia em gigante e ofereceria copas de árvores, como se ramos de flores se tratassem, ao simbolismo das suas palavras...
Era a epístola, timbrada a medo, que ele se lembrava. A última, aliás. As anteriores evaporaram, tal o impacto desta.
Entre uma flor e outra, nunca oferecidas, era equilibrista e a rede era teia de predadores de felicidade. Por vezes, ousava acreditar que a queda era o início de algo melhor...mas o receio tinha o paladar do sal da estátua em que ele acreditava transformar-se...
E a esperança, dilatada pelo amor que tinha à vida, fazia-lhe acreditar que dedos rasgariam a terra, não para a destruir, mas para a resgatar, pagando com cada pulsação da paixão sentida em cada poro de floresta por desbravar, que era afinal os seus sentimentos...
E, no entanto, intoxicado com medo, despromovendo os ombros de estandartes de moralidade inquestionável e descendo ao breu, onde todos os valores eram pardos, pausou a vida e convidou a morte para alguns momentos de folia...
Mas a morte veio mascarada de fénix, noiva cuja cauda de luz dava esperança aos incautos, rasgando o branco virginal, desvendando o pecado que é o conhecer a verdade...e, assim, ele contemplou o nascer do sol
O receio levou-a a agir. Plantou o espantalho, esperando assustar a verdade, repelindo-a como se de sarna se tratasse...mas foi esta, que pousando, se alimentou da sua ansiedade, comendo cada migalha de ânimo que o mantinha à tona...
O passo de fé, exigiu-lhe o Livro...mas ele precisava de um rosto, um corpo, uma voz de comando. O passo de fé, olhos cerrados, mente imaginando um caminho que o sorriso adivinhava...a ilusão poderia tornar-se realidade, e o misto de receio e vontade que isso acontecesse toldava-o...
pendurou as penas das suas asas ao sol, convertendo-as em palavras que proferiu ao vento. Eram amantes a partir dessa data. E, como amantes, fundiram-se na floresta que expirava serenatas à comunhão, inspirando talento de cada palavra cultivada em terreno fértil...
à lua, expiraria claves de sol, subindo degraus de teclas de piano, fluorescentes pelas cordas vocais de piropos invisíveis, como era o amante sentado no pedestal, entronizado pela abertura da caixa de uma Pandora obcecada pelo nada...
e o ilusionista, do baralho de sentimentos, sorriso fálico, cremado pelo engenho, abriu o leque, ludibriando o espaço, concedendo-lhe apenas uma porção de tempo passada para uma opção futura...
e ele, estendendo o braço, escolheu o impossível, erguendo-o ao nível dos olhos vácuos, e viu o translúcido do vazio...
E foi para esse vazio que partiu. Arrendou casa, pagou com a alma, e escreveu o livro do nada. Comia ar, respirava parágrafos que redigia com a resignação, tornada revolta em cada página evaporada pelo tempo...
Publicou-o sem folhas, mas lá cresceu uma floresta. O vento roçava languidamente em cada palavra, trovando a quem quer que ouvisse e o orvalho que escorria pelas faces de uma capa sem nome, precipitava o conteúdo...
Cinzas de insónias fantasmas, sopradas de palmas de mão lidas, fumegando verdades, embaciando-as e pintando-as de cinzento...
Mas havia algo que se erguia mais alto do que a resignação, mais alto do que a venda que lhe encobria o coração...uma folha verde
Desdobrou a amnésia e tapou a memória, anichando-a no calor da indolência, obliterou o bilhete para uma sonolência de uma espontaneidade moribunda e adormeceu...
Chão era céu e céu era o chão que ele passou a pisar. Escondido do acordar numa caixa de fósforos, imolou a vontade e derreteu a mão que escrevia o diário e, assim, faleceu...
O corpo, que era água, ao rio voltou. O sol chamou por ele, penteou-lhe as ideias e tornou-o apresentável a Deus...e lá foi ele, digno e sem pecado, absorvido pela esponja do perdão...
A alma vendada, atirada ao hades pelo engano, atribulada pela reencarnada paixão, era corsária traída pela linha que a velha lia na palma da mão...
Ents eram família, exaurindo o oxigénio do seu cérebro, deglutindo as boas ideias, cuspindo o resto. Dragões eram as espinhas ideias que se cravavam na corja da floresta...
Pão é corpo, metade carcomido. Vinho é sangue, escorrendo pelo braço, cuja mão ainda empunha a pena. Sorriso fácil, sem motivo, caluniado de imaturo pelos de vidas ligeiras. Assim era ele, tornado imortal pela quase morte, quase vida.
Não pela breve existência, mas pela eterna ansiedade que turvava o seu destino. Toda a calmaria do prado maduro escondia a fragilidade do passado adocicado pela não experiência, e ele sabia-o bem...mas houvera quem não se apercebesse...
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
À espera dele, sentados, rostos reclinados, olhos ausentes uns dos outros, estavam K., P. e M. K., como sempre, brincava com um qualquer objecto, como forma a evitar os restantes. P. e M. posicionavam-se nas extremidades, reforçando um cansaço teatrializado pelo suportar de ambas as cabeças nos 4 joelhos inertes. K. ensaiava uma carta ao pai, dactilografada há muito no seu lobo frontal, em curto circuito com todas as lágrimas derramadas nos dias que precediam a espera. O sacríficio que o pai fizera para lhe proporcionar uma vida abastada, pagando-lhe os estudos, nunca interrompidos para ajudar no negócio da familia, tinha sido, aos olhos do progenitor, um reflexo de pura ingratidão. K., entendendo a posição do pai, tinha, contudo, uma opinião diferente e que o colocava em piso seguro, inculpável. Sentia-se culpado, amargurado, não por um assentir das acusações, mas pela proximidade sentimental de quem o acusava. O pequeno pau que degladiava entre os nós dos dedos era o pai, esfumado na palma da mão, reaparecendo com toda a punjança nas costas dos dedos, vergando-os pela dureza das acusações.
P. era autista, preferia os monólogos sem o ardor de opiniões contrárias, entregando-se ao diálogo muito raramente. Tinha uma cognição peculiar mas linear, não permitindo a correcção de assunções passadas sobre as quais havia sustentado outras. Tinha receio que o edificio ruisse e, como tal, colocava-se na ombreira das ideias, não ousando explorar os restantes compartimentos da sua casa mental.
M. não existia. M. era P. quando P. morria. P. morria por vezes, e hoje P. estava morto.
P. era autista, preferia os monólogos sem o ardor de opiniões contrárias, entregando-se ao diálogo muito raramente. Tinha uma cognição peculiar mas linear, não permitindo a correcção de assunções passadas sobre as quais havia sustentado outras. Tinha receio que o edificio ruisse e, como tal, colocava-se na ombreira das ideias, não ousando explorar os restantes compartimentos da sua casa mental.
M. não existia. M. era P. quando P. morria. P. morria por vezes, e hoje P. estava morto.
Balas perdidas
Encostou o côncavo joelho à cama e pressionou. O arrastar desta no chão de madeira acordou o dono da casa. De movimentos atabalhoados, nadou nas ondas dos lençois e sacou a arma que se afundava por debaixo da almofada. Disparou 10 vezes mas apenas 7 balas sairam do cano da pistola. O fumo e pó libertado de um estuque alvejado foram as brumas de uma Avalon onde a princesa Morgaine, em pé no barco r...aso, vacilou. O vestido branco manchado de sangue era indicio de uma história de fim precoce. O lago gélido, receptáculo da fada ferida, expelia as últimas bolhas de oxigénio, enquanto o corpo se perdia no negrume das profundezas onde um submarino se perdia. O Capitão Nemo, perdido num qualquer livro da sua biblioteca, sentado em frente da janela que era aquário infinito, encontrava uma quase anémona branca, mas tingida de vermelho aqui e ali. Arrebitando o cachimbo, hipálage de atenção, expondo os globos oculares à perplexidade, apercebeu-se, aos poucos, que o ser era menos uma actinaria e mais um mamífero humano do sexo feminino. Ora tal, a cerca de 280 metros de profundidade e sem qualquer equipamento de mergulho, era por demais suspeito. Seguindo o corpo veio a segunda bala. Anichou-se no ventre do submarino, sem antes ter feito a tangente à fada.
Réptil era ele
Cabisbaixo, ombros répteis sem espinha dorsal, calcanhares quebradiços, sonhos arqueados de vértices espinhados, olhos escondidos no capote negrume, seiva que era sangue quando sentimentos houvera, assim ele era...
Mensagem na garrafa
O velho, antes do último sopro de vida, tinha-se dedicado à escrita de uma extensa carta, que colocara numa garrafa convenientemente fechada, posteriormente lançada ao dúbio oceano. Depois de largos meses e tempestades, a mesma atingiu uma ilha. Um velho roxo, ergueu o cone vidrado, molhado de mar e esverdeado de algas, e foi seguido por uma multidão de criaturas menos roxas até ao círculo que envolvia uma fogueira. Lá, retirou a rolha, extraiu a carta e...comeu-a!
Vilão
Sou vilão da minha própria vontade, esbatendo a minha consciência num remorso pastel. Desenhei, quando talento era moeda de troca de sofrimento; agora, que a paz alugou espaço no meu futuro, cedi criatividade, colhendo o fruto do ventre que eu próprio criei…
Vermelho
Não era vermelho lacre o sangue que fechava a carta timbrada, mas sim um vermelho pardo, sem vida para que se esvaisse dela...
Não era papel, mas sim madeira raspada em finas camadas, que cortavam as letras, cuja seiva pintava mais um chão do que um céu adufo, tosco, sublime na sua fealdade...
Assim era o conteúdo, também ele húmido, perversão cognitiva do sonho martelado noite atrás de cada dia, escopro da minha vontade que abriu a jaula da minha insanidade...
Castelos
Dava ênfase ao passo, alargando-o pela quase perpendicularidade com que ele erguia cada perna, calcando posteriormente a terra com ambas as botas, erguendo castelos explorados pelas cardeais formigas. Ora, se uma cidade se construira em meros micro segundos, a rede social, que a orquestrava, demoraria apenas um dia; o suficiente para se concederem os títulos, que permitiam a uma minoria explorar a maioria.
Dor
Dei de caras com o gago fisionómico, sobrancelhas içadas, no alpendre do falecido. Tudo se adjectivava em tremores, verdadeiros coices na escala de Richter. Os soluços eram ondas durante uma tempestade e todas as lágrimas corriam em remoínho para o Hades. As paredes interiores da casa tinham convulsões, ecoavam os espasmos do corpo vertido em morte. Tudo se dilatava e contraía. Assim era a dor.
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