quinta-feira, 26 de maio de 2016

Talento

As pernas tremeram-lhe. Ele sentiu o talento esvair-se com a tinta moribunda, tornada translúcida por um público ausente. Mas nem a hesitação que teve o deteve por mais tempo que do que o tempo de um espasmo que lhe dilatara as têmporas. Observou a máquina de escrever, interrogando-se se se lembraria sequer da cor da mesma, caso não a tivesse à sua frente. Eram as dúvidas banais que o abalavam. A ausência das respostas simples, outrora esqueleto da sua virilidade intelectual, base que o catapultava à esgrima dialéctica, pintava tudo de negro, especialmente os adjetivos...

terça-feira, 26 de abril de 2016

Regar ou não regar

Agigantou-se perante o penedo. Era mais fácil subi-lo como se degrau se tratasse. E foi no regresso à pequenez que se apercebeu de um gomo que provinha, não de uma planta, mas de uma rocha. Aproximou-se. Acariciou o rebento e este rebentou. Pétalas de rocha envolveram-no num abraço mortal e ele só conseguia pensar no porquê de não o ter regado...

Abstrato

Estava o abstrato a comer papas de aveia quando o implosivo chegou. Era impossível não notar nas roupas fasciculadas. Cada capítulo tinha a sua cor; assim confidenciou o entrante. E, enquanto as mostrava, tal minhota a correr a roda das saias, denunciou os fios amarelos e vermelhos, que brotavam abundantemente das entranhas, tais ramos despidos de verde. A gripe levou ao espirro, e este acabou com ambos. Horas depois, o inquérito entrou e, não conhecendo a aparência do abstrato, imaginou-o...em abstrato

Adeus

Foi exatamente quando ele lhe apertou a mão, no cumprimento mais casual e desinteressado possível, que os dedos brotaram em flor. Mas não foi um processo delicado, suave, nem bonito. Os ossos cederam, quebrando com tal violência que a epiderme se pintou de sangue coalhado. Os gomos eram exalados entre fraturas, tais bolhas de sabão engordadas de dor. A mão tremia-lhe. A mão do recetor demitira-se enquanto ele carpia superlativamente com expressões de holocausto, com uma voz diluída pela fuga. Estremecendo, e tentando manter algum do convencionalismo que o identificara com a humanidade, alçou da mão e sacidiu-a num adeus folheado e verde...

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Carta

Caro Agiota,

Escrevo-lhe esta carta, consciente da ironia da mesma ter um recetor tão poderoso e, no entanto, tão indiferente ao que se passa no mundo real, e um emissor, que é o versa do vice.
O dia da minha reforma passar-lhe-á despercebido, assim como o dia da minha contratação e dos 18.250 dias, que intervalaram essas datas. Não pense que esta constatação seja um queixume ou uma mesquinha forma de obter uma ovação por serviços prestados. De facto, a última deprimir-m...e-ia mais do que a morte. A benção, advinda desta falta de reconhecimento, foi, porventura, o combustível da minha continuidade, mas a consequente resignação, a faísca que imolou a minha crença na humanidade.
Enquanto o servi, concedi créditos para todo o tipo de consumos e a todo o tipo de pessoas, dei as subsequentes ordens para que os lares e os bens lhes fossem usurpados, e, finalmente, tive que os confrontar, armados de filhos ao colo e lavados em lágrimas, incrédulos perante tão pesada pena, que os punia por querer viver como os demais. Enquanto o servi, o país foi assolado por variadas crises financeiras, mas a sua instituição conseguia sempre encontrar refúgio num qualquer oásis político-económico, não deixando, todavia, de despedir o João, a Maria, e até o Artur, que tinha acabado de ter gémeos, e aumentando os salários do corpo executivo por, paradoxalmente, apresentar lucro.
É impressionante como se ganha a vida à custa do risco, sem incorrer nele. Essa é a sua fórmula de sucesso; a mesma, que distanciou o ser humano da crença na justiça e, consequentemente, no seu papel como cidadão. A dois dias da minha reforma, e vendo a sociedade destruída, consigo ver o meu papel nesse processo.
Graças a si, odeio-me. E porque me odeio, odeio-o a si.
 

Atentamente,
Funcionário 170274

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Escaravelho


Apresentou a sua demissão às nove da manhã. Às dez, fez a mala. Às onze, saiu de casa rumo à estação de comboio.

Doze horas antes, estava no cais com Jonke e, enquanto ele se metamorfaseava em escaravelho, ela estalava as bolhas do plástico, que envolvia a pistola, anteriormente retirada da caixa de veludo lilás com berloques dourados. Consumado o processo, viu-se espelhada, de pistola em riste, na carapaça quitinosa do outro. Antes de disparar, penteou-se, aprumou-se. Ela sabia que este trejeito social não se coadunava nem com o ato, e menos ainda com o seu alheamento à estética e, no entanto, não quis deixar de o presentear com uma última imagem do seu rosto fúlvido.

Ela amava-o. Ela sabia que ele a amava mais. Ele amava-a tanto que se entregara à morte, e ela à insipiência da vida. A bala era uma questão, mais do que uma afirmação. A bala questionava o que seria dela sem ele...

Lembrava-se dos alegres momentos em que ambos pontapeavam e socavam os corpos de transeuntes felizes. A violência, paradigma de moralidade irrepreensível, porventura maculada pelos instigadores da paz, uns quantos loucos, ou reacionários, o que, no limite, era a mesma coisa, não condizia bem com amor, um sentimento irracional e imprevísivel. De facto, enquanto que a demência tinha tudo de racional e, portanto, podia e deveria ser contida pelo colete de regras sociais, o amor era uma espécie de necessidade fisiológica básica tornada pública. Era como uma flatulência sentimental, cuja manifestação ruborizava em vergonha e nojo.

Às doze horas, sentada no banco de madeira do vagão em movimento e com o ingresso por obliterar junto aos pés, olhou pela janela e, entre copas e reflexos de humanidade, viu Jonke. O sorriso distanciou-a daquilo que havia sido, e o sentimento metamorfaseou-a num escaravelho.      

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Sentir



 
 
-          Estás aí?
-          Sim, desde a última vez que me perguntaste.
-          Gosto de sentir a tua voz…já que não te posso ver.
-          Tenho fome…
-          Eu sei querida. Eu também. Sentir fome é horrível. O melhor é não pensarmos em comida.
-          Já tentei, mas não consigo deixar de pensar no chocolate que tinha no bolso; ou melhor, no chocolate que creio ainda estar no meu bolso…não me lembro de o ter comido.
-          Ai como adoro chocolate. Lembras-te do teu último aniversário? Fiz-te um bolo de chocolate. Delicioso!
-          Não foste tu que me pediste para não pensar em comida?
 
Ambas soltaram gargalhadas nervosas, contrastando com um silêncio defunto, que se seguiu.
 
…Também tenho saudades de te ver, de sentir os teus abraços…
A mais velha esvaiu-se em lágrimas e, na contenção da comoção, conseguiu sentir o coração pulsar, como se de martelo pneumático se tratasse a abrir alas à sua salvação.
-          Mãe?
-          Sim querida.
-          Tenho medo de morrer...
-          Não vais morrer!
-          ….e, pior, de sentir a morte tão próxima, bafejar-me porque dela não posso fugir.
-          Consegues mover o braço?
-          Não.
-          Esforça-te.
-          Dói-me.
-          Claro que dói. Mais vale sentir dor do que sentir pena de não ter tentado…
-          É fácil falar…
 
A mais velha, de pernas esmagadas por uma viga, respondeu…
 
-          Tens razão. Só quero sentir que deste tudo por tudo, e, que nesse esforço, enganaste a morte…
A mais nova notou que pequenas migalhas de cimento resvalaram junto à sua perna direita.
Quero sentir que o teu futuro é luminoso e generoso, mesmo que eu …não faça parte dele.
 
-          Mãe…ouves? consigo sentir algo a mexer-se junto às minhas pernas. Acho que alguém nos vem ajudar. Mãe?
A luz veio com o silêncio.
 
 
 
 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Assim partiu, assim foi...


Foi, sem dúvida, um passeio bonito, aquele que eles deram. É engraçado como os verbos se conjugam, refletia ele. Um passeio é “dado” como se os beneficiários do ato fossem terceiros. Ao negar ao verbo o sufixo reflexivo é conceder-lhe altruismo, é alargar a satisfação, advinda de um passeio, aos demais. E isso era tão poético, quanto irreal.

Mas este foi um passeio, em que determinadas palavras foram poupadas, como que desadequadas à jovialidade dos olhares, sorrisos, mãos entrelaçadas, e ao beijo unívoco, que foi dado. E aqui, “dado” tratava-se de um adiamento a uma penosa resignação, um esbanjamento deliberado de uma reciprocidade, que se assumia no léxico e se consumava no ato, mas que carecia de partilha. E isso era tão real, quanto poético.

As outras palavras, as dizíveis, alicerçaram-se perpendicularmente aos sentimentos, e foram-se afastando cada vez mais destes, à medida que se amontoavam. Desta aparente inocuidade nasceu o torpor, e ele sabia-o, ou melhor, sentia-o, mas a sua propriedade anestésica alimentou a conivência.

“Porque não suportava a dor”, anuia em pensamento.

E, assim sendo, não lhe surpreendera encontrar-se de membros dormentes, sem reação, quando ela partiu. Ela, “que era mar rebelde, ondulante e intangível “; e ele, que era terra amena e imóvel.

Agrilhoado à memória, assistiu ao arrependimento alimentar-se das suas entranhas. Atormentava-lhe o assédio de imagens passadas, amalgamadas  com as palavras que ansiara, mas não ousara pronunciar. Palavras que jamais seriam ouvidas. Palavras que estavam vincadas a um fado único, que não era o dele. E sentiu que deixou de viver, condição que soava a um pobre sucedânio da morte. A sua identidade era uma analepse, perdida no tempo.

E, portanto, assim partiu, assim foi.

domingo, 10 de janeiro de 2016

As revoluções

Ela era criança. Certo dia, o povo gilhotinou-a. A sua rolante cabeça trouxe-lhes felicidade, porque tal heróico ato simbolizava liberdade, igualdade e fraternidade.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Novelo

Costumava pensar que, se Deus era omnipresente, então o tudo e o nada eram partes Dele, como fios de um novelo superior. E Deus tricotara o tudo em seis dias, e o nada no infinito de tempo, que o precedeu. Costumava pensar que o ser humano, tendo sido criado à Sua imagem, fazia da retidão apanágio e que injustiça e imoralidade eram meros frémitos extemporâneos desta raça superior. Mas rapidamente percebi que o amor ao próximo é um privilégio raro e não uma benção herdada do genoma metafísico.
“E, por isso, exilei a fé, porque me trazia um falso senso de segurança e justiça”. E, erecto, virando-me para um céu negro, “Sim, confesso que me entrincheirei no facilitismo de não acreditar…”. E acrescentando com uma voz desfalecida, “em Ti”. As núvens, abajures celestiais, acenderam-se de repente, como se Deus tivesse acabado de acordar. E eu, que ansiava tanto por reconhecer o divivo, por mais camuflado que estivesse de fé, esbracejei e gritei, sobrepondo a voz ao trovão que se seguiu. “Estás aí?”. E, não tendo qualquer resposta, repeti, por várias vezes, a pergunta, diluindo o ateísmo, que havia marcado a minha vida adulta, num timbre moribundo. “Por momentos, acreditei que podia acreditar, mas o bem e o mal continuarão a ser meros adjetivos, tão perenes quanto bolas coloridas a ornamentarem pinheiros de natal. Um dia o que é mau torna-se bom e o bom torna-se mau. Tudo o resto  é tão deterministico quanto a morte: a nossa e a da crença em Ti…”.
Desiludido, por não ter regado a semente da fé, aquela que existe em todos nós, preparei-me para me ir embora, quando o clarão mais forte, que alguma vez experenciei, iluminou as montanhas, o rio, as árvores, os seres vivos, ou seja, todos os fios do mesmo novelo.