O foco iluminava a santa e, por mais que o milagre se assemelhasse a publicidade religiosa, saltou do parapeito musgoso, oferecendo as costas da indiferença à Religião...
Não é que não acreditasse no divino, mas sempre o vira como parte das variáveis que nunca compreendera, tais como espaço ou tempo. Era demasiadamente racional para ter fé e, ao mesmo tempo, para colocar a existência de Deus em causa absoluta...
Houve quem o acusasse de insensível, devido ao processo metodológico que impunha à forma como analisava temas tão abstractos como amor, paixão, atracção...na verdade, não havia abstracção na sua opinião, mas sim racionalidades subjectivas.... Ao contrário de Rousseau, ele interpretava a verdade como algo individual e não geral e abstracto, já que a importância de cada facto variaria de acordo com cada um. Logo, mentir sobre se o fundo do mar no Butão seria amarelo ou verde dependeria do receptor de tal mensagem. Se para a maioria, isso não constituiria uma mentira porque não alteraria em nada as suas felicidades, para outros, mesmo que o facto em si não apresentasse qualquer relevância científica, seria um arrombo na confiança e na produção de qualquer outro facto provindo da mesma fonte...E, perante este superlativo de individualidade que ele sublinharia em qualquer discurso público ou debate burlesco enfeitado por anéis de vinho em copos vazios, não deu conta que caminhava, ou flutuava para ser mais preciso, sobre a película espessa de reduzido volume...
Algures, abruptamente rasgando a estrada pulmonar, um pedaço de terra, suspenso no nada, convidava à pausa. Os pés, assentes no que lhe era familiar, suspenderam a marcha. Em frente, o sol era um pedaço de Deus que ele contemplava. Mas era uma Vénus de Milo em que lhe faltava o resto...nomeadamente, respostas...
Cada árvore era uma memória que ele acariciou com o olhar. Umas mais frondosas, presentes, outras semi-escondidas pela névoa, quase ausentes, outras negras, desprovidas de vida, outras musgosas, sacudindo o oxigénio em abundantes rodos, oferecendo a vitalidade que lhe minguava o futuro...
Houve quem o quisesse fotografar, captar o infinito com uma lente filosofal, amar o imaginário no pedestal em forma de tartaruga...
Mas ele contentar-se-ia em contemplar na memória qualquer indício da sua existência...não era ambicioso no sonho, mas artista como o interpretava...
Bandeiras eram cores que ele alternava de acordo com caprichos, mudando-as sempre que uma barreira se avizinhasse, tal como agia com os sonhos...tinha como lema exacerbar um sentimento para o fazer sentir irreal aos olhos dos demais, e essa era a sua maior fraqueza, que tentava, a todo o custo, colorir diferentemente...mas, por mais que se esforçasse, mais escorregadio e elevado se erguia o muro, por mais grafittis que lhe cravasse, a fealdade era o seu principal atributo...
Era o ábaco de desgostos que ele tão habilmente manipulava, movendo lágrimas de um evento para o outro, por entre teias que o prendiam ao passado...
Cabisbaixo, soletrando cada passo que o levara sobre o algodão nascente, reflectia sobre si mesmo, algo que ele fazia tanto e tão mal...
Era a última lágrima, contabilizada escrupulosamente no seu ábaco, que atingira o auge; brilhante, espelhando copiosamente a alma, despindo-a ao mundo...
Receava mais intensamente este nudismo imposto pelo desgosto do que o desgosto per si...o baú deveria conter o negrume do segredo, e qualquer chave que realmente o abrisse seria tratada como inimiga...
Se a poesia, que ele escrevera em momentos de solidão, lhe trouxera a companhia que ele desejara, transformar-se-ia em gigante e ofereceria copas de árvores, como se ramos de flores se tratassem, ao simbolismo das suas palavras...
Era a epístola, timbrada a medo, que ele se lembrava. A última, aliás. As anteriores evaporaram, tal o impacto desta.
Entre uma flor e outra, nunca oferecidas, era equilibrista e a rede era teia de predadores de felicidade. Por vezes, ousava acreditar que a queda era o início de algo melhor...mas o receio tinha o paladar do sal da estátua em que ele acreditava transformar-se...
E a esperança, dilatada pelo amor que tinha à vida, fazia-lhe acreditar que dedos rasgariam a terra, não para a destruir, mas para a resgatar, pagando com cada pulsação da paixão sentida em cada poro de floresta por desbravar, que era afinal os seus sentimentos...
E, no entanto, intoxicado com medo, despromovendo os ombros de estandartes de moralidade inquestionável e descendo ao breu, onde todos os valores eram pardos, pausou a vida e convidou a morte para alguns momentos de folia...
Mas a morte veio mascarada de fénix, noiva cuja cauda de luz dava esperança aos incautos, rasgando o branco virginal, desvendando o pecado que é o conhecer a verdade...e, assim, ele contemplou o nascer do sol
O receio levou-a a agir. Plantou o espantalho, esperando assustar a verdade, repelindo-a como se de sarna se tratasse...mas foi esta, que pousando, se alimentou da sua ansiedade, comendo cada migalha de ânimo que o mantinha à tona...
O passo de fé, exigiu-lhe o Livro...mas ele precisava de um rosto, um corpo, uma voz de comando. O passo de fé, olhos cerrados, mente imaginando um caminho que o sorriso adivinhava...a ilusão poderia tornar-se realidade, e o misto de receio e vontade que isso acontecesse toldava-o...
pendurou as penas das suas asas ao sol, convertendo-as em palavras que proferiu ao vento. Eram amantes a partir dessa data. E, como amantes, fundiram-se na floresta que expirava serenatas à comunhão, inspirando talento de cada palavra cultivada em terreno fértil...
à lua, expiraria claves de sol, subindo degraus de teclas de piano, fluorescentes pelas cordas vocais de piropos invisíveis, como era o amante sentado no pedestal, entronizado pela abertura da caixa de uma Pandora obcecada pelo nada...
e o ilusionista, do baralho de sentimentos, sorriso fálico, cremado pelo engenho, abriu o leque, ludibriando o espaço, concedendo-lhe apenas uma porção de tempo passada para uma opção futura...
e ele, estendendo o braço, escolheu o impossível, erguendo-o ao nível dos olhos vácuos, e viu o translúcido do vazio...
E foi para esse vazio que partiu. Arrendou casa, pagou com a alma, e escreveu o livro do nada. Comia ar, respirava parágrafos que redigia com a resignação, tornada revolta em cada página evaporada pelo tempo...
Publicou-o sem folhas, mas lá cresceu uma floresta. O vento roçava languidamente em cada palavra, trovando a quem quer que ouvisse e o orvalho que escorria pelas faces de uma capa sem nome, precipitava o conteúdo...
Cinzas de insónias fantasmas, sopradas de palmas de mão lidas, fumegando verdades, embaciando-as e pintando-as de cinzento...
Mas havia algo que se erguia mais alto do que a resignação, mais alto do que a venda que lhe encobria o coração...uma folha verde
Desdobrou a amnésia e tapou a memória, anichando-a no calor da indolência, obliterou o bilhete para uma sonolência de uma espontaneidade moribunda e adormeceu...
Chão era céu e céu era o chão que ele passou a pisar. Escondido do acordar numa caixa de fósforos, imolou a vontade e derreteu a mão que escrevia o diário e, assim, faleceu...
O corpo, que era água, ao rio voltou. O sol chamou por ele, penteou-lhe as ideias e tornou-o apresentável a Deus...e lá foi ele, digno e sem pecado, absorvido pela esponja do perdão...
A alma vendada, atirada ao hades pelo engano, atribulada pela reencarnada paixão, era corsária traída pela linha que a velha lia na palma da mão...
Ents eram família, exaurindo o oxigénio do seu cérebro, deglutindo as boas ideias, cuspindo o resto. Dragões eram as espinhas ideias que se cravavam na corja da floresta...
Pão é corpo, metade carcomido. Vinho é sangue, escorrendo pelo braço, cuja mão ainda empunha a pena. Sorriso fácil, sem motivo, caluniado de imaturo pelos de vidas ligeiras. Assim era ele, tornado imortal pela quase morte, quase vida.
Não pela breve existência, mas pela eterna ansiedade que turvava o seu destino. Toda a calmaria do prado maduro escondia a fragilidade do passado adocicado pela não experiência, e ele sabia-o bem...mas houvera quem não se apercebesse...
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
À espera dele, sentados, rostos reclinados, olhos ausentes uns dos outros, estavam K., P. e M. K., como sempre, brincava com um qualquer objecto, como forma a evitar os restantes. P. e M. posicionavam-se nas extremidades, reforçando um cansaço teatrializado pelo suportar de ambas as cabeças nos 4 joelhos inertes. K. ensaiava uma carta ao pai, dactilografada há muito no seu lobo frontal, em curto circuito com todas as lágrimas derramadas nos dias que precediam a espera. O sacríficio que o pai fizera para lhe proporcionar uma vida abastada, pagando-lhe os estudos, nunca interrompidos para ajudar no negócio da familia, tinha sido, aos olhos do progenitor, um reflexo de pura ingratidão. K., entendendo a posição do pai, tinha, contudo, uma opinião diferente e que o colocava em piso seguro, inculpável. Sentia-se culpado, amargurado, não por um assentir das acusações, mas pela proximidade sentimental de quem o acusava. O pequeno pau que degladiava entre os nós dos dedos era o pai, esfumado na palma da mão, reaparecendo com toda a punjança nas costas dos dedos, vergando-os pela dureza das acusações.
P. era autista, preferia os monólogos sem o ardor de opiniões contrárias, entregando-se ao diálogo muito raramente. Tinha uma cognição peculiar mas linear, não permitindo a correcção de assunções passadas sobre as quais havia sustentado outras. Tinha receio que o edificio ruisse e, como tal, colocava-se na ombreira das ideias, não ousando explorar os restantes compartimentos da sua casa mental.
M. não existia. M. era P. quando P. morria. P. morria por vezes, e hoje P. estava morto.
P. era autista, preferia os monólogos sem o ardor de opiniões contrárias, entregando-se ao diálogo muito raramente. Tinha uma cognição peculiar mas linear, não permitindo a correcção de assunções passadas sobre as quais havia sustentado outras. Tinha receio que o edificio ruisse e, como tal, colocava-se na ombreira das ideias, não ousando explorar os restantes compartimentos da sua casa mental.
M. não existia. M. era P. quando P. morria. P. morria por vezes, e hoje P. estava morto.
Balas perdidas
Encostou o côncavo joelho à cama e pressionou. O arrastar desta no chão de madeira acordou o dono da casa. De movimentos atabalhoados, nadou nas ondas dos lençois e sacou a arma que se afundava por debaixo da almofada. Disparou 10 vezes mas apenas 7 balas sairam do cano da pistola. O fumo e pó libertado de um estuque alvejado foram as brumas de uma Avalon onde a princesa Morgaine, em pé no barco r...aso, vacilou. O vestido branco manchado de sangue era indicio de uma história de fim precoce. O lago gélido, receptáculo da fada ferida, expelia as últimas bolhas de oxigénio, enquanto o corpo se perdia no negrume das profundezas onde um submarino se perdia. O Capitão Nemo, perdido num qualquer livro da sua biblioteca, sentado em frente da janela que era aquário infinito, encontrava uma quase anémona branca, mas tingida de vermelho aqui e ali. Arrebitando o cachimbo, hipálage de atenção, expondo os globos oculares à perplexidade, apercebeu-se, aos poucos, que o ser era menos uma actinaria e mais um mamífero humano do sexo feminino. Ora tal, a cerca de 280 metros de profundidade e sem qualquer equipamento de mergulho, era por demais suspeito. Seguindo o corpo veio a segunda bala. Anichou-se no ventre do submarino, sem antes ter feito a tangente à fada.
Réptil era ele
Cabisbaixo, ombros répteis sem espinha dorsal, calcanhares quebradiços, sonhos arqueados de vértices espinhados, olhos escondidos no capote negrume, seiva que era sangue quando sentimentos houvera, assim ele era...
Mensagem na garrafa
O velho, antes do último sopro de vida, tinha-se dedicado à escrita de uma extensa carta, que colocara numa garrafa convenientemente fechada, posteriormente lançada ao dúbio oceano. Depois de largos meses e tempestades, a mesma atingiu uma ilha. Um velho roxo, ergueu o cone vidrado, molhado de mar e esverdeado de algas, e foi seguido por uma multidão de criaturas menos roxas até ao círculo que envolvia uma fogueira. Lá, retirou a rolha, extraiu a carta e...comeu-a!
Vilão
Sou vilão da minha própria vontade, esbatendo a minha consciência num remorso pastel. Desenhei, quando talento era moeda de troca de sofrimento; agora, que a paz alugou espaço no meu futuro, cedi criatividade, colhendo o fruto do ventre que eu próprio criei…
Vermelho
Não era vermelho lacre o sangue que fechava a carta timbrada, mas sim um vermelho pardo, sem vida para que se esvaisse dela...
Não era papel, mas sim madeira raspada em finas camadas, que cortavam as letras, cuja seiva pintava mais um chão do que um céu adufo, tosco, sublime na sua fealdade...
Assim era o conteúdo, também ele húmido, perversão cognitiva do sonho martelado noite atrás de cada dia, escopro da minha vontade que abriu a jaula da minha insanidade...
Castelos
Dava ênfase ao passo, alargando-o pela quase perpendicularidade com que ele erguia cada perna, calcando posteriormente a terra com ambas as botas, erguendo castelos explorados pelas cardeais formigas. Ora, se uma cidade se construira em meros micro segundos, a rede social, que a orquestrava, demoraria apenas um dia; o suficiente para se concederem os títulos, que permitiam a uma minoria explorar a maioria.
Dor
Dei de caras com o gago fisionómico, sobrancelhas içadas, no alpendre do falecido. Tudo se adjectivava em tremores, verdadeiros coices na escala de Richter. Os soluços eram ondas durante uma tempestade e todas as lágrimas corriam em remoínho para o Hades. As paredes interiores da casa tinham convulsões, ecoavam os espasmos do corpo vertido em morte. Tudo se dilatava e contraía. Assim era a dor.
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Harpa
Os 5 irmãos sem pulmão não respiravam, porque não necessitavam. Como tal, nunca perdiam o fôlego e consequentemente nunca pausavam para falar. Falavam e falavam durante dias seguidos sem interrupção, atropelando-se em tons menos ou mais graves, em assuntos mais ou menos sérios. Como as pernas não acompanhavam o ritmo da língua, deitavam-se de costas, fechavam os olhos e continuavam na labuta da retórica.
Um dia, 5 pássaros sem o decoro normal da espécie dos tentilhões, bicaram cada uma das 5 línguas e esticaram-nas, voando sincronizadamente até às 5 nuvens mais distantes. Lá, 5 anões felpudos deram nós, prendendo-as definitivamente às partes mais finas das nuvens.
Enquanto os 5 irmãos passaram da fala ao transtorno linguístico, um mamute musical, classe em natural extinção, sentou-se, cruzando as patas traseiras, e utilizou as dianteiras para tocar uma harpa, cujas cordas escorregavam em saliva abundante...
Um dia, 5 pássaros sem o decoro normal da espécie dos tentilhões, bicaram cada uma das 5 línguas e esticaram-nas, voando sincronizadamente até às 5 nuvens mais distantes. Lá, 5 anões felpudos deram nós, prendendo-as definitivamente às partes mais finas das nuvens.
Enquanto os 5 irmãos passaram da fala ao transtorno linguístico, um mamute musical, classe em natural extinção, sentou-se, cruzando as patas traseiras, e utilizou as dianteiras para tocar uma harpa, cujas cordas escorregavam em saliva abundante...
Cérebro ou Algodão
Nem os amigos sabiam que o crânio dele estava cheio de algodão. O pequeno furo provocado por uma contusão após uma queda aparatosa de bicicleta, expunha uma pequena fiada branca. Um dia, a brincar entre amigos, um quis saber porque é que ele, tendo 8 anos, já tinha cabelos brancos. Sentindo-se excluido pela diferença, decidiu arrancar esse cabelo. Puxou, puxou, e continuou a puxar...e foi assim que perdeu o cérebro...
Acidente ou crime ou coisa nenhuma
O colocar o ouvido junto ao asfalto morno, tingido de sangue e ainda vibrante após o acidente brutal que ceifou 3 vidas, pintou-lhe um sinal avermelhado na zona da orelha. Horas mais tarde, o temporal esquerdo, esmagado por um taco de baseball, pigmentou uma heterogeneidade genética que confundiu pelo menos 3 técnicos de criminologia.
Um concluiu que o acidentado, expelido pelo vidro dianteiro de um jeep, falecera micro segundos antes do seu corpo tocar o chão e, sem que a morte o perturbasse, conseguira erguer-se, abrir o porta bagagens, retirar o taco e usá-lo contra a vítima em análise...
O segundo, apostou numa genealogia bipolar devida à imprudência materna de uma mulher, que teria muito amor para dar. Mas isso não satisfazia o terceiro, crente em vampirescas actividades, sobretudo junto a acidentes tão violentos quanto este. Por várias vezes, havia sublinhado a questão que se revertia na afirmação da existênncia destes: para onde desaparece tantos e tantos litros de sangue, pouco tempo após a calamidade?
Enquanto que o primeiro olhava de solaio o corpo projectado, receoso que voltasse a atacar, e enquanto o segundo sorria de forma malandra congeminando uns 9 meses, antes do nascimento do segundo cadáver, muito pecaminosos, o terceiro afiava o olhar concentrando-o no pescoço de cada uma das 5 vítimas....5???
5????? repetiu o terceiro sem o emitir em voz alta. É que o primeiro técnico de criminologia estava deitado no chão, cabeça ausente, corpo disposto de forma aprumada, e só reconhecível pelo traje. O pouco sangue, segundo reflexo da violência que havia concretizado a morte, espraiava-se viscosamente por entre as protuberâncias de um asfaslto arrefecido por uma lua em duelo com um sol em perda...
O segundo, ainda de sorriso em riste, armava um outro sentimento partilhado pelos esgares latentes quando uma foice lhe decepou ambas as mãos. Os olhos tinham raízes de sangue que teimavam vincar-se à vida mas a foice era inimiga da vontade e duas pernas em equilibrio foi a única parte do seu corpo que se manteve em pé. O peito sentia o preto do asfalto, viúva que ele já não poderia abraçar...
E o terceiro, resignado à Morte, ajoelhou-se, abriu os braços, projectou a cabeça para um céu avermelhado pelo sangue ausente, e esperou...
Um concluiu que o acidentado, expelido pelo vidro dianteiro de um jeep, falecera micro segundos antes do seu corpo tocar o chão e, sem que a morte o perturbasse, conseguira erguer-se, abrir o porta bagagens, retirar o taco e usá-lo contra a vítima em análise...
O segundo, apostou numa genealogia bipolar devida à imprudência materna de uma mulher, que teria muito amor para dar. Mas isso não satisfazia o terceiro, crente em vampirescas actividades, sobretudo junto a acidentes tão violentos quanto este. Por várias vezes, havia sublinhado a questão que se revertia na afirmação da existênncia destes: para onde desaparece tantos e tantos litros de sangue, pouco tempo após a calamidade?
Enquanto que o primeiro olhava de solaio o corpo projectado, receoso que voltasse a atacar, e enquanto o segundo sorria de forma malandra congeminando uns 9 meses, antes do nascimento do segundo cadáver, muito pecaminosos, o terceiro afiava o olhar concentrando-o no pescoço de cada uma das 5 vítimas....5???
5????? repetiu o terceiro sem o emitir em voz alta. É que o primeiro técnico de criminologia estava deitado no chão, cabeça ausente, corpo disposto de forma aprumada, e só reconhecível pelo traje. O pouco sangue, segundo reflexo da violência que havia concretizado a morte, espraiava-se viscosamente por entre as protuberâncias de um asfaslto arrefecido por uma lua em duelo com um sol em perda...
O segundo, ainda de sorriso em riste, armava um outro sentimento partilhado pelos esgares latentes quando uma foice lhe decepou ambas as mãos. Os olhos tinham raízes de sangue que teimavam vincar-se à vida mas a foice era inimiga da vontade e duas pernas em equilibrio foi a única parte do seu corpo que se manteve em pé. O peito sentia o preto do asfalto, viúva que ele já não poderia abraçar...
E o terceiro, resignado à Morte, ajoelhou-se, abriu os braços, projectou a cabeça para um céu avermelhado pelo sangue ausente, e esperou...
sábado, 26 de março de 2011
Ofusco
Toldadas as tormentas com nuvens de incerteza,
a solução é calar os montes, retirando-lhes cognomes de vulcões,
rasgar os mares e diminui-los a rios amestrados, que correm se assim forem ordenados,
cuspir ao sol, arrefecendo-o com elogios, que lustram o ego com falsos dourados,
sarar solos feridos com páginas enroladas de dicionários deturpados pela vontade...
a solução é calar os montes, retirando-lhes cognomes de vulcões,
rasgar os mares e diminui-los a rios amestrados, que correm se assim forem ordenados,
cuspir ao sol, arrefecendo-o com elogios, que lustram o ego com falsos dourados,
sarar solos feridos com páginas enroladas de dicionários deturpados pela vontade...
Solidão
Não fui eu. Eras tu que o farias, ou já o fizeste. Não estou recordado porque sonho é passado e futuro é sonho que o sonho me ilumine o futuro. Fui lá àquele sentimento. Permaneci por longos momentos. Ninguém se juntou a mim. Solidão, declarou ela. Talvez isso. Faz sentido. Afinal, não sou bom a denominar lugares, mesmo que comuns. Agora, graças a ela, chamo o lugar de solidão. E lá construi casa.
Nada
É a sola que extingue uma sombra, condenada a uma noite vampira, gasta pelas promessas de viagens, sonhadas em dias aquecidos pela vontade de partir, sufocando palavras escritas no palato de um grito mudo pelo receio de revelar sentimentos unívocos, saturando a imaginação com cinzentos pintados por profissionais alugados à hora, abandonando o quadrado traçado no solo, denominado de casa pela insanidade
Silêncio
Encrespei o cabelo na zona das marés vivas antes de sair. Espelhei o efeito, desvirtuando a natureza, e fui recebido em apoteose pelos vulcões assobiantes e pelas palavras lava que me derreteram os sentimentos...
Voltei a casa, munido de histórias em ambos os coldres e disparei palavras de encanto em pequenas folhas outonais...
Esperei pelo verão, de letras estendidas ao sol, enxugando toda a amargura de um inverno prolongado pela ansiedade, e publiquei silêncio...
Voltei a casa, munido de histórias em ambos os coldres e disparei palavras de encanto em pequenas folhas outonais...
Esperei pelo verão, de letras estendidas ao sol, enxugando toda a amargura de um inverno prolongado pela ansiedade, e publiquei silêncio...
Absurdo é ser normal!
Sentou a culatra num maple anos 50. Berloques hippies, suspensos nas braçadeiras, interrompiam a funesta cadência homogénea...
"Uma relação mutualista é pugilista pesado em teoria de jogos", pausou, reclinou os óculos escuros sobre o outro, encostou-se novamente e continuou...
"protocooperação ou comensalismo é dar o braço ao crocodilo".
De pontas dos dedos coincidentes, soletrando um triângulo trémulo pela articulação das falanges, expirando em cada pausa do seu semelhante, replicou por fim: "Abafo quem?"
"O picas" saiu como estalo, castigo pela linguagem asséptica. O curto, calças despidas ao nível dos calcanhares, engoliu em seco, e a minhoca da sua maçã de adão, expelida pelo pecado da palavra, desertou...
"O picas" ecoou na boca do outro. "O picas" arrastou o sentido para a imagem criada mentalmente. "O tipo vendeu-me o bilhete para o Taxi driver e..." e quando saiu virou-se para o mesmo e atirou-lhe are you talking to me, pensou sem o verbalizar...
O maple era saudosista. "Era o verde...", pensava o dos óculos escuros, "que me transportava para o bucolismo do pasado". Preferia o passado à sanita falante que lhe atentava para um futuro sofrível devido às incúrias de uma dieta patética (adjectivo soletrado pelo objecto).
O curto temia retaliações e, como tal, refugiava-se no foco do seu olhar que, entretanto, distraira o outro. Um mosquito flatulento cumpria o seu ciclo de vida de 4 segundos. Olhava o relógio, atento à ventosidade sonora do insecto para se certificar do facto científico citado. E, para evitar outro qualquer reparo, repetia a piada de sempre: e se os elefantes tivessem ciclos de vida de 4 segundos e voassem?
Era aborrecido por demais esta previsibilidade e o do maple adormecia, por breves segundos, ressonando a bom som, demonstrando assim o seu estado sem medo. O acordado, de missão entregue, levantou-se, benzeu-se como se estivesse a jogar à macaca e saiu de pontas, tal como as bailarinas que pagava à hora...
Russo, de barba lavrada, colhia alfaces dos poros. Lucia, plantava batatas no quintal, peito avantajado de dificil acesso aos tratores. Ambos viviam deitados, lado a lado, de mãos dadas como verdadeiros Shakespearianos...A única diferença que tinham, relativamente a outros casais, era que os seus corpos eram herdades de cultivo...
Mas tanto Russso quanto Lucia sabiam que tinham os dias contados devido aos problemas de estandardização impostos pelos organismos internacionais...
Um dia teriam que se levantar e cair novamente devido à inércia do tempo, do rito musicado pelo dos óculos que tecia considerações sobre o amor platónico, sentado na cadeira de balouço, entrincheirada e elevada no pedestal do resíduo tóxico, adubo dos enamorados...
Fazia-o com relativa frequência, a voz abafada pela máscara anti-tóxicos, gesticulando vampirescamente, elevando-se da cadeira de madeira para sublinhar a tenacidade da mensagem...
O picas vivia num caixão de três assoalhadas. O rés do chão estava e decomposição mas ao restante alojamento não carecia das comodidade tipicas de uma casa decente.
Entrava sempre pela chaminé e saía por um sonho. Os vizinhos, que não tinha nenhum, chamavam-no de pai natal. Mas ele era cadavérico, baixo, pálido na face, cinzento no restante corpo e não tinha nem uma rena.
O assassino desceria os degraus invisiveis do céu, tocaria à campainha da almofada exterior e penetraria o seu interior, comendo as penas para que o seu corpo tivesse espaço. Posteriormente, teria que por um ovo e esse acto implodiria a sua alma, cuspindo-a para o interior do sarcófago do Picas...
A falta de gravidade da sala redonda permitia ao Picas estar no tecto, de cachimbo apagado na boca, usando-o como chupeta de bébé amestrado, a ler crime e castigo...
"Uma relação mutualista é pugilista pesado em teoria de jogos", pausou, reclinou os óculos escuros sobre o outro, encostou-se novamente e continuou...
"protocooperação ou comensalismo é dar o braço ao crocodilo".
De pontas dos dedos coincidentes, soletrando um triângulo trémulo pela articulação das falanges, expirando em cada pausa do seu semelhante, replicou por fim: "Abafo quem?"
"O picas" saiu como estalo, castigo pela linguagem asséptica. O curto, calças despidas ao nível dos calcanhares, engoliu em seco, e a minhoca da sua maçã de adão, expelida pelo pecado da palavra, desertou...
"O picas" ecoou na boca do outro. "O picas" arrastou o sentido para a imagem criada mentalmente. "O tipo vendeu-me o bilhete para o Taxi driver e..." e quando saiu virou-se para o mesmo e atirou-lhe are you talking to me, pensou sem o verbalizar...
O maple era saudosista. "Era o verde...", pensava o dos óculos escuros, "que me transportava para o bucolismo do pasado". Preferia o passado à sanita falante que lhe atentava para um futuro sofrível devido às incúrias de uma dieta patética (adjectivo soletrado pelo objecto).
O curto temia retaliações e, como tal, refugiava-se no foco do seu olhar que, entretanto, distraira o outro. Um mosquito flatulento cumpria o seu ciclo de vida de 4 segundos. Olhava o relógio, atento à ventosidade sonora do insecto para se certificar do facto científico citado. E, para evitar outro qualquer reparo, repetia a piada de sempre: e se os elefantes tivessem ciclos de vida de 4 segundos e voassem?
Era aborrecido por demais esta previsibilidade e o do maple adormecia, por breves segundos, ressonando a bom som, demonstrando assim o seu estado sem medo. O acordado, de missão entregue, levantou-se, benzeu-se como se estivesse a jogar à macaca e saiu de pontas, tal como as bailarinas que pagava à hora...
Russo, de barba lavrada, colhia alfaces dos poros. Lucia, plantava batatas no quintal, peito avantajado de dificil acesso aos tratores. Ambos viviam deitados, lado a lado, de mãos dadas como verdadeiros Shakespearianos...A única diferença que tinham, relativamente a outros casais, era que os seus corpos eram herdades de cultivo...
Mas tanto Russso quanto Lucia sabiam que tinham os dias contados devido aos problemas de estandardização impostos pelos organismos internacionais...
Um dia teriam que se levantar e cair novamente devido à inércia do tempo, do rito musicado pelo dos óculos que tecia considerações sobre o amor platónico, sentado na cadeira de balouço, entrincheirada e elevada no pedestal do resíduo tóxico, adubo dos enamorados...
Fazia-o com relativa frequência, a voz abafada pela máscara anti-tóxicos, gesticulando vampirescamente, elevando-se da cadeira de madeira para sublinhar a tenacidade da mensagem...
O picas vivia num caixão de três assoalhadas. O rés do chão estava e decomposição mas ao restante alojamento não carecia das comodidade tipicas de uma casa decente.
Entrava sempre pela chaminé e saía por um sonho. Os vizinhos, que não tinha nenhum, chamavam-no de pai natal. Mas ele era cadavérico, baixo, pálido na face, cinzento no restante corpo e não tinha nem uma rena.
O assassino desceria os degraus invisiveis do céu, tocaria à campainha da almofada exterior e penetraria o seu interior, comendo as penas para que o seu corpo tivesse espaço. Posteriormente, teria que por um ovo e esse acto implodiria a sua alma, cuspindo-a para o interior do sarcófago do Picas...
A falta de gravidade da sala redonda permitia ao Picas estar no tecto, de cachimbo apagado na boca, usando-o como chupeta de bébé amestrado, a ler crime e castigo...
"Tudo está ao alcance do homem, e tudo lhe escapa, em virtude da sua covardia".
Lia em voz alta quando a sombra da porta se desdobrou no reflexo do quadro de Bruegel...
"Que é que os homens temem, acima de tudo? O que for capaz de mudar-lhes... os hábitos".
Lia em voz alta quando a sombra da porta se desdobrou no reflexo do quadro de Bruegel...
"Que é que os homens temem, acima de tudo? O que for capaz de mudar-lhes... os hábitos".
Serás tu capaz de mudar os teus? disse sem olhar, porque as palavras não provinham do livro espraiado no ventre peludo...
"Um homem que se afoga agarra-se a uma palha."
Eu dar-te-ei um boia de salvação...agarra-a...
E estendeu os braços, anteb...raços e dedos, assumindo o papel de rendentor kitch.
"Um homem que se afoga agarra-se a uma palha."
Eu dar-te-ei um boia de salvação...agarra-a...
E estendeu os braços, anteb...raços e dedos, assumindo o papel de rendentor kitch.
O curto, emocionado, estendeu o seu braço, cuja mão empunhava uma pistola com silenciador embutido na extremidade, e disparou...
a coreografia das gotas de sangue era corrigida enfaticamente pela professora de salsa e merengue, articulando uma batuta, que, de quando em quando, batia contra a anca esquerda.
Subiu um degrau, percorreu um corredor, pé ante pé, vitrais predominantemente encarnados ladeavam o tapete escorreito, imaculado ao toque, virgem de parto coincidente com o milagre da porta entreaberta que ele agora trespassava...
Ele era o feto, tornado homem, após a morte. Crescia uns cms, mostrando não só o calcanhar, mas também a canela. Robusto, poderoso, sentia os pelos de um peito inchado amadurecerem...prontos para a colheita...
Missão
Há um espírito de missão que sustenta o platonismo, enriquece os laços da afectividade, recria-se em loops de positividade e combate o ocidentalismo do crescimento amoroso por fases por exclusão....imaginação cultural ou cultura da imaginação?
Claire de Lune
Não seria eu a mergulhar os dedos numa conversa vã, esperando secura como resultado. Era assim; um dedilhado no meu sentimento, como massagem expectante pelo adocicar da minha voz. Outrora, fora eu piano, deliciado pelo som do contrabaixo.
Hoje, de cordas murchas, sonho pelos dedos de uma criança, fénix de um futuro, que aluguei em troca da adopção de entes que não me eram queridos.
Mas foi quando satirizei o meu espelho, não me reconhecendo nele, que sofri com o resultado. Não estava perdido, porque para me perder teria que saber onde pertencia. O ego rugia e engolia bocados de carne da minha vivência, abutres eram peças que escrevia, ainda com o sabor salino do amargo que os contornos dos lábios desenhavam. Sonhava que pesadelos eram bálsamos de criatividade e, por isso, regava com ácido todas as palavras que escrevia...e, por vezes, as palavras que nunca escrevera.
Subia sempre, porque descer era fraqueza, recta era apatia e conformava-me com a dificuldade de não ir a lado nenhum...
Não seria eu a mergulhar os dedos numa conversa vã, esperando o vazio mudo...Mas, seria eu a mergulhar os dedos numa conversa vã, esperando uma sonata de memórias engordadas pela tristeza...
Hoje, de cordas murchas, sonho pelos dedos de uma criança, fénix de um futuro, que aluguei em troca da adopção de entes que não me eram queridos.
Mas foi quando satirizei o meu espelho, não me reconhecendo nele, que sofri com o resultado. Não estava perdido, porque para me perder teria que saber onde pertencia. O ego rugia e engolia bocados de carne da minha vivência, abutres eram peças que escrevia, ainda com o sabor salino do amargo que os contornos dos lábios desenhavam. Sonhava que pesadelos eram bálsamos de criatividade e, por isso, regava com ácido todas as palavras que escrevia...e, por vezes, as palavras que nunca escrevera.
Subia sempre, porque descer era fraqueza, recta era apatia e conformava-me com a dificuldade de não ir a lado nenhum...
Não seria eu a mergulhar os dedos numa conversa vã, esperando o vazio mudo...Mas, seria eu a mergulhar os dedos numa conversa vã, esperando uma sonata de memórias engordadas pela tristeza...
Escrever...
A mão de dedos mimificando uma pistole em riste, o som provindo de uma boca explodindo como o tambor contra a pólvora, o sopro final ateando o fio de novelo do fumo enrolado pela morte...era assim que brincávamos, e era assim que escrevo: mimificando a vida com palavras...
Memórias
Desceu os degraus das escadas que seguiam o corredor outrora percorrido. O subconsciente seguia-o. A porta em frente tinha teias de aranha nos vértices, pó bem medido em toda a sua superfície, mas abria-se com ligeireza.
A luz incandiava ambos: ele e o seu subconsciente. Era o jardim soalheiro que se espraiava até ao limite de um horizonte azul líxivia.
Dois escaravelhos corrigiam-se no tom a seguir, enquanto seguravam dois contrabaixos e os pássaros de asas de água humidificavam o trajecto do caracol, que agradecia efusivamente enquanto arrastava a sua mansão.
Os espirais verdes distendiam-se, com início nos ramos de um carvalho azulado pelas milhares de aranhas que cantavam odes à memória, e terminavam como balouços de gafanhotos que sopravam potentes saxofones...O nariz espinhado do éfesis que voou até ele contorceu-se em boas vindas...eram as boas vindas das memórias. Virou-se para o subconsciente e sublinhou algo que este já havia notado: olha, isto era a minha escrita há 10 anos...
E tocou a relva..., cheirou-a, identificou-se com o cheiro porque havia sido ali que o seu talento havia nascido...
Lacrimejou quando a música tocou, agora mais organizada, expectante pela sua chegada. Caminhar pelos estreitos corredores do cérebro, abrir portas antigas, tem as suas contrapartidas...
A luz incandiava ambos: ele e o seu subconsciente. Era o jardim soalheiro que se espraiava até ao limite de um horizonte azul líxivia.
Dois escaravelhos corrigiam-se no tom a seguir, enquanto seguravam dois contrabaixos e os pássaros de asas de água humidificavam o trajecto do caracol, que agradecia efusivamente enquanto arrastava a sua mansão.
Os espirais verdes distendiam-se, com início nos ramos de um carvalho azulado pelas milhares de aranhas que cantavam odes à memória, e terminavam como balouços de gafanhotos que sopravam potentes saxofones...O nariz espinhado do éfesis que voou até ele contorceu-se em boas vindas...eram as boas vindas das memórias. Virou-se para o subconsciente e sublinhou algo que este já havia notado: olha, isto era a minha escrita há 10 anos...
E tocou a relva..., cheirou-a, identificou-se com o cheiro porque havia sido ali que o seu talento havia nascido...
Lacrimejou quando a música tocou, agora mais organizada, expectante pela sua chegada. Caminhar pelos estreitos corredores do cérebro, abrir portas antigas, tem as suas contrapartidas...
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Por do Sol
Parco nos verdes, pincelado toscamente aqui e ali, como se a tela tivesse textura; perdido nos vermelhos; focado num amarelo diminuido pela hora; nuvens beliscadas com nódoas negras de chuva, também ela aquecida pela cor; e o vulto, de cauda negra, viúva na ilusão de uma imagem eterna, erguido sobre uma praia, tal estátua de sal arrependida, agarrada a um passado sofrível...assim pintava eu a minha estória...
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Ser outro
Ser outro tem que se lhe diga...
despir a pele reptiliana e pendurá-la no passado...
reaprender a andar, beber, comer e amar...
lavar sentimentos, secá-los ao futuro e dobrá-los para os vestir numa ocasião especial...
Ser outro é ser alguém depois de não ter sido ninguém...
é enrugar o espírito para o poder enxergar...
soprar balões, erguê-los e ver a imaginação voar...
Ser outro faz bem à alma...
risca-nos a palma da mão num determinismo em construção...
concedendo novo espaço ao coração...
despir a pele reptiliana e pendurá-la no passado...
reaprender a andar, beber, comer e amar...
lavar sentimentos, secá-los ao futuro e dobrá-los para os vestir numa ocasião especial...
Ser outro é ser alguém depois de não ter sido ninguém...
é enrugar o espírito para o poder enxergar...
soprar balões, erguê-los e ver a imaginação voar...
Ser outro faz bem à alma...
risca-nos a palma da mão num determinismo em construção...
concedendo novo espaço ao coração...
Mar
Oh mar vasto, engoliste-me o mundo,
Vestiste-me de viúvo...
E deixaste-me o poema mudo...
Oh mar rebelde, apertaste-me o coração cobrindo-o de luto...
Criaste a ideia de um Deus surdo...
Vestiste-me de viúvo...
E deixaste-me o poema mudo...
Oh mar rebelde, apertaste-me o coração cobrindo-o de luto...
Criaste a ideia de um Deus surdo...
Moeda
Às tantas, dois éramos um, o outro diluiu-se na relação, perdendo expressão, deixando apenas a compreensão...às tantas, o exótico tornou-se o instrumento metódico de cura apelidada de utópico...
Às tantas, um eram dois, faces lavadas expiando o sol, celebrando o encontro com sementes geracionais, colhendo individualismos para adubar a ruptura, colhendo o isolamento mascarado de liberdade...
Às tantas, um eram dois, faces lavadas expiando o sol, celebrando o encontro com sementes geracionais, colhendo individualismos para adubar a ruptura, colhendo o isolamento mascarado de liberdade...
Punhais
Era cadavérico o sentimento que erguia com os troncos, outrora braços de punhais afiados, prontos para a matança dos seus semelhantes; orgulho, celebrado com fitas virgens de cores fleumáticas lançadas em tons de festança, derretido com pus das feridas insaráveis, estendido à lua uivante, apagando ondas de um mar tornado lago sedento do sal de lágrimas secas...
Era força a fraqueza que esgrimia entre veios de erros semeados tremulamente, adubados com desencontros, crescidos em monólogos partilhados e colhidos por diálogos que ecoam um sentimento cadavérico erguido pelos troncos, outrora braços de punhais afiados...
Era força a fraqueza que esgrimia entre veios de erros semeados tremulamente, adubados com desencontros, crescidos em monólogos partilhados e colhidos por diálogos que ecoam um sentimento cadavérico erguido pelos troncos, outrora braços de punhais afiados...
Ouro
Era seiva o sangue coagulado, estendido tal elástico até ao limite da quebra; eram ramos carcumidos os braços feridos, que se desembrulhavam nuns quantos dedos frouxos, emaranhados no passado fibroso; eram cordas desventradas as veias alcatrão, escorridas, peneiradas sem ouro encontrar; era eu se o futuro fosse hoje...
Ma tee nee
Se eu fosse pedra, tu serias giz, e o teu sorriso seria lição de amor dada a uma criança...
Se eu fosse mar, tu serias onda, concedendo ao azul a sua imponência...
Se eu fosse espelho, tu serias sol, derretendo o passado e convertendo-o em farol...
Se eu fosse mar, tu serias onda, concedendo ao azul a sua imponência...
Se eu fosse espelho, tu serias sol, derretendo o passado e convertendo-o em farol...
Alma Lusa
O que é alma lusa se não fado de varina amante da guitarra portuguesa, cor viúva aos ombros de curnucópia lírica, alfama nocturna embriagada de hospitalidade, amaldiçoada musa de um mundo esquecido, ameia conquistada pela boémia tristesa, chorada no encontro do amor Portugal...
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