Agora. Não seria um minuto mais tarde. Limpou as lágrimas de alguns anos numa face carimbada com dor. Os olhos espremeram aquilo que queriam que Deus visse; era demasiadamente solitário não partilhar a desgraça. Os braços eram comandados pelo coração, e, como tal, não se desprendiam dos rebentos; as palavras, essas, dominadas pela razão, ou pela fé convertida em probabilidade reduzida...E foi assim que ela os viu partir; foi assim que ela soube que o barco se virou, e sua vida expirou. Usurpada de sentimentos, alheou-se de um mundo azedo convertido ao culto da morbidez; alheou-se do facto desse mundo decidir agir como reação à simples ação de umas quantas crianças: a ação de morrerem.
sábado, 12 de setembro de 2015
Círculo da Vida
Eu pedi-lhe para me entornar alguns degraus. Ela fê-lo, porque não o poderia ter feito de outra forma. Desci os degraus de Escher e fui parar ao telhado. Lá, retirei um dos violinos que eram utilizados como telhas e toquei uma sonata de Bethoven. Esperei uns segundos e nada aconteceu. Entretanto, lá em baixo, a lua era boomerang, cujo regresso era uma Claire de Lune. E foi isso que toquei, enquanto do estado liquido passei ao gasoso. Ao alcance da lua, suguei-a, amarelando. Entrei pelas frinchas da fé, e deparei-me com Pandora, contorcionista, dobrada, como de roupa se tratasse, numa caixa. Dirigi-lhe uma pauta e ela respondeu-me em Pi. Incapaz de traduzir o sentido, tornei-me inflexível à sua flexibilidade e franzi as grades, que impediram a saída da minha percepção. Tornei-me sólido, demasiadamente humano, envelheci e, antes de morrer, percebi o círculo da vida...
Partilha
O frigorifico quando abria a boca era parco no alimento. Regorgitava, de quando em vez, uns ovos e bolachas...e cingia-se a pouco mais. Mas a geleira, essa, era maquiavélica. Mostrava nacos de carne, polvos retalhados e suculentos, peixes macios e compridos, e aprisionava-os por detrás de grades de gelo, não partilhando nem uma pequena fração destes aos mais esfomeados...
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
Massagem
Ela usava a ponta de um cabelo para pintar quando Nestor, o massagista, entrou. O canto do olho reparou que ele esfregava as mãos em óleo, enquanto o restante globo ocular se concentrava na obra. Passados uns vinte minutos, de pele enrugada, questionou em voz alta: está pronta? Ela, de leque numa das mãos, e de sopro profundo na boca, entregava-se ao mester de secar a pintura, usando a mão livre para pedir mais um tempo. Impaciente, Nestor iniciou uma marcha circular que o co...locou em transe, caminhando durante tempo indeterminado e percorrendo uma distância desconhecida; e fê-lo até ao momento em que ela estalou os dedos e ele acordou. Dirigiu-se a ela e esta apontou para baixo. Finalmente, ele reparou no quadro: tratava-se de uma mulher de meia idade, pele dourada e cabelos serpentina. Pode começar a massajá-la; tem uma hora - disse ela. E Nestor assim o fez.
sábado, 5 de setembro de 2015
Porta
A porta sempre fora a maior das hipálages; alcunha de medo, murmurava o vento. E, enquanto a alcateia uivante pintava a porta de ausente, a ação era rocha e a vontade era tocha. Iluminado, partiu, dobrou e desdobrou a porta, e desapareceu no breu
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