quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Ser outro

Ser outro tem que se lhe diga...
despir a pele reptiliana e pendurá-la no passado...
reaprender a andar, beber, comer e amar...
lavar sentimentos, secá-los ao futuro e dobrá-los para os vestir numa ocasião especial...

Ser outro é ser alguém depois de não ter sido ninguém...
é enrugar o espírito para o poder enxergar...
soprar balões, erguê-los e ver a imaginação voar...

Ser outro faz bem à alma...
risca-nos a palma da mão num determinismo em construção...
concedendo novo espaço ao coração...

Mar

Oh mar vasto, engoliste-me o mundo,
Vestiste-me de viúvo...
E deixaste-me o poema mudo...
Oh mar rebelde, apertaste-me o coração cobrindo-o de luto...
Criaste a ideia de um Deus surdo...

Moeda

Às tantas, dois éramos um, o outro diluiu-se na relação, perdendo expressão, deixando apenas a compreensão...às tantas, o exótico tornou-se o instrumento metódico de cura apelidada de utópico...

Às tantas, um eram dois, faces lavadas expiando o sol, celebrando o encontro com sementes geracionais, colhendo individualismos para adubar a ruptura, colhendo o isolamento mascarado de liberdade...

Punhais

Era cadavérico o sentimento que erguia com os troncos, outrora braços de punhais afiados, prontos para a matança dos seus semelhantes; orgulho, celebrado com fitas virgens de cores fleumáticas lançadas em tons de festança, derretido com pus das feridas insaráveis, estendido à lua uivante, apagando ondas de um mar tornado lago sedento do sal de lágrimas secas...

Era força a fraqueza que esgrimia entre veios de erros semeados tremulamente, adubados com desencontros, crescidos em monólogos partilhados e colhidos por diálogos que ecoam um sentimento cadavérico erguido pelos troncos, outrora braços de punhais afiados...

Ouro

Era seiva o sangue coagulado, estendido tal elástico até ao limite da quebra; eram ramos carcumidos os braços feridos, que se desembrulhavam nuns quantos dedos frouxos, emaranhados no passado fibroso; eram cordas desventradas as veias alcatrão, escorridas, peneiradas sem ouro encontrar; era eu se o futuro fosse hoje...

Ma tee nee

Se eu fosse pedra, tu serias giz, e o teu sorriso seria lição de amor dada a uma criança...
Se eu fosse mar, tu serias onda, concedendo ao azul a sua imponência...
Se eu fosse espelho, tu serias sol, derretendo o passado e convertendo-o em farol...

Alma Lusa

O que é alma lusa se não fado de varina amante da guitarra portuguesa, cor viúva aos ombros de curnucópia lírica, alfama nocturna embriagada de hospitalidade, amaldiçoada musa de um mundo esquecido, ameia conquistada pela boémia tristesa, chorada no encontro do amor Portugal...