Foi, sem dúvida, um passeio bonito, aquele que eles deram. É
engraçado como os verbos se conjugam, refletia ele. Um passeio é “dado” como se
os beneficiários do ato fossem terceiros. Ao negar ao verbo o sufixo reflexivo
é conceder-lhe altruismo, é alargar a satisfação, advinda de um passeio, aos
demais. E isso era tão poético, quanto irreal.
Mas este foi um passeio, em que determinadas palavras foram poupadas,
como que desadequadas à jovialidade dos olhares, sorrisos, mãos entrelaçadas, e
ao beijo unívoco, que foi dado. E aqui, “dado” tratava-se de um adiamento a uma
penosa resignação, um esbanjamento deliberado de uma reciprocidade, que se
assumia no léxico e se consumava no ato, mas que carecia de partilha. E isso
era tão real, quanto poético.
As outras palavras, as dizíveis, alicerçaram-se perpendicularmente
aos sentimentos, e foram-se afastando cada vez mais destes, à medida que se amontoavam.
Desta aparente inocuidade nasceu o torpor, e ele sabia-o, ou melhor, sentia-o,
mas a sua propriedade anestésica alimentou a conivência.
“Porque não suportava a dor”, anuia em pensamento.
E, assim sendo, não lhe surpreendera encontrar-se de membros
dormentes, sem reação, quando ela partiu. Ela, “que era mar rebelde, ondulante
e intangível “; e ele, que era terra amena e imóvel.
Agrilhoado à memória, assistiu ao arrependimento alimentar-se
das suas entranhas. Atormentava-lhe o assédio de imagens passadas,
amalgamadas com as palavras que ansiara,
mas não ousara pronunciar. Palavras que jamais seriam ouvidas. Palavras que
estavam vincadas a um fado único, que não era o dele. E sentiu que deixou de
viver, condição que soava a um pobre sucedânio da morte. A sua identidade era
uma analepse, perdida no tempo.
E, portanto, assim partiu, assim foi.