Caro Agiota,
Escrevo-lhe esta carta, consciente da ironia da mesma ter um recetor tão poderoso e, no entanto, tão indiferente ao que se passa no mundo real, e um emissor, que é o versa do vice.
O dia da minha reforma passar-lhe-á despercebido, assim como o dia da minha contratação e dos 18.250 dias, que intervalaram essas datas. Não pense que esta constatação seja um queixume ou uma mesquinha forma de obter uma ovação por serviços prestados. De facto, a última deprimir-m...e-ia mais do que a morte. A benção, advinda desta falta de reconhecimento, foi, porventura, o combustível da minha continuidade, mas a consequente resignação, a faísca que imolou a minha crença na humanidade.
Enquanto o servi, concedi créditos para todo o tipo de consumos e a todo o tipo de pessoas, dei as subsequentes ordens para que os lares e os bens lhes fossem usurpados, e, finalmente, tive que os confrontar, armados de filhos ao colo e lavados em lágrimas, incrédulos perante tão pesada pena, que os punia por querer viver como os demais. Enquanto o servi, o país foi assolado por variadas crises financeiras, mas a sua instituição conseguia sempre encontrar refúgio num qualquer oásis político-económico, não deixando, todavia, de despedir o João, a Maria, e até o Artur, que tinha acabado de ter gémeos, e aumentando os salários do corpo executivo por, paradoxalmente, apresentar lucro.
É impressionante como se ganha a vida à custa do risco, sem incorrer nele. Essa é a sua fórmula de sucesso; a mesma, que distanciou o ser humano da crença na justiça e, consequentemente, no seu papel como cidadão. A dois dias da minha reforma, e vendo a sociedade destruída, consigo ver o meu papel nesse processo.
Graças a si, odeio-me. E porque me odeio, odeio-o a si.
Atentamente,
Funcionário 170274
Escrevo-lhe esta carta, consciente da ironia da mesma ter um recetor tão poderoso e, no entanto, tão indiferente ao que se passa no mundo real, e um emissor, que é o versa do vice.
O dia da minha reforma passar-lhe-á despercebido, assim como o dia da minha contratação e dos 18.250 dias, que intervalaram essas datas. Não pense que esta constatação seja um queixume ou uma mesquinha forma de obter uma ovação por serviços prestados. De facto, a última deprimir-m...e-ia mais do que a morte. A benção, advinda desta falta de reconhecimento, foi, porventura, o combustível da minha continuidade, mas a consequente resignação, a faísca que imolou a minha crença na humanidade.
Enquanto o servi, concedi créditos para todo o tipo de consumos e a todo o tipo de pessoas, dei as subsequentes ordens para que os lares e os bens lhes fossem usurpados, e, finalmente, tive que os confrontar, armados de filhos ao colo e lavados em lágrimas, incrédulos perante tão pesada pena, que os punia por querer viver como os demais. Enquanto o servi, o país foi assolado por variadas crises financeiras, mas a sua instituição conseguia sempre encontrar refúgio num qualquer oásis político-económico, não deixando, todavia, de despedir o João, a Maria, e até o Artur, que tinha acabado de ter gémeos, e aumentando os salários do corpo executivo por, paradoxalmente, apresentar lucro.
É impressionante como se ganha a vida à custa do risco, sem incorrer nele. Essa é a sua fórmula de sucesso; a mesma, que distanciou o ser humano da crença na justiça e, consequentemente, no seu papel como cidadão. A dois dias da minha reforma, e vendo a sociedade destruída, consigo ver o meu papel nesse processo.
Graças a si, odeio-me. E porque me odeio, odeio-o a si.
Atentamente,
Funcionário 170274