segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Carta

Caro Agiota,

Escrevo-lhe esta carta, consciente da ironia da mesma ter um recetor tão poderoso e, no entanto, tão indiferente ao que se passa no mundo real, e um emissor, que é o versa do vice.
O dia da minha reforma passar-lhe-á despercebido, assim como o dia da minha contratação e dos 18.250 dias, que intervalaram essas datas. Não pense que esta constatação seja um queixume ou uma mesquinha forma de obter uma ovação por serviços prestados. De facto, a última deprimir-m...e-ia mais do que a morte. A benção, advinda desta falta de reconhecimento, foi, porventura, o combustível da minha continuidade, mas a consequente resignação, a faísca que imolou a minha crença na humanidade.
Enquanto o servi, concedi créditos para todo o tipo de consumos e a todo o tipo de pessoas, dei as subsequentes ordens para que os lares e os bens lhes fossem usurpados, e, finalmente, tive que os confrontar, armados de filhos ao colo e lavados em lágrimas, incrédulos perante tão pesada pena, que os punia por querer viver como os demais. Enquanto o servi, o país foi assolado por variadas crises financeiras, mas a sua instituição conseguia sempre encontrar refúgio num qualquer oásis político-económico, não deixando, todavia, de despedir o João, a Maria, e até o Artur, que tinha acabado de ter gémeos, e aumentando os salários do corpo executivo por, paradoxalmente, apresentar lucro.
É impressionante como se ganha a vida à custa do risco, sem incorrer nele. Essa é a sua fórmula de sucesso; a mesma, que distanciou o ser humano da crença na justiça e, consequentemente, no seu papel como cidadão. A dois dias da minha reforma, e vendo a sociedade destruída, consigo ver o meu papel nesse processo.
Graças a si, odeio-me. E porque me odeio, odeio-o a si.
 

Atentamente,
Funcionário 170274

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Escaravelho


Apresentou a sua demissão às nove da manhã. Às dez, fez a mala. Às onze, saiu de casa rumo à estação de comboio.

Doze horas antes, estava no cais com Jonke e, enquanto ele se metamorfaseava em escaravelho, ela estalava as bolhas do plástico, que envolvia a pistola, anteriormente retirada da caixa de veludo lilás com berloques dourados. Consumado o processo, viu-se espelhada, de pistola em riste, na carapaça quitinosa do outro. Antes de disparar, penteou-se, aprumou-se. Ela sabia que este trejeito social não se coadunava nem com o ato, e menos ainda com o seu alheamento à estética e, no entanto, não quis deixar de o presentear com uma última imagem do seu rosto fúlvido.

Ela amava-o. Ela sabia que ele a amava mais. Ele amava-a tanto que se entregara à morte, e ela à insipiência da vida. A bala era uma questão, mais do que uma afirmação. A bala questionava o que seria dela sem ele...

Lembrava-se dos alegres momentos em que ambos pontapeavam e socavam os corpos de transeuntes felizes. A violência, paradigma de moralidade irrepreensível, porventura maculada pelos instigadores da paz, uns quantos loucos, ou reacionários, o que, no limite, era a mesma coisa, não condizia bem com amor, um sentimento irracional e imprevísivel. De facto, enquanto que a demência tinha tudo de racional e, portanto, podia e deveria ser contida pelo colete de regras sociais, o amor era uma espécie de necessidade fisiológica básica tornada pública. Era como uma flatulência sentimental, cuja manifestação ruborizava em vergonha e nojo.

Às doze horas, sentada no banco de madeira do vagão em movimento e com o ingresso por obliterar junto aos pés, olhou pela janela e, entre copas e reflexos de humanidade, viu Jonke. O sorriso distanciou-a daquilo que havia sido, e o sentimento metamorfaseou-a num escaravelho.      

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Sentir



 
 
-          Estás aí?
-          Sim, desde a última vez que me perguntaste.
-          Gosto de sentir a tua voz…já que não te posso ver.
-          Tenho fome…
-          Eu sei querida. Eu também. Sentir fome é horrível. O melhor é não pensarmos em comida.
-          Já tentei, mas não consigo deixar de pensar no chocolate que tinha no bolso; ou melhor, no chocolate que creio ainda estar no meu bolso…não me lembro de o ter comido.
-          Ai como adoro chocolate. Lembras-te do teu último aniversário? Fiz-te um bolo de chocolate. Delicioso!
-          Não foste tu que me pediste para não pensar em comida?
 
Ambas soltaram gargalhadas nervosas, contrastando com um silêncio defunto, que se seguiu.
 
…Também tenho saudades de te ver, de sentir os teus abraços…
A mais velha esvaiu-se em lágrimas e, na contenção da comoção, conseguiu sentir o coração pulsar, como se de martelo pneumático se tratasse a abrir alas à sua salvação.
-          Mãe?
-          Sim querida.
-          Tenho medo de morrer...
-          Não vais morrer!
-          ….e, pior, de sentir a morte tão próxima, bafejar-me porque dela não posso fugir.
-          Consegues mover o braço?
-          Não.
-          Esforça-te.
-          Dói-me.
-          Claro que dói. Mais vale sentir dor do que sentir pena de não ter tentado…
-          É fácil falar…
 
A mais velha, de pernas esmagadas por uma viga, respondeu…
 
-          Tens razão. Só quero sentir que deste tudo por tudo, e, que nesse esforço, enganaste a morte…
A mais nova notou que pequenas migalhas de cimento resvalaram junto à sua perna direita.
Quero sentir que o teu futuro é luminoso e generoso, mesmo que eu …não faça parte dele.
 
-          Mãe…ouves? consigo sentir algo a mexer-se junto às minhas pernas. Acho que alguém nos vem ajudar. Mãe?
A luz veio com o silêncio.