terça-feira, 27 de março de 2012

Escritor

Póstumo era o livro de autor morto-vivo, de cotovelo espasmódico, desenhando círculos imaginários, não por convicção, mas pelo esmorecer prematuro da destreza motora. Os círculos eram mais largos quando ele erguia o antebraço e, mesmo a folha que suportava com a mão entornada de idade, parecia peso pesado. O músculo do membro era vela levada pelo vento e as veias eram cordas lassas, que se estiravam ao sol e que quebrantavam a qualquer momento.
As pernas eram sobretudo joelhos. Joelhos aço, inflexíveis, borbotos de osso ressequidos, ensoberbecidos pelo passo passado. Só se levantava para morrer. E fazia-o pouco, mas de forma eficaz.
Os olhos prolongavam-se num caudal, que inundava toda a pele, acastanhando-a abaixo dos globos estilhaçados em veios encarniçados. As pestanas eram redes de emalhar, aprisionando um olhar, que não era físico, mas penetrante e a atenção de um diálogo, geralmente metamorfoseado em monólogo, devido à extensa vivência e longura dos motivos para palestrar.
Sonhava publicar, mas nunca havia finalizado uma única obra. O processo da escrita, a criação de personagens e cenários era como conhecer novos amigos e visitar novos lugares. O frémito focava-se nos preâmbulos e o enredo era fábrica que, pelo facilitismo, atraía apatia.
Mas no dia em que pensara morrer, arrependera-se de não se testar ao mundo. Estendido numa cama hospitalar, no meio do deserto, sem vivalma por perto, que não um ou outro cacto ou rocha, soro era oásis literário, salvação para a publicação.
Agarrara-se ao sopro de vida mas deixara esvair a fala, o movimento, acção e reacção. Era mais um dos elementos do deserto, que ele próprio erguera. Aos poucos, foi-se apercebendo que oásis era miragem desenhada em palavras num qualquer trecho que erigira. Foi-se apercebendo que cada grão de areia sugava cada segundo de vida que lhe restava e o póstumo livro se esculpia no vento que mareava o músculo do braço defunto.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Extremismos

Ninguém realmente crê ser extremista nas suas posições, nas suas crenças sobre as temáticas mais assertivas para a sociedade. Isso aplica-se, em pequena escala à grande escala país, e, em grande escala à pequena escala cidadão.
Se Hitler estivesse vivo, e se alguém o entrevistasse hoje, com certeza explanaria, com a maior das naturalidades, as suas decisões sublinhando a normalidade destas e a palavra extremismo seria obliterada do seu discurso. Por outro lado, um qualquer ditador comparar-se-ia com Hitler e considerar-se-ia muito saudável quanto às políticas e excessos adoptados, nunca referindo qualquer excesso mas sim necessidade face às conjunturas dos seus mandatos. Um político moderado, na adopção de políticas menos moderadas, comparar-se-ia com um qualquer ditador, e seria presenteado com a conclusão de que ele era de facto um governante sábio, capaz de moderar uma nação mesmo quando, por vezes, surgisse a necessidade de um punho mais duro e inflexível a bem do povo ao qual servisse.
Um político liberal teria a tentação de comparar o moderado, aquando de posições mais inflexíveis, com um qualquer ditador e elevaria a liberdade individual ao extremo, não negligenciando o ser colectivo, mas considerando que o segundo serviria o primeiro, i.e que o colectivo teria funções de servilismo face ao individuo.
Um anarquista olharia o liberal com desconfiança, nem sequer concebendo a ideia do colectivo servir o individuo, de aspirações tão subjectivas e em constante devir motivacional. Para este, as regras não poderão ser impostas a nível superior mas sim de forma sintomática. Compararia a política a um médico que, não analisando os seus pacientes, receitaria antibióticos a todos eles. O resultado final seria que alguns acentuariam as suas enfermidades, enquanto que outros, por pura sorte da providência, curar-se-iam. A regra é conjuntural per si, e como tal regras escritas e imposição de hierarquias atrofiam o aparelho social criando ferrugem na interacção dos sujeitos sociais.
Finalmente, um qualquer individuo, comparando-se com o seu vizinho, considera que as suas assunções, comportamentos e decisões são racionalmente prescritos e que ele, ao contrário dos que o rodeiam, é moderado. Isso aplicar-se-ia aos temas mais variados desde pena de morte, aborto, eutanásia, casamento de dois indivíduos do mesmo sexo, etc.
Invariavelmente, erramos quando recorremos à comparação para validarmos as nossas posições. Invariavelmente, erramos porque comparamos o que é incomparável. Nós não temos uma opinião mais assertiva e equitativa sobre uma temática, por sermos mais ou menos moderados do que o político x ou o vizinho y. Nós temos uma opinião mais assertiva e mais equitativa quando respeitamos o ser humano, como ele se apresenta ao mundo e como ele se desenvolve como ser individual e social. Nós temos uma opinião mais assertiva e equitativa quando respeitamos as suas crenças, motivações, ambições e decisões sobre a sua própria vida.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Prancha

Mas se tiveres a vontade e o crer, nada é impossível. Esta foi a assunção de quem se elevou uns 20 cm e caiu uns 4 metros num monte de musgo. Paralítico - foi minha precipitação julgar o desfecho, quando afinal o corpo era ausente e a moléstia, a existir, estava bem camuflada de verde húmido. O choque levara-me a piscar os olhos, o suficiente para que agora quase me engasgasse de curiosidade. Entre um arranhar da garganta e uma tentativa de visualizar a melhor forma de descer os 4 metros de forma segura, levantei a mente da letargia e pus o corpo ao caminho.
O musgo era escorregadio, mantendo a sua natureza expectável, e a superfície rochosa descoberta era realmente sólida e pouco apelativa ao choque. Apalpei, para constatar o que afirmara e apesar de feliz com a constatação de que a natureza respeitava as suas próprias regras, exponenciei o meu estado de intriga. Momentos depois, repetindo em memória residual as palavras proferidas antes do fenómeno ter acontecido mesmo em frente dos meus olhos, cheguei à conclusão que deveria acreditar e repetir a proeza. Subi 4 metros. Saltei uns 20 cm e caí uns 4 metros. Paralítico - foi o meu estado, cuja letargia nunca realmente me abandonou.   

domingo, 4 de março de 2012

Fé?

Esmero era o adjectivo que vestia aos Domingos. Era a voz monocórdica, a luz vitralizada expondo as partículas de pó, que ele acreditava serem planetas, as caudas longas das cadeiras de madeira nua, os cânticos empolantes sem mácula dos maculados, o púlpito frio, o vinho minguante, o pão sem o fermento da vida, as vestes virginais regadas de sexualidade, era tudo isso que o levava a acordar em todos os sétimos dias da semana. Não havia um grão de crença, e muito menos de fé e, no entanto, não abdicaria daquelas duas horas semanais. Alimentava-se da carestia moral dos presentes, coleccionava lembranças de pecado dos que se sentavam ao lado e escrevia as mesmas no livro negro intitulado de "livro negro". Não frequentava o confessionário, mas era um conhecedor da lúxuria, inveja, gula, ira, avareza, preguiça e vaidade, porque moravam tão próximo dele aos Domingos de manhã.