quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Harpa

Os 5 irmãos sem pulmão não respiravam, porque não necessitavam. Como tal, nunca perdiam o fôlego e consequentemente nunca pausavam para falar. Falavam e falavam durante dias seguidos sem interrupção, atropelando-se em tons menos ou mais graves, em assuntos mais ou menos sérios. Como as pernas não acompanhavam o ritmo da língua, deitavam-se de costas, fechavam os olhos e continuavam na labuta da retórica.
Um dia, 5 pássaros sem o decoro normal da espécie dos tentilhões, bicaram cada uma das 5 línguas e esticaram-nas, voando sincronizadamente até às 5 nuvens mais distantes. Lá, 5 anões felpudos deram nós, prendendo-as definitivamente às partes mais finas das nuvens.
Enquanto os 5 irmãos passaram da fala ao transtorno linguístico, um mamute musical, classe em natural extinção, sentou-se, cruzando as patas traseiras, e utilizou as dianteiras para tocar uma harpa, cujas cordas escorregavam em saliva abundante...

Cérebro ou Algodão

Nem os amigos sabiam que o crânio dele estava cheio de algodão. O pequeno furo provocado por uma contusão após uma queda aparatosa de bicicleta, expunha uma pequena fiada branca. Um dia, a brincar entre amigos, um quis saber porque é que ele, tendo 8 anos, já tinha cabelos brancos. Sentindo-se excluido pela diferença, decidiu arrancar esse cabelo. Puxou, puxou, e continuou a puxar...e foi assim que perdeu o cérebro...

Acidente ou crime ou coisa nenhuma

O colocar o ouvido junto ao asfalto morno, tingido de sangue e ainda vibrante após o acidente brutal que ceifou 3 vidas, pintou-lhe um sinal avermelhado na zona da orelha. Horas mais tarde, o temporal esquerdo, esmagado por um taco de baseball, pigmentou uma heterogeneidade genética que confundiu pelo menos 3 técnicos de criminologia.
Um concluiu que o acidentado, expelido pelo vidro dianteiro de um jeep, falecera micro segundos antes do seu corpo tocar o chão e, sem que a morte o perturbasse, conseguira erguer-se, abrir o porta bagagens, retirar o taco e usá-lo contra a vítima em análise...
O segundo, apostou numa genealogia bipolar devida à imprudência materna de uma mulher, que teria muito amor para dar. Mas isso não satisfazia o terceiro, crente em vampirescas actividades, sobretudo junto a acidentes tão violentos quanto este. Por várias vezes, havia sublinhado a questão que se revertia na afirmação da existênncia destes: para onde desaparece tantos e tantos litros de sangue, pouco tempo após a calamidade?
Enquanto que o primeiro olhava de solaio o corpo projectado, receoso que voltasse a atacar, e enquanto o segundo sorria de forma malandra congeminando uns 9 meses, antes do nascimento do segundo cadáver, muito pecaminosos, o terceiro afiava o olhar concentrando-o no pescoço de cada uma das 5 vítimas....5???
‎5????? repetiu o terceiro sem o emitir em voz alta. É que o primeiro técnico de criminologia estava deitado no chão, cabeça ausente, corpo disposto de forma aprumada, e só reconhecível pelo traje. O pouco sangue, segundo reflexo da violência que havia concretizado a morte, espraiava-se viscosamente por entre as protuberâncias de um asfaslto arrefecido por uma lua em duelo com um sol em perda...
O segundo, ainda de sorriso em riste, armava um outro sentimento partilhado pelos esgares latentes quando uma foice lhe decepou ambas as mãos. Os olhos tinham raízes de sangue que teimavam vincar-se à vida mas a foice era inimiga da vontade e duas pernas em equilibrio foi a única parte do seu corpo que se manteve em pé. O peito sentia o preto do asfalto, viúva que ele já não poderia abraçar...
 E o terceiro, resignado à Morte, ajoelhou-se, abriu os braços, projectou a cabeça para um céu avermelhado pelo sangue ausente, e esperou...