segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Dor

Não era de papel, mas de carne e osso o origami que lhe dirigiu a palavra. Bamboleantes adjetivos torneando o sentido, camuflando-o de algo bom; assim era a comunicação. Em sentido, içou a perna esquerda, como quem presta homenagem à nação, fez a pala devida, e viu o lustre da bota que assentou na sua face como uma luva.

Quando acordou, a maresia arrombou-lhe as fossas nasais, de odor em riste, pronta a fuzilar a sua memória. O pelotão escutou o ribombar dos tambores e o tiro culminou a pauta.

domingo, 23 de agosto de 2015

Os sapatos tinham rédeas, em vez de atacadores; e o cavaleiro era a fé, que o conduzia lá. Lá, onde até o amor ao desconhecido era possível. E foi lá, que aprendeu a amar.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Levantar-se


J era atarracado. Tinhas garras de cordel, com as quais prendia as presas com nós. Careca de profissão, exercia o ofício sentado. Colocava-as em sacos translúcidos, cheios de água para se afogarem. Argumentava a favor das virtudes da obrigação em detrimento dos direitos à vida, mas faltava-lhe o vigor nas assunções; contudo, não seria pela fragilidade indutiva, mas sobretudo pela procura interior pela paz de espírito que o movera a levantar-se. Levantou-se com as pernas e levantou-se com a ética e de lá mais não saiu.

domingo, 16 de agosto de 2015

Ouvido

E como é que fizeste isso? perguntou ela, enquanto ele se desembaraçava das cordas que lhe cerceavam os movimentos. A resposta foi colocada num armário de burocracia, debaixo da letra E e a pergunta repetida num concurso televisivo com um apresentador cujo sorriso lhe escondia os olhos, nariz, queixo, pescoço e tronco; as pernas eram cotos, pululando ao ritmo da música da Mongólia que enchia a sala, onde os espectadores eram coelhos de fraque à espera da resposta errada. As c...ordas, amolecidas por um chão relvado, cavavam buracos e, tais minhocas do campo, desapareciam da história. Sacudindo o pó inexistente, carregou no nariz. Este sacudiu três vezes, e elevou-se, suportado por uma alavanca, expondo-lhe a odores mais longinquos. Era cozido à portuguesa, sem dúvida. Os códigos de espionagem eram, há muito, transmitidos por cheiros e este significava que deveria aniquilar a interlocutora. Enterrou ambas as mãos, pulsos, antebraços e metade dos braços nos bolsos e sacou uma pastilha elástica vermelha. Mascou-a com a precisão de um relógio de cuco com o ponteiro maior nos 12, e transformou-se num anão; continuou a mascar até reduzir a sua dimensão ao nível de uma formiga. Correu direito a ela, trepou-lhe pela perna direita, fazendo-a dar coices e relinchar com se de égua se tratasse. Desfraldou-a, correu pelo vale ladeado por seios brutos, mordeu-lhe o pescoço, depois de ter escorregado uma vez, e, ao chegar ao ouvido direito, cumprimentou-o. Este retribuiu-lhe com um enigma: Se tudo no mundo é ciclico como saltar de um ciclo para outro sem desrespeitar a primeira assunção? Sendo a resposta demasiadamente acessível, ele deu-se o trabalho de aprimorar a mesma para que a pergunta soasse mais complicada. Se dois ciclos forem parelelizados, podemos manter um pé num e outro noutro, assim reza a história dos desastres humanos. O ouvido, subjetivamente centrado na resposta que tinha pensada, mas que nunca esperaria ouvir, concedeu-se uns momentos de instrospeção, não fosse vir a ser acusado de parcial quanto à sua capacidade de julgamento. Ele, aproveitando a deixa, penetrou pelas suas entranhas. De picareta na mão e luz de mineiro, desbravou por entre as paredes musculadas do cérebro. Bem no centro, penetrou os bolsos com ambas as mãos, pulsos, antebraços e braços, retirando uma pastilha elástica verde. Mascou-a, enquanto cantava This is the End. Cresceu, cresceu, cresceu e ela explodiu. Limpando a face de resíduos humanos, e sacudindo o pó existente, abandonou a história pela culatra.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Estados

As palavras eram esponjas que absorviam sentimentos. Ora ele, ansioso pelo iminente encontro, palmilhando círculos, aguardando pela sua chegada, premiu o livro com força desmesurada. E, mal ela chegara, risos histéricos, suspiros, gemidos, gargalhadas, precipitaram-se e misturaram-se nos socalcos da calçada. Ela era um tronco de raízes frondozas e os sentimentos exacerbados electrocutaram o pobre coração, fazendo-a tombar e partir-se em duas. Ele, de sobrolhos entretidos a da...nçar salsa, coalhou um barco da madeira que sobrara. Das pestanas fez remos e partiu. Infelizmente não havia água, ou a locomoção teria sido mais rápida. Assim, de barbas longas e rugas a lavrarem a fertilidade de uma pele envelhecida, suspendeu a marcha. Abandonou o barco, que se converteu num helicóptero e que partiu, deixando-o em terra firme. Curvou-se, tal o cansaço acumulado durante tantos anos, e, sem se aperceber, milhares de crianças saltaram ao eixo. Depois de 5 horas e 35 minutos, o sol vestiu-se de lua, travesti que era faziam alguns milénios, e apaixonou-se pelas costas dele. Abandonado que fora, retribuiu o sentimento e manteve-se curvado para toda a eternidade...

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Gusmão o artifice

Enquanto o vento se entretinha com as bandeirolas, absorto nas profícuas cores, a relva escondia Gusmão, o artifice cesteiro. Gusmão era habilidoso e lesto na arte, e a relva metamorfoseava-se rapidamente em cestos, que se espraiavam pelo solo castanho. O cliente era a missão, e esta pagava com a moeda do sossego, permitindo ao artifice enterrar pacificamente a cabeça no travesseiro, à noite, e só a desenterrar no dia seguinte. A causa, ou melhor, a satisfação desta, era o combustível da motricidade e, mesmo que as peles fácidas se congestionassem pela carestia de ádipe, a imobilidade era algo que o mesmo desconhecia. Ora, o vento, o tal ser distraído pela prazenteria disponibilizada pelo sol, um dia reparou em Gusmão, o cesteiro. Ao cumprimentá-lo, fê-lo levitar, tal a leveza de consciência (e de um corpo chupado pelo ofício). Entretido com a proeza, fê-lo voar, manipulando direção e sentido, soluçando entre gargalhadas, quase o fazendo cair, e erguendo-o de novo. Gusmão, apercebendo-se do mesmo, apenas quando fiadas de relva lhe fugiam entre os dedos, olhou em redor. Sensato e calmo, agarrou na nuvem mais à mão e, adaptando o seu mester à matéria-prima, criou o primeiro cesto de nuvem. Este choveu, emagracendo a forma, e tornou-se perfeito aos olhos de um vento manipulador.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Mascara

A minha mascara mascarou-se de mim, mas ela não me reconheceu. Assustou-se e, embrulhando-se em suplicios, vergou-se de medo na bolsa marsupial. Encharcou os cantos da boca com o Prozac materno. Cerrou os olhos como quem se enjaula e engole a chave. Assim era ela, enclausurada nas masmorras do meu cérebro. Da prateleira, trocou o deus pelo livro e, rendida ao dogma da poesia, retrucou em estrofes os olhares que, por entre grades, lhe deitava, lhe derramava. Bramindo sinapses, estalei-lhe a pele que, como cortiça despiu-se do tronco; domei-lhe a vontade. Fi-la corgitar esperança, fi-la abrir a porta e sair. Fi-la mascarar-se com a mascara da minha mascara...