E como é que fizeste isso? perguntou ela, enquanto ele se desembaraçava das cordas que lhe cerceavam os movimentos. A resposta foi colocada num armário de burocracia, debaixo da letra E e a pergunta repetida num concurso televisivo com um apresentador cujo sorriso lhe escondia os olhos, nariz, queixo, pescoço e tronco; as pernas eram cotos, pululando ao ritmo da música da Mongólia que enchia a sala, onde os espectadores eram coelhos de fraque à espera da resposta errada. As c...ordas, amolecidas por um chão relvado, cavavam buracos e, tais minhocas do campo, desapareciam da história. Sacudindo o pó inexistente, carregou no nariz. Este sacudiu três vezes, e elevou-se, suportado por uma alavanca, expondo-lhe a odores mais longinquos. Era cozido à portuguesa, sem dúvida. Os códigos de espionagem eram, há muito, transmitidos por cheiros e este significava que deveria aniquilar a interlocutora. Enterrou ambas as mãos, pulsos, antebraços e metade dos braços nos bolsos e sacou uma pastilha elástica vermelha. Mascou-a com a precisão de um relógio de cuco com o ponteiro maior nos 12, e transformou-se num anão; continuou a mascar até reduzir a sua dimensão ao nível de uma formiga. Correu direito a ela, trepou-lhe pela perna direita, fazendo-a dar coices e relinchar com se de égua se tratasse. Desfraldou-a, correu pelo vale ladeado por seios brutos, mordeu-lhe o pescoço, depois de ter escorregado uma vez, e, ao chegar ao ouvido direito, cumprimentou-o. Este retribuiu-lhe com um enigma: Se tudo no mundo é ciclico como saltar de um ciclo para outro sem desrespeitar a primeira assunção? Sendo a resposta demasiadamente acessível, ele deu-se o trabalho de aprimorar a mesma para que a pergunta soasse mais complicada. Se dois ciclos forem parelelizados, podemos manter um pé num e outro noutro, assim reza a história dos desastres humanos. O ouvido, subjetivamente centrado na resposta que tinha pensada, mas que nunca esperaria ouvir, concedeu-se uns momentos de instrospeção, não fosse vir a ser acusado de parcial quanto à sua capacidade de julgamento. Ele, aproveitando a deixa, penetrou pelas suas entranhas. De picareta na mão e luz de mineiro, desbravou por entre as paredes musculadas do cérebro. Bem no centro, penetrou os bolsos com ambas as mãos, pulsos, antebraços e braços, retirando uma pastilha elástica verde. Mascou-a, enquanto cantava This is the End. Cresceu, cresceu, cresceu e ela explodiu. Limpando a face de resíduos humanos, e sacudindo o pó existente, abandonou a história pela culatra.