quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Harpa

Os 5 irmãos sem pulmão não respiravam, porque não necessitavam. Como tal, nunca perdiam o fôlego e consequentemente nunca pausavam para falar. Falavam e falavam durante dias seguidos sem interrupção, atropelando-se em tons menos ou mais graves, em assuntos mais ou menos sérios. Como as pernas não acompanhavam o ritmo da língua, deitavam-se de costas, fechavam os olhos e continuavam na labuta da retórica.
Um dia, 5 pássaros sem o decoro normal da espécie dos tentilhões, bicaram cada uma das 5 línguas e esticaram-nas, voando sincronizadamente até às 5 nuvens mais distantes. Lá, 5 anões felpudos deram nós, prendendo-as definitivamente às partes mais finas das nuvens.
Enquanto os 5 irmãos passaram da fala ao transtorno linguístico, um mamute musical, classe em natural extinção, sentou-se, cruzando as patas traseiras, e utilizou as dianteiras para tocar uma harpa, cujas cordas escorregavam em saliva abundante...

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