segunda-feira, 12 de junho de 2017

Trambulhão

Não se precipitava em descer as escadas, não fosse dar um trambulhão. Mas os outros, dedilhando cada degrau com as pontas dos pés, famintos de saída, lestamente percorriam as escadas de lés a lés. Ela, com ambas as mãos sobre o único parapeito, focava o que os pés tateavam, sentindo o arrepio de uma espinha ao prever uma eventual tontura, que a desequilibrasse e a lançasse, tal barril, por ali abaixo. Ainda não tinha chegado a meio do percurso e já estava sózinha, escutando os berros, tornados cálidos sussuros pela distância. Sózinha não era, de facto, a melhor forma de descrever o acontecimento, a não ser que o narrador humildemente se resignasse à não personificação daquele ente, não muito querido, que perseguia os então desaparecidos. É que este, mais fogo que forma, coberto de línguas cuneiformes, artistas prontas a esculpir o cenário de carvão, hesitou perante tal brandura de movimentos e, contrariando a sua natureza, falou. Ela, surpresa pela vocalização, olhou para trás, tropeçou em si própria, e, enquanto caía, apaixonou-se pela ardente criatura.

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