segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

À espera dele, sentados, rostos reclinados, olhos ausentes uns dos outros, estavam K., P. e M. K., como sempre, brincava com um qualquer objecto, como forma a evitar os restantes. P. e M. posicionavam-se nas extremidades, reforçando um cansaço teatrializado pelo suportar de ambas as cabeças nos 4 joelhos inertes. K. ensaiava uma carta ao pai, dactilografada há muito no seu lobo frontal, em curto circuito com todas as lágrimas derramadas nos dias que precediam a espera. O sacríficio que o pai fizera para lhe proporcionar uma vida abastada, pagando-lhe os estudos, nunca interrompidos para ajudar no negócio da familia, tinha sido, aos olhos do progenitor, um reflexo de pura ingratidão. K., entendendo a posição do pai, tinha, contudo, uma opinião diferente e que o colocava em piso seguro, inculpável. Sentia-se culpado, amargurado, não por um assentir das acusações, mas pela proximidade sentimental de quem o acusava. O pequeno pau que degladiava entre os nós dos dedos era o pai, esfumado na palma da mão, reaparecendo com toda a punjança nas costas dos dedos, vergando-os pela dureza das acusações.
P. era autista, preferia os monólogos sem o ardor de opiniões contrárias, entregando-se ao diálogo muito raramente. Tinha uma cognição peculiar mas linear, não permitindo a correcção de assunções passadas sobre as quais havia sustentado outras. Tinha receio que o edificio ruisse e, como tal, colocava-se na ombreira das ideias, não ousando explorar os restantes compartimentos da sua casa mental.
M. não existia. M. era P. quando P. morria. P. morria por vezes, e hoje P. estava morto.

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