sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Gusmão o artifice

Enquanto o vento se entretinha com as bandeirolas, absorto nas profícuas cores, a relva escondia Gusmão, o artifice cesteiro. Gusmão era habilidoso e lesto na arte, e a relva metamorfoseava-se rapidamente em cestos, que se espraiavam pelo solo castanho. O cliente era a missão, e esta pagava com a moeda do sossego, permitindo ao artifice enterrar pacificamente a cabeça no travesseiro, à noite, e só a desenterrar no dia seguinte. A causa, ou melhor, a satisfação desta, era o combustível da motricidade e, mesmo que as peles fácidas se congestionassem pela carestia de ádipe, a imobilidade era algo que o mesmo desconhecia. Ora, o vento, o tal ser distraído pela prazenteria disponibilizada pelo sol, um dia reparou em Gusmão, o cesteiro. Ao cumprimentá-lo, fê-lo levitar, tal a leveza de consciência (e de um corpo chupado pelo ofício). Entretido com a proeza, fê-lo voar, manipulando direção e sentido, soluçando entre gargalhadas, quase o fazendo cair, e erguendo-o de novo. Gusmão, apercebendo-se do mesmo, apenas quando fiadas de relva lhe fugiam entre os dedos, olhou em redor. Sensato e calmo, agarrou na nuvem mais à mão e, adaptando o seu mester à matéria-prima, criou o primeiro cesto de nuvem. Este choveu, emagracendo a forma, e tornou-se perfeito aos olhos de um vento manipulador.

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