Costumava pensar que, se Deus era omnipresente, então o tudo
e o nada eram partes Dele, como fios de um novelo superior. E Deus tricotara o
tudo em seis dias, e o nada no infinito de tempo, que o precedeu. Costumava
pensar que o ser humano, tendo sido criado à Sua imagem, fazia da retidão
apanágio e que injustiça e imoralidade eram meros frémitos extemporâneos desta
raça superior. Mas rapidamente percebi que o amor ao próximo é um privilégio raro
e não uma benção herdada do genoma metafísico.
“E, por isso, exilei a fé, porque me trazia um falso senso
de segurança e justiça”. E, erecto, virando-me para um céu negro, “Sim,
confesso que me entrincheirei no facilitismo de não acreditar…”. E acrescentando
com uma voz desfalecida, “em Ti”. As núvens, abajures celestiais, acenderam-se de
repente, como se Deus tivesse acabado de acordar. E eu, que ansiava tanto por
reconhecer o divivo, por mais camuflado que estivesse de fé, esbracejei e
gritei, sobrepondo a voz ao trovão que se seguiu. “Estás aí?”. E, não tendo
qualquer resposta, repeti, por várias vezes, a pergunta, diluindo o ateísmo,
que havia marcado a minha vida adulta, num timbre moribundo. “Por momentos,
acreditei que podia acreditar, mas o bem e o mal continuarão a ser meros adjetivos,
tão perenes quanto bolas coloridas a ornamentarem pinheiros de natal. Um dia o
que é mau torna-se bom e o bom torna-se mau. Tudo o resto é tão deterministico quanto a morte: a nossa
e a da crença em Ti…”.
Desiludido, por não ter regado a semente da fé, aquela
que existe em todos nós, preparei-me para me ir embora, quando o clarão mais
forte, que alguma vez experenciei, iluminou as montanhas, o rio, as árvores, os
seres vivos, ou seja, todos os fios do mesmo novelo.
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