quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Assim partiu, assim foi...


Foi, sem dúvida, um passeio bonito, aquele que eles deram. É engraçado como os verbos se conjugam, refletia ele. Um passeio é “dado” como se os beneficiários do ato fossem terceiros. Ao negar ao verbo o sufixo reflexivo é conceder-lhe altruismo, é alargar a satisfação, advinda de um passeio, aos demais. E isso era tão poético, quanto irreal.

Mas este foi um passeio, em que determinadas palavras foram poupadas, como que desadequadas à jovialidade dos olhares, sorrisos, mãos entrelaçadas, e ao beijo unívoco, que foi dado. E aqui, “dado” tratava-se de um adiamento a uma penosa resignação, um esbanjamento deliberado de uma reciprocidade, que se assumia no léxico e se consumava no ato, mas que carecia de partilha. E isso era tão real, quanto poético.

As outras palavras, as dizíveis, alicerçaram-se perpendicularmente aos sentimentos, e foram-se afastando cada vez mais destes, à medida que se amontoavam. Desta aparente inocuidade nasceu o torpor, e ele sabia-o, ou melhor, sentia-o, mas a sua propriedade anestésica alimentou a conivência.

“Porque não suportava a dor”, anuia em pensamento.

E, assim sendo, não lhe surpreendera encontrar-se de membros dormentes, sem reação, quando ela partiu. Ela, “que era mar rebelde, ondulante e intangível “; e ele, que era terra amena e imóvel.

Agrilhoado à memória, assistiu ao arrependimento alimentar-se das suas entranhas. Atormentava-lhe o assédio de imagens passadas, amalgamadas  com as palavras que ansiara, mas não ousara pronunciar. Palavras que jamais seriam ouvidas. Palavras que estavam vincadas a um fado único, que não era o dele. E sentiu que deixou de viver, condição que soava a um pobre sucedânio da morte. A sua identidade era uma analepse, perdida no tempo.

E, portanto, assim partiu, assim foi.

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