-
Estás aí?
-
Sim,
desde a última vez que me perguntaste.
-
Gosto
de sentir a tua voz…já que não te
posso ver.
-
Tenho fome…
-
Eu sei querida. Eu também. Sentir fome é horrível. O melhor é não pensarmos em comida.
-
Já tentei, mas não consigo deixar de pensar no
chocolate que tinha no bolso; ou melhor, no chocolate que creio ainda estar no
meu bolso…não me lembro de o ter comido.
-
Ai
como adoro chocolate. Lembras-te do teu último aniversário? Fiz-te um
bolo de chocolate. Delicioso!
-
Não foste tu que me pediste para não pensar em
comida?
Ambas soltaram gargalhadas nervosas,
contrastando com um silêncio defunto, que se seguiu.
…Também tenho saudades de te ver, de sentir os teus abraços…
A mais
velha esvaiu-se em lágrimas e, na contenção da comoção, conseguiu sentir o coração pulsar, como se de martelo
pneumático se tratasse a abrir alas à sua salvação.
-
Mãe?
-
Sim querida.
-
Tenho medo de morrer...
-
Não vais morrer!
-
….e, pior, de sentir a morte tão próxima, bafejar-me porque dela não posso fugir.
-
Consegues mover o braço?
-
Não.
-
Esforça-te.
-
Dói-me.
-
Claro
que dói. Mais vale sentir dor do que
sentir pena de não ter tentado…
-
É fácil falar…
A
mais velha, de pernas esmagadas por uma viga, respondeu…
-
Tens razão. Só quero sentir que deste tudo por tudo, e, que nesse esforço, enganaste a
morte…
A mais nova
notou que pequenas migalhas de cimento resvalaram junto à sua perna direita.
Quero sentir que o teu futuro
é luminoso e generoso, mesmo que eu …não faça parte dele.
-
Mãe…ouves?
consigo sentir algo a mexer-se junto
às minhas pernas. Acho que alguém nos vem ajudar. Mãe?
A luz veio
com o silêncio.
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