segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Sentir



 
 
-          Estás aí?
-          Sim, desde a última vez que me perguntaste.
-          Gosto de sentir a tua voz…já que não te posso ver.
-          Tenho fome…
-          Eu sei querida. Eu também. Sentir fome é horrível. O melhor é não pensarmos em comida.
-          Já tentei, mas não consigo deixar de pensar no chocolate que tinha no bolso; ou melhor, no chocolate que creio ainda estar no meu bolso…não me lembro de o ter comido.
-          Ai como adoro chocolate. Lembras-te do teu último aniversário? Fiz-te um bolo de chocolate. Delicioso!
-          Não foste tu que me pediste para não pensar em comida?
 
Ambas soltaram gargalhadas nervosas, contrastando com um silêncio defunto, que se seguiu.
 
…Também tenho saudades de te ver, de sentir os teus abraços…
A mais velha esvaiu-se em lágrimas e, na contenção da comoção, conseguiu sentir o coração pulsar, como se de martelo pneumático se tratasse a abrir alas à sua salvação.
-          Mãe?
-          Sim querida.
-          Tenho medo de morrer...
-          Não vais morrer!
-          ….e, pior, de sentir a morte tão próxima, bafejar-me porque dela não posso fugir.
-          Consegues mover o braço?
-          Não.
-          Esforça-te.
-          Dói-me.
-          Claro que dói. Mais vale sentir dor do que sentir pena de não ter tentado…
-          É fácil falar…
 
A mais velha, de pernas esmagadas por uma viga, respondeu…
 
-          Tens razão. Só quero sentir que deste tudo por tudo, e, que nesse esforço, enganaste a morte…
A mais nova notou que pequenas migalhas de cimento resvalaram junto à sua perna direita.
Quero sentir que o teu futuro é luminoso e generoso, mesmo que eu …não faça parte dele.
 
-          Mãe…ouves? consigo sentir algo a mexer-se junto às minhas pernas. Acho que alguém nos vem ajudar. Mãe?
A luz veio com o silêncio.
 
 
 
 

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