Apresentou a sua
demissão às nove da manhã. Às dez, fez a mala. Às onze, saiu de casa rumo à
estação de comboio.
Doze horas antes,
estava no cais com Jonke e, enquanto ele se metamorfaseava em escaravelho, ela
estalava as bolhas do plástico, que envolvia a pistola, anteriormente retirada
da caixa de veludo lilás com berloques dourados. Consumado o processo, viu-se
espelhada, de pistola em riste, na carapaça quitinosa do outro. Antes de
disparar, penteou-se, aprumou-se. Ela sabia que este trejeito social não se
coadunava nem com o ato, e menos ainda com o seu alheamento à estética e, no
entanto, não quis deixar de o presentear com uma última imagem do seu rosto
fúlvido.
Ela amava-o. Ela
sabia que ele a amava mais. Ele amava-a tanto que se entregara à morte, e ela à
insipiência da vida. A bala era uma questão, mais do que uma afirmação. A bala
questionava o que seria dela sem ele...
Lembrava-se dos
alegres momentos em que ambos pontapeavam e socavam os corpos de transeuntes
felizes. A violência, paradigma de moralidade irrepreensível, porventura
maculada pelos instigadores da paz, uns quantos loucos, ou reacionários, o que,
no limite, era a mesma coisa, não condizia bem com amor, um sentimento irracional
e imprevísivel. De facto, enquanto que a demência tinha tudo de racional e,
portanto, podia e deveria ser contida pelo colete de regras sociais, o amor era
uma espécie de necessidade fisiológica básica tornada pública. Era como uma
flatulência sentimental, cuja manifestação ruborizava em vergonha e nojo.
Às doze horas,
sentada no banco de madeira do vagão em movimento e com o ingresso por
obliterar junto aos pés, olhou pela janela e, entre copas e reflexos de
humanidade, viu Jonke. O sorriso distanciou-a daquilo que havia sido, e o
sentimento metamorfaseou-a num escaravelho.
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