terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Escaravelho


Apresentou a sua demissão às nove da manhã. Às dez, fez a mala. Às onze, saiu de casa rumo à estação de comboio.

Doze horas antes, estava no cais com Jonke e, enquanto ele se metamorfaseava em escaravelho, ela estalava as bolhas do plástico, que envolvia a pistola, anteriormente retirada da caixa de veludo lilás com berloques dourados. Consumado o processo, viu-se espelhada, de pistola em riste, na carapaça quitinosa do outro. Antes de disparar, penteou-se, aprumou-se. Ela sabia que este trejeito social não se coadunava nem com o ato, e menos ainda com o seu alheamento à estética e, no entanto, não quis deixar de o presentear com uma última imagem do seu rosto fúlvido.

Ela amava-o. Ela sabia que ele a amava mais. Ele amava-a tanto que se entregara à morte, e ela à insipiência da vida. A bala era uma questão, mais do que uma afirmação. A bala questionava o que seria dela sem ele...

Lembrava-se dos alegres momentos em que ambos pontapeavam e socavam os corpos de transeuntes felizes. A violência, paradigma de moralidade irrepreensível, porventura maculada pelos instigadores da paz, uns quantos loucos, ou reacionários, o que, no limite, era a mesma coisa, não condizia bem com amor, um sentimento irracional e imprevísivel. De facto, enquanto que a demência tinha tudo de racional e, portanto, podia e deveria ser contida pelo colete de regras sociais, o amor era uma espécie de necessidade fisiológica básica tornada pública. Era como uma flatulência sentimental, cuja manifestação ruborizava em vergonha e nojo.

Às doze horas, sentada no banco de madeira do vagão em movimento e com o ingresso por obliterar junto aos pés, olhou pela janela e, entre copas e reflexos de humanidade, viu Jonke. O sorriso distanciou-a daquilo que havia sido, e o sentimento metamorfaseou-a num escaravelho.      

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