sábado, 26 de março de 2011

Absurdo é ser normal!

Sentou a culatra num maple anos 50. Berloques hippies, suspensos nas braçadeiras, interrompiam a funesta cadência homogénea...
"Uma relação mutualista é pugilista pesado em teoria de jogos", pausou, reclinou os óculos escuros sobre o outro, encostou-se novamente e continuou...
"protocooperação ou comensalismo é dar o braço ao crocodilo".

De pontas dos dedos coincidentes, soletrando um triângulo trémulo pela articulação das falanges, expirando em cada pausa do seu semelhante, replicou por fim: "Abafo quem?"
"O picas" saiu como estalo, castigo pela linguagem asséptica. O curto, calças despidas ao nível dos calcanhares, engoliu em seco, e a minhoca da sua maçã de adão, expelida pelo pecado da palavra, desertou...
"O picas" ecoou na boca do outro. "O picas" arrastou o sentido para a imagem criada mentalmente. "O tipo vendeu-me o bilhete para o Taxi driver e..." e quando saiu virou-se para o mesmo e atirou-lhe are you talking to me, pensou sem o verbalizar...
O maple era saudosista. "Era o verde...", pensava o dos óculos escuros, "que me transportava para o bucolismo do pasado". Preferia o passado à sanita falante que lhe atentava para um futuro sofrível devido às incúrias de uma dieta patética (adjectivo soletrado pelo objecto).
O curto temia retaliações e, como tal, refugiava-se no foco do seu olhar que, entretanto, distraira o outro. Um mosquito flatulento cumpria o seu ciclo de vida de 4 segundos. Olhava o relógio, atento à ventosidade sonora do insecto para se certificar do facto científico citado. E, para evitar outro qualquer reparo, repetia a piada de sempre: e se os elefantes tivessem ciclos de vida de 4 segundos e voassem?
Era aborrecido por demais esta previsibilidade e o do maple adormecia, por breves segundos, ressonando a bom som, demonstrando assim o seu estado sem medo. O acordado, de missão entregue, levantou-se, benzeu-se como se estivesse a jogar à macaca e saiu de pontas, tal como as bailarinas que pagava à hora...
Russo, de barba lavrada, colhia alfaces dos poros. Lucia, plantava batatas no quintal, peito avantajado de dificil acesso aos tratores. Ambos viviam deitados, lado a lado, de mãos dadas como verdadeiros Shakespearianos...A única diferença que tinham, relativamente a outros casais, era que os seus corpos eram herdades de cultivo...
Mas tanto Russso quanto Lucia sabiam que tinham os dias contados devido aos problemas de estandardização impostos pelos organismos internacionais...
Um dia teriam que se levantar e cair novamente devido à inércia do tempo, do rito musicado pelo dos óculos que tecia considerações sobre o amor platónico, sentado na cadeira de balouço, entrincheirada e elevada no pedestal do resíduo tóxico, adubo dos enamorados...
Fazia-o com relativa frequência, a voz abafada pela máscara anti-tóxicos, gesticulando vampirescamente, elevando-se da cadeira de madeira para sublinhar a tenacidade da mensagem...
O picas vivia num caixão de três assoalhadas. O rés do chão estava e decomposição mas ao restante alojamento não carecia das comodidade tipicas de uma casa decente.
Entrava sempre pela chaminé e saía por um sonho. Os vizinhos, que não tinha nenhum, chamavam-no de pai natal. Mas ele era cadavérico, baixo, pálido na face, cinzento no restante corpo e não tinha nem uma rena.
O assassino desceria os degraus invisiveis do céu, tocaria à campainha da almofada exterior e penetraria o seu interior, comendo as penas para que o seu corpo tivesse espaço. Posteriormente, teria que por um ovo e esse acto implodiria a sua alma, cuspindo-a para o interior do sarcófago do Picas...
A falta de gravidade da sala redonda permitia ao Picas estar no tecto, de cachimbo apagado na boca, usando-o como chupeta de bébé amestrado, a ler crime e castigo...
‎"Tudo está ao alcance do homem, e tudo lhe escapa, em virtude da sua covardia".
Lia em voz alta quando a sombra da porta se desdobrou no reflexo do quadro de Bruegel...
"Que é que os homens temem, acima de tudo? O que for capaz de mudar-lhes... os hábitos".
Serás tu capaz de mudar os teus? disse sem olhar, porque as palavras não provinham do livro espraiado no ventre peludo...
"Um homem que se afoga agarra-se a uma palha."
Eu dar-te-ei um boia de salvação...agarra-a...
E estendeu os braços, anteb...raços e dedos, assumindo o papel de rendentor kitch.
O curto, emocionado, estendeu o seu braço, cuja mão empunhava uma pistola com silenciador embutido na extremidade, e disparou...
a coreografia das gotas de sangue era corrigida enfaticamente pela professora de salsa e merengue, articulando uma batuta, que, de quando em quando, batia contra a anca esquerda.
Subiu um degrau, percorreu um corredor, pé ante pé, vitrais predominantemente encarnados ladeavam o tapete escorreito, imaculado ao toque, virgem de parto coincidente com o milagre da porta entreaberta que ele agora trespassava...
Ele era o feto, tornado homem, após a morte. Crescia uns cms, mostrando não só o calcanhar, mas também a canela. Robusto, poderoso, sentia os pelos de um peito inchado amadurecerem...prontos para a colheita...

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