“Faltou
tentar o impossível”. A interjeição colocada pelo estranho de fraque, tom
noturno de pele, fado aos ombros, e anéis de vinho tinto no lugar de óculos, nadava
no mesmo vácuo contextual que a sua presença naquela loja de conveniência. E
denomino-a de interjeição porque se tratava de um desdobramento, um genérico da
palavra “alerta”, cuspido com esplendor. Revi, em memória residual, a frase que
se assemelhava a uma Vénus de Milo. E, foi na busca dos membros ausentes, que retorqui
com os sobrolhos, arqueando-os tais gatos coléricos. Ele, consentidamente
mordendo o anzol, rematou com a palavra “civilização”. O meu cérebro pareceu
então converter-se num ábaco, cuja soma da informação recebida tendia a igualar
mais a minha perceção da sua lógica do que a real lógica do meu interlocutor. Nessa
egocêntrica indução, perspetivei uma eventual relação entre civilização e contrato
social, e, foi quando me preparava para a verbalizar, que ele estendeu os
braços, erguendo-os e erguendo as palavras ao púlpito da razão: “Na deificação
da predação e do darwinismo, o ser humano colocou um garrote no tecido social,
não deixando bombear os sentimentos à razão, contribuindo, assim, para
entronizar a solidão”. Pausou durante breves segundos, apenas para perscrutar
se o estava a acompanhar. Não vendo reação, prosseguiu: “Que fé inabalável é
esta em contratos sociais assentes em sistemas coercivos, em que, na melhor das
hipóteses, a qualidade que vinga é a tolerância? Falta tentar o impossível.
Falta tentar a harmonia…” Empolgado com tal dialética, levantei-me, paguei o
café que não cheguei a beber, e perguntei-lhe quem ele era. A resposta foi
imediata, porque a pergunta ele já a esperava: “Sou Prometeu e trago o fogo à
humanidade…”.
Sem comentários:
Enviar um comentário