quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Faltou tentar o impossível

“Faltou tentar o impossível”. A interjeição colocada pelo estranho de fraque, tom noturno de pele, fado aos ombros, e anéis de vinho tinto no lugar de óculos, nadava no mesmo vácuo contextual que a sua presença naquela loja de conveniência. E denomino-a de interjeição porque se tratava de um desdobramento, um genérico da palavra “alerta”, cuspido com esplendor. Revi, em memória residual, a frase que se assemelhava a uma Vénus de Milo. E, foi na busca dos membros ausentes, que retorqui com os sobrolhos, arqueando-os tais gatos coléricos. Ele, consentidamente mordendo o anzol, rematou com a palavra “civilização”. O meu cérebro pareceu então converter-se num ábaco, cuja soma da informação recebida tendia a igualar mais a minha perceção da sua lógica do que a real lógica do meu interlocutor. Nessa egocêntrica indução, perspetivei uma eventual relação entre civilização e contrato social, e, foi quando me preparava para a verbalizar, que ele estendeu os braços, erguendo-os e erguendo as palavras ao púlpito da razão: “Na deificação da predação e do darwinismo, o ser humano colocou um garrote no tecido social, não deixando bombear os sentimentos à razão, contribuindo, assim, para entronizar a solidão”. Pausou durante breves segundos, apenas para perscrutar se o estava a acompanhar. Não vendo reação, prosseguiu: “Que fé inabalável é esta em contratos sociais assentes em sistemas coercivos, em que, na melhor das hipóteses, a qualidade que vinga é a tolerância? Falta tentar o impossível. Falta tentar a harmonia…” Empolgado com tal dialética, levantei-me, paguei o café que não cheguei a beber, e perguntei-lhe quem ele era. A resposta foi imediata, porque a pergunta ele já a esperava: “Sou Prometeu e trago o fogo à humanidade…”.

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