Ninguém realmente crê ser extremista nas suas posições, nas suas crenças sobre as temáticas mais assertivas para a sociedade. Isso aplica-se, em pequena escala à grande escala país, e, em grande escala à pequena escala cidadão.
Se Hitler estivesse vivo, e se alguém o entrevistasse hoje, com certeza explanaria, com a maior das naturalidades, as suas decisões sublinhando a normalidade destas e a palavra extremismo seria obliterada do seu discurso. Por outro lado, um qualquer ditador comparar-se-ia com Hitler e considerar-se-ia muito saudável quanto às políticas e excessos adoptados, nunca referindo qualquer excesso mas sim necessidade face às conjunturas dos seus mandatos. Um político moderado, na adopção de políticas menos moderadas, comparar-se-ia com um qualquer ditador, e seria presenteado com a conclusão de que ele era de facto um governante sábio, capaz de moderar uma nação mesmo quando, por vezes, surgisse a necessidade de um punho mais duro e inflexível a bem do povo ao qual servisse.
Um político liberal teria a tentação de comparar o moderado, aquando de posições mais inflexíveis, com um qualquer ditador e elevaria a liberdade individual ao extremo, não negligenciando o ser colectivo, mas considerando que o segundo serviria o primeiro, i.e que o colectivo teria funções de servilismo face ao individuo.
Um anarquista olharia o liberal com desconfiança, nem sequer concebendo a ideia do colectivo servir o individuo, de aspirações tão subjectivas e em constante devir motivacional. Para este, as regras não poderão ser impostas a nível superior mas sim de forma sintomática. Compararia a política a um médico que, não analisando os seus pacientes, receitaria antibióticos a todos eles. O resultado final seria que alguns acentuariam as suas enfermidades, enquanto que outros, por pura sorte da providência, curar-se-iam. A regra é conjuntural per si, e como tal regras escritas e imposição de hierarquias atrofiam o aparelho social criando ferrugem na interacção dos sujeitos sociais.
Finalmente, um qualquer individuo, comparando-se com o seu vizinho, considera que as suas assunções, comportamentos e decisões são racionalmente prescritos e que ele, ao contrário dos que o rodeiam, é moderado. Isso aplicar-se-ia aos temas mais variados desde pena de morte, aborto, eutanásia, casamento de dois indivíduos do mesmo sexo, etc.
Invariavelmente, erramos quando recorremos à comparação para validarmos as nossas posições. Invariavelmente, erramos porque comparamos o que é incomparável. Nós não temos uma opinião mais assertiva e equitativa sobre uma temática, por sermos mais ou menos moderados do que o político x ou o vizinho y. Nós temos uma opinião mais assertiva e mais equitativa quando respeitamos o ser humano, como ele se apresenta ao mundo e como ele se desenvolve como ser individual e social. Nós temos uma opinião mais assertiva e equitativa quando respeitamos as suas crenças, motivações, ambições e decisões sobre a sua própria vida.
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