terça-feira, 27 de março de 2012

Escritor

Póstumo era o livro de autor morto-vivo, de cotovelo espasmódico, desenhando círculos imaginários, não por convicção, mas pelo esmorecer prematuro da destreza motora. Os círculos eram mais largos quando ele erguia o antebraço e, mesmo a folha que suportava com a mão entornada de idade, parecia peso pesado. O músculo do membro era vela levada pelo vento e as veias eram cordas lassas, que se estiravam ao sol e que quebrantavam a qualquer momento.
As pernas eram sobretudo joelhos. Joelhos aço, inflexíveis, borbotos de osso ressequidos, ensoberbecidos pelo passo passado. Só se levantava para morrer. E fazia-o pouco, mas de forma eficaz.
Os olhos prolongavam-se num caudal, que inundava toda a pele, acastanhando-a abaixo dos globos estilhaçados em veios encarniçados. As pestanas eram redes de emalhar, aprisionando um olhar, que não era físico, mas penetrante e a atenção de um diálogo, geralmente metamorfoseado em monólogo, devido à extensa vivência e longura dos motivos para palestrar.
Sonhava publicar, mas nunca havia finalizado uma única obra. O processo da escrita, a criação de personagens e cenários era como conhecer novos amigos e visitar novos lugares. O frémito focava-se nos preâmbulos e o enredo era fábrica que, pelo facilitismo, atraía apatia.
Mas no dia em que pensara morrer, arrependera-se de não se testar ao mundo. Estendido numa cama hospitalar, no meio do deserto, sem vivalma por perto, que não um ou outro cacto ou rocha, soro era oásis literário, salvação para a publicação.
Agarrara-se ao sopro de vida mas deixara esvair a fala, o movimento, acção e reacção. Era mais um dos elementos do deserto, que ele próprio erguera. Aos poucos, foi-se apercebendo que oásis era miragem desenhada em palavras num qualquer trecho que erigira. Foi-se apercebendo que cada grão de areia sugava cada segundo de vida que lhe restava e o póstumo livro se esculpia no vento que mareava o músculo do braço defunto.

Sem comentários:

Enviar um comentário