quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Audiência


O desmesurado estrondo do malhete contra a base quadrangular de madeira era o reflexo de uma mente acossada; e, a leitura da sentença, rebeldia declarada de um juíz, imolando o seu poleiro social.

O quesito inelutável, assim supusera a oleada, mas entediante, roldana jurídica, paria o pornográfico mandamento bíblico do acusador amar o acusado, e, ainda para mais, perpetuamente. Seria deveras ultrajante, se não fosse embaraçoso. O verbalizar de um sentimento, caído em desuso e agrilhoado à vergonha, ruborizou os cinzentos agentes de autoridade, os funcionários e peritos de justiça, os advogados, os jurados, as testemunhas, a plateia e, sobretudo, a pretensa vítima e o arguido , cujo veredicto lhes pesava nas perplexas mandíbulas.

Ao silêncio, que se gerou, sobrepôs-se o caudal de lágrimas, desaguando na flacidez de uma pele, cujas rugas eram pardas, camuflando, durante uma vida, amores não declarados, abortados pela massificada razão; aquela, que conduziria a raça humana ao monte Olimpo. O juíz não se contivera, mareando na mágoa entre alívio e vergonha, exultação e constrição. Ele, mais do que ninguém, sabia que a relação entre semelhantes deveria resumir-se à camaradagem, laço que se coadunava com a ordeira marcha civilizacional rumo à sublimação da espécie humana. O amor às várias fontes de conhecimento, esse sim, era enaltecível, embora a palavra apropriada para o designar fosse “afeição”, um subterfúgio línguistico conveniente para tornar o dicionário menos prolixo e, acima de tudo, menos emocional.

Mas era amor o que ele sentia e declarava-o na prosa de uma sentença, abarcando toda a humanidade e não exclusivamente os intervenientes daquela sala de audiência. De mãos algemadas, rugas coradas, olhos e boca livres clamou, enquanto era levado à força: condeno a humanidade a amar-se perpetuamente. Condeno a humanidade a ser feliz!

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