O desmesurado estrondo do malhete contra a base quadrangular
de madeira era o reflexo de uma mente acossada; e, a leitura da sentença,
rebeldia declarada de um juíz, imolando o seu poleiro social.
O quesito inelutável, assim supusera a oleada, mas
entediante, roldana jurídica, paria o pornográfico mandamento bíblico do
acusador amar o acusado, e, ainda para mais, perpetuamente. Seria deveras
ultrajante, se não fosse embaraçoso. O verbalizar de um sentimento, caído em
desuso e agrilhoado à vergonha, ruborizou os cinzentos agentes de autoridade,
os funcionários e peritos de justiça, os advogados, os jurados, as testemunhas,
a plateia e, sobretudo, a pretensa vítima e o arguido , cujo veredicto lhes
pesava nas perplexas mandíbulas.
Ao silêncio, que se gerou, sobrepôs-se o caudal de lágrimas,
desaguando na flacidez de uma pele, cujas rugas eram pardas, camuflando, durante
uma vida, amores não declarados, abortados pela massificada razão; aquela, que conduziria
a raça humana ao monte Olimpo. O juíz não se contivera, mareando na mágoa entre
alívio e vergonha, exultação e constrição. Ele, mais do que ninguém, sabia que
a relação entre semelhantes deveria resumir-se à camaradagem, laço que se
coadunava com a ordeira marcha civilizacional rumo à sublimação da espécie
humana. O amor às várias fontes de
conhecimento, esse sim, era enaltecível, embora a palavra apropriada para o
designar fosse “afeição”, um subterfúgio línguistico conveniente para tornar o
dicionário menos prolixo e, acima de tudo, menos emocional.
Mas era amor o que ele sentia e declarava-o na prosa de uma
sentença, abarcando toda a humanidade e não exclusivamente os intervenientes daquela
sala de audiência. De mãos algemadas, rugas coradas, olhos e boca livres clamou,
enquanto era levado à força: condeno a humanidade a amar-se perpetuamente. Condeno
a humanidade a ser feliz!
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