quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Restava...


Restava uma bala no tambor. A pistola, de nome Arma, e de onde provieram os sete tiros, não era de metal, mas de carne e osso; e sendo tão ciosa das suas balas, sentiu-se, naturalmente, saqueada pelo origami, de membros inflados e chapéu à cowboy, que, entretanto, a voltava a guardar.

Instantes depois, enquanto a Arma, confortavelmente acomodada numa das assoalhadas do coldre, redigia uma queixa formal, o origami desceu os degraus de Escher. Já no telhado, assobiou, e a sua nuvem, entre relinchos, choveu, que era a maneira como anunciava a sua presença. Sentou a culatra na sela e cavalgou para um sol posto, oferecendo as costas a uma moribunda lua, jazendo em sangue e questionando-se sobre a razão de tanta violência.

A forma como, durante a noite, os prédios se metamorfoseavam em animais, arregaçavam os passeios malhados, esticavam os pescoços à lua, saudando-a com uivantes piropos, havia alimentado o ciúme do poeta Heterónimo, um assumido monogâmico literário. Certo dia, enquanto regava os narcisos, declamando excertos da sua obra a um espelho demitido, decidira, egoisticamente auto-flagelar-se, contratando um assassino profissional, e comprometendo-se pagar-lhe com a alma, já que carecia de talento.

No dia em que o origami voltou para cobrar o seu serviço, encontrou um arrependido Heterónimo, suspirando a uma minguada lua e argutamente tecendo um feiticeiro poema, esperançoso de ressuscitar a sua amada. O cumprimento de origami despertou a enfunada Arma que, antecipando mais uma usurpação abusiva dos seus bens, decidiu por termo ao desaforo. Sacou-se e disparou-se. O calejado origami, de movimentos felinos, esquivou-se, vendo a bala anichar-se na fronte de Heterónimo.  

E é por isso que, a partir desse dia, já não existe lua cheia. A Arma tornou-se uma pacifista e o origami virou declamador, inflando uma lua furada com o único poema que lhe restava.

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