Restava uma bala no tambor. A pistola, de nome Arma, e de
onde provieram os sete tiros, não era de metal, mas de carne e osso; e sendo
tão ciosa das suas balas, sentiu-se, naturalmente, saqueada pelo origami, de
membros inflados e chapéu à cowboy, que,
entretanto, a voltava a guardar.
Instantes depois, enquanto a Arma, confortavelmente
acomodada numa das assoalhadas do coldre, redigia uma queixa formal, o origami desceu
os degraus de Escher. Já no telhado, assobiou, e a sua nuvem, entre relinchos,
choveu, que era a maneira como anunciava a sua presença. Sentou a culatra na
sela e cavalgou para um sol posto, oferecendo as costas a uma moribunda lua, jazendo
em sangue e questionando-se sobre a razão de tanta violência.
A forma como, durante a noite, os prédios se metamorfoseavam
em animais, arregaçavam os passeios malhados, esticavam os pescoços à lua,
saudando-a com uivantes piropos, havia alimentado o ciúme do poeta Heterónimo,
um assumido monogâmico literário. Certo dia, enquanto regava os narcisos, declamando
excertos da sua obra a um espelho demitido, decidira, egoisticamente auto-flagelar-se,
contratando um assassino profissional, e comprometendo-se pagar-lhe com a alma,
já que carecia de talento.
No dia em que o origami voltou para cobrar o seu serviço,
encontrou um arrependido Heterónimo, suspirando a uma minguada lua e
argutamente tecendo um feiticeiro poema, esperançoso de ressuscitar a sua
amada. O cumprimento de origami despertou a enfunada Arma que, antecipando mais
uma usurpação abusiva dos seus bens, decidiu por termo ao desaforo. Sacou-se e
disparou-se. O calejado origami, de movimentos felinos, esquivou-se, vendo a
bala anichar-se na fronte de Heterónimo.
E é por isso que, a partir desse dia, já não existe lua
cheia. A Arma tornou-se uma pacifista e o origami virou declamador, inflando
uma lua furada com o único poema que lhe restava.
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