terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Uma mulher encontra um papel desconhecido na sua carteira, no qual se podem ler as seguintes palavras: quando abrires os olhos verás.

Ora ela, desprovida que estava à nascença de globos oculares, que lhe permitiriam, não só ler o conteúdo do papel, como acalentar esperança em discernir sobre a figura de estilo inerente, apalpou o mesmo e, não decifrando sentido, conduziu-o ao seu amigo Tapete.

“Tapete” não era nome; era alcunha do indivíduo, estendido à entrada de uma das zonas comerciais da cidade, exercendo as suas funções de tapete. O sujeito não tinha espinha dorsal, nem outras ossadas de renome, e as costas peludas eram bálsamo para os pés de clientes, habituados aos costumes orientais de deixar os sapatos à porta.

Gozado frequentemente enquanto criança, e, de forma intermitente enquanto adulto, porque alguém, certo dia, teve o mau gosto de associar a ausência de uma espinha dorsal à falta de coragem, caráter, determinação, e outros atributos que tal, não teria, como se poderá facilmente deduzir, um fraquinho por metáforas, o que contribuiu para contaminar a leitura com uma entoação muito pouco assética. A mulher, acariciando os pêlos vergados das costas do amigo, sentindo o seu sofrimento em cada palavra, tal como pitadas de sal, precipitadas em chagas, que supuram clemência, abriu os olhos, se olhos tivesse; quis chorar, mas não podia. E, portanto, resumiu-se ao ato. Enternecida, pegou nele às costas e carregou-o porta fora. Ele, compreendendo a união declarada, vociferou:  

Eu vou…vou ser feliz!

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