Ora ela, desprovida que estava à nascença de globos
oculares, que lhe permitiriam, não só ler o conteúdo do papel, como acalentar
esperança em discernir sobre a figura de estilo inerente, apalpou o mesmo e,
não decifrando sentido, conduziu-o ao seu amigo Tapete.
“Tapete” não era nome; era alcunha do indivíduo, estendido à
entrada de uma das zonas comerciais da cidade, exercendo as suas funções de
tapete. O sujeito não tinha espinha dorsal, nem outras ossadas de renome, e as
costas peludas eram bálsamo para os pés de clientes, habituados aos costumes
orientais de deixar os sapatos à porta.
Gozado frequentemente enquanto criança, e, de forma
intermitente enquanto adulto, porque alguém, certo dia, teve o mau gosto de
associar a ausência de uma espinha dorsal à falta de coragem, caráter,
determinação, e outros atributos que tal, não teria, como se poderá facilmente deduzir,
um fraquinho por metáforas, o que contribuiu para contaminar a leitura com uma
entoação muito pouco assética. A mulher, acariciando os pêlos vergados das
costas do amigo, sentindo o seu sofrimento em cada palavra, tal como pitadas de
sal, precipitadas em chagas, que supuram clemência, abriu os olhos, se olhos
tivesse; quis chorar, mas não podia. E, portanto, resumiu-se ao ato. Enternecida,
pegou nele às costas e carregou-o porta fora. Ele, compreendendo a união
declarada, vociferou:
Eu vou…vou ser feliz!
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