Havia um lago escondido por brumas e guardado por duas criaturas, que mantinham uma vigilância ininterrupta. Como nunca se cansavam, não dormiam e nunca se distraíam. De longe, assemelhavam-se a duas mulheres, se descontassemos o facto de terem as faces mumificadas e os membros inferiores exageradamente compridos, o que as obrigava a segurarem cada uma um tronco delgado e longo como bengala, sugestionando a imagem de dois enormes tripés ambulantes. Tinham o cabelo negro e, não cobrindo a parte superior dos seus corpos, descobriam dois círculos mamários curtos e ressequidos, que se destacavam da restante pele colada às costelas comprimidas. Os membros inferiores estavam cobertos com saias de luto, que inclusivamente lhes escondiam os pés. Quem as visse ficaria com a impressão que o comprimento desproporcionado lhes havia esticado tanto a pele, que o desenvolvimento de massa muscular estava consequentemente impossibilitado. E, no entanto, e apesar dos olhos estarem ocultos entre ligaduras, ostentavam um vigor ameaçador, um porte robusto, de movimentos lestos e desembaraçados.
Estas sentinelas, como seria expectável, não guardavam o lago de potenciais intrusos, porque não os havia, mas, ao invés, mantinham no lago o que não era suposto sair. Da sua composição não constava uma única partícula de H2O. De facto, os vários milhares de metros cúbicos eram preenchidos por miríades de almas no estado liquido. Para que fique claro, e para quem ainda desconheça, a morte é um processo normal de condensação da alma: do estado gasoso, e inflando os pulmões, passa ao estado liquido perante o último suspiro, uma forma de materializar o protesto face ao inevitável. As brumas, que emparedam o espaço circudante, correspondem ao ciclo, e, portanto, ao transitável, e o lago ao repositório do consumado. Sendo assim, as brumas movimentam-se de forma constante e unívoca, tal como o fluir de um rio interceptado pelas pás do moínho, porque o contrário representaria um desrespeito às leis universais; e a garantia do cumprimento é personificada nestas duas criaturas.
Uma pergunta pertinente e legítima, que despertará da curosidade de muitos, relacionar-se-á com as razões pelas quais as almas se encontram neste estado de eterno encarceramento, ao que o autor será obrigado a replicar uma das teorias de conspiração, murmurada entre velhos sábios, desprovido que está de uma explicação mais empírica. Segundo reza a teoria, o aprisionamento das almas tem o condão de satisfazer dois objetivos. Primeiro, o de as manter longe do mundo dos vivos, já que a eventual interação suscitaria uma tremenda confusão; seria como misturar alhos com bugalhos, e todos sabemos que um alho não rima bem com um bugalho. Segundo, e de carácter mais prático, o de providenciar energia aos deuses. Este último prende-se com a capacidade energética inesgotável das almas e com a necessidade quase diária de recarregamento destas criaturas, que precisam de rios, ou neste caso de lagos, de energia, considerando que existem centenas de deuses ativos, e cuja grande maioria facilmente adquire proporções deintescas. É todavia curioso verificar que, apesar da propaganda dirigida pelas diversas religiões, mobilizando os vivos à devoção, os deuses precisam mais de nós mortos do que vivos. E é exatamente por essa razão que a imiscuição entre o divino e o humano é comum. E é exatamente devido à anti natura descrita que muitos humanos perecem misteriosamente...
Estas sentinelas, como seria expectável, não guardavam o lago de potenciais intrusos, porque não os havia, mas, ao invés, mantinham no lago o que não era suposto sair. Da sua composição não constava uma única partícula de H2O. De facto, os vários milhares de metros cúbicos eram preenchidos por miríades de almas no estado liquido. Para que fique claro, e para quem ainda desconheça, a morte é um processo normal de condensação da alma: do estado gasoso, e inflando os pulmões, passa ao estado liquido perante o último suspiro, uma forma de materializar o protesto face ao inevitável. As brumas, que emparedam o espaço circudante, correspondem ao ciclo, e, portanto, ao transitável, e o lago ao repositório do consumado. Sendo assim, as brumas movimentam-se de forma constante e unívoca, tal como o fluir de um rio interceptado pelas pás do moínho, porque o contrário representaria um desrespeito às leis universais; e a garantia do cumprimento é personificada nestas duas criaturas.
Uma pergunta pertinente e legítima, que despertará da curosidade de muitos, relacionar-se-á com as razões pelas quais as almas se encontram neste estado de eterno encarceramento, ao que o autor será obrigado a replicar uma das teorias de conspiração, murmurada entre velhos sábios, desprovido que está de uma explicação mais empírica. Segundo reza a teoria, o aprisionamento das almas tem o condão de satisfazer dois objetivos. Primeiro, o de as manter longe do mundo dos vivos, já que a eventual interação suscitaria uma tremenda confusão; seria como misturar alhos com bugalhos, e todos sabemos que um alho não rima bem com um bugalho. Segundo, e de carácter mais prático, o de providenciar energia aos deuses. Este último prende-se com a capacidade energética inesgotável das almas e com a necessidade quase diária de recarregamento destas criaturas, que precisam de rios, ou neste caso de lagos, de energia, considerando que existem centenas de deuses ativos, e cuja grande maioria facilmente adquire proporções deintescas. É todavia curioso verificar que, apesar da propaganda dirigida pelas diversas religiões, mobilizando os vivos à devoção, os deuses precisam mais de nós mortos do que vivos. E é exatamente por essa razão que a imiscuição entre o divino e o humano é comum. E é exatamente devido à anti natura descrita que muitos humanos perecem misteriosamente...
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