Todos sabemos que o conceito utópico do papel do estado passa pela imposição de justiça, numa organização humana por ele estabelecida, isto porque os instrumentos automáticos, de um aparelho social vagueando no vácuo, tendem a criar situações pouco equitativas. Mas os estados têm uma capacidade inata de se alhearem das suas responsabilidades através da consecução de objetivos específicos, e nem sempre coincidentes com os das comunidades visadas, ao atribuirem primazia à eficá...cia, todavia descurando na eficiência da esfera social. Um exemplo do que foi afirmado é passível de observação nas várias metrópoles urbanas, onde o estacionamento passou a ser objeto de pagamento tornando-o inacessível para muitos cidadãos. Obviamente que, não tecendo apologias ao tráfico exacerbado nos centros urbanos, parece-me que existem instrumentos de racionalização que, para além de cumprirem este objetivo, não denegrecem a equidade social. A lógica inerente ao pagamento deste serviço é simples e eficaz: quanto maior for o custo, menor será a procura. Curiosamente, é mais caro estacionar o carro num local desprotegido, alvo de intempéries e de furtos, do que visitar um dos muitos museus tais como o musée d’art moderne em Paris, e estar exposto às externalidade positivas da arte, sem desembolsar um único cêntimo. Todos nós sabemos que, para quem tem muito, o parqueamento, mesmo que costumeiro, não desbasta riqueza. Para quem tem muito, o estacionamento passa a ser mais apetecível, porque as diminuições na procura flexibilizam as deslocações. Por outro lado, quem tem pouco sente-se lesado, sobretudo quando esse serviço representava um conforto, e não um luxo. Quem tem pouco, e precisa de trabalhar, tem que encontrar alternativas de locomoção, que, em alguns casos, lhe reduzem o tempo de lazer e com os seus. Por outras palavras, o estado, ao qual lhe são incumbidas tarefas de justiça social, disponibiliza serviços, não a quem precisa mais, mas a quem paga melhor. Imaginemos um navio prestes a afundar e onde existe apenas um barco salva-vidas. Esta situação conduzirá a um raciocínio deveras fácil, dirão alguns, porque a parábola é extremista. De facto, quase todos concordarão que crianças, idosos e mulheres (sobretudo grávidas) deverão ser atendidos com prioridade. Contudo, se colocássemos o estado como comandante desta embarcação, este cercearia o acesso ao barco salva-vidas, não sustentando a mesma numa lógica de direito e moralidade, mas numa lógica de quem tem a maior riqueza.
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